"As Batidas Debaixo do Chão" Capítulo 3 — Ela Não Estava Sozinha
As sirenes chegaram sete minutos depois.
Para Rafael, pareceram sete horas.
Os paramédicos levaram Mariana para o Hospital São Gabriel.
Vanessa foi conduzida para prestar depoimento.
Sofia não soltou a mão do pai.
Naquela noite, ela se recusou a dormir no próprio quarto.
Rafael colocou um colchão ao lado da cama e permaneceu ali até a respiração da filha ficar lenta.
Quando pensou que ela dormia, Sofia perguntou:
“Vanessa vai voltar?”
“Não.”
“Tem certeza?”
“Tenho.”
“Você acreditou em mim?”
Rafael sentiu a pergunta como um golpe.
“Acreditei.”
“Ela não acreditou.”
“Eu sei.”
Sofia fechou os olhos.
“Minha mãe vai morrer?”
“Não.”
Ele precisava acreditar nisso.
“Ela está sendo cuidada.”
Sofia segurou o coelho.
“Foi a batida que salvou ela?”
Rafael beijou a testa da filha.
“Foi você que ouviu.”
Na manhã seguinte, Mariana estava acordada.
A tomografia não indicara lesão grave, mas os médicos queriam mantê-la em observação.
Delegada Camila Torres chegou pouco depois das nove.
“Preciso entender a sequência.”
Mariana contou.
Na sexta-feira, às sete e meia da noite, recebera uma mensagem.
“De Vanessa?”
“Não.”
“De quem?”
Mariana olhou para Rafael.
“Dele.”
Camila franziu a testa.
Rafael também.
“Minha?”
“Do seu número.”
“Eu não mandei nada.”
“Eu sei disso agora.”
Mariana pediu seu telefone, mas estava com a polícia.
Então repetiu de memória:
“Precisamos conversar sobre a Sofia. Venha sem avisar Vanessa.”
Rafael ficou em silêncio.
“Eu estava dirigindo para Campinas.”
“Eu achei estranho. Mas Sofia estava com vocês.”
“Por que você não me ligou?”
“Porque a mensagem dizia que Vanessa não podia saber.”
Camila perguntou:
“Quando chegou à casa?”
“Pouco depois das oito.”
“Vanessa estava lá?”
“Sim.”
“Como reagiu?”
“Como se estivesse me esperando.”
Mariana descreveu a discussão.
Ela perguntou sobre a mensagem.
Vanessa negou ter conhecimento.
Depois mudou.
Disse que Rafael estava desconfiado da forma como Mariana interferia na criação de Sofia.
“Isso não faz sentido”, Rafael interrompeu.
“Eu sei.”
Mariana continuou.
Ela decidiu ir embora.
Ao passar pela cozinha, ouviu Vanessa falando com alguém.
“Homem ou mulher?”
“Homem.”
“O que disseram?”
“Vanessa falou: ‘Você disse que ele nunca descobriria.’”
Rafael levantou os olhos.
“Descobriria o quê?”
“Não sei.”
Mariana tentou sair.
Então alguém apareceu atrás dela.
“Você viu?”
“Não direito.”
“Reconheceria?”
“Talvez a voz.”
Depois disso, lembrava apenas de acordar no porão.
Camila anotou.
“Vanessa diz que você caiu durante uma discussão.”
“Ela está mentindo.”
“Encontramos seu telefone com ela.”
“E minhas chaves?”
“Também.”
Rafael caminhou até a janela.
Camila continuou:
“Tem outra coisa.”
Ela colocou uma folha sobre a mesa.
“Analisamos preliminarmente o celular de Vanessa.”
Rafael voltou.
“Havia mensagens apagadas.”
“Com quem?”
“Um número sem nome salvo.”
Camila leu:
**Ela ouviu.**
Outra:
**Rafael está voltando.**
E uma terceira, anterior:
**Se Mariana descobriu, acabou.**
Rafael sentiu o corpo gelar.
“Descobriu o quê?”
“É o que queremos saber.”
Mariana permaneceu calada.
Camila perguntou:
“Você estava investigando Vanessa?”
“Não.”
“Finanças?”
Mariana hesitou.
Rafael percebeu.
“Mariana.”
Ela desviou os olhos.
“Há duas semanas aconteceu uma coisa.”
“O quê?”
“Recebi um e-mail da escola da Sofia.”
Rafael esperou.
“Era uma confirmação de pagamento.”
“E?”
“A conta não era minha.”
“Provavelmente a Vanessa pagou.”
“Não.”
Mariana olhou diretamente para ele.
“A conta estava no seu nome.”
“Eu pago várias despesas dela.”
“Essa não era sua conta habitual.”
Camila se inclinou.
“Você verificou?”
“Sim.”
“Como?”
“Liguei para a escola. Achei que tinham enviado um comprovante errado.”
Mariana respirou fundo.
“A secretária confirmou que aquele número de conta estava cadastrado havia meses.”
Rafael franziu a testa.
“Nunca vi essa conta.”
“Por isso comecei a perguntar.”
Camila anotou.
“Vanessa sabia?”
“Ela descobriu.”
“Como?”
“Eu perguntei diretamente.”
Rafael passou a mão pelo rosto.
“E você não me contou?”
“Eu ia contar.”
“Quando?”
“Depois de ter certeza.”
“Você quase morreu tentando ter certeza.”
“E você estava morando com ela.”
O silêncio pesou.
Camila interrompeu.
“Não vamos resolver isso discutindo agora.”
Seu celular vibrou.
Ela leu uma mensagem.
Depois outra.
Seu olhar mudou.
“Delegada?”
Camila levantou-se.
“O número que trocava mensagens com Vanessa era pré-pago.”
“Então acabou?”
“Não.”
Ela virou a tela.
“Conseguimos registros de conexão aproximados.”
Rafael não entendeu.
Camila explicou:
“O aparelho esteve repetidas vezes na mesma região.”
“Que região?”
Ela olhou para ele.
“Seu escritório.”
Rafael ficou imóvel.
“Isso pode significar qualquer pessoa.”
“Pode.”
“Quantas pessoas trabalham lá?”
“Quarenta e duas.”
“Então investigaremos quarenta e duas.”
Mariana observava Rafael.
Ele já pensava nos nomes.
Sócios.
Funcionários.
Prestadores.
Seguranças.
Gente que conhecia Vanessa.
Gente que conhecia Mariana.
Gente que sabia quando ele viajaria.
Então Mariana lembrou de outra coisa.
“Rafael.”
“O quê?”
“Na sexta...”
Ela fechou os olhos.
“A pessoa que estava com Vanessa tinha chegado de carro.”
“Você viu?”
“Só pela janela.”
“Qual carro?”
“Preto. Grande.”
“Tem milhares.”
“Eu sei.”
Mariana respirou.
“Mas tinha o adesivo da sua empresa no para-brisa.”
Rafael não respondeu.
Camila fechou o bloco.
A investigação acabara de sair da casa.
E entrar na empresa dele.
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