"As Batidas Debaixo do Chão" Capítulo 1 — Três Batidas
Às oito e vinte da manhã de sábado, Sofia Almeida já estava pronta havia quase meia hora.
A mochila roxa permanecia ao lado da porta da casa em Alto da Lapa, com uma orelha do coelho de pelúcia presa no zíper. Dentro, ela havia colocado duas mudas de roupa, o livro que a mãe prometera terminar naquela noite e uma caixa pequena de lápis de cor.
Mariana chegaria às nove.
Era o sábado delas.
Sofia sabia disso com a certeza absoluta que só uma criança de cinco anos conseguia ter.
Por isso, quando Vanessa Carvalho apareceu no corredor usando um cardigã bege e segurando uma caneca de café, Sofia apontou para o relógio da parede.
“Minha mãe vai chegar daqui a pouco.”
Vanessa parou.
Foi apenas por um segundo.
Depois sorriu.
“Sobre isso... sua mãe mandou uma mensagem ontem à noite.”
Sofia franziu a testa.
“Que mensagem?”
“Ela mudou os planos.”
“Não mudou.”
Vanessa respirou fundo.
“Mudou, sim. Aconteceu alguma coisa e ela pediu para você ficar aqui hoje.”
Sofia olhou para a mochila.
Mariana às vezes chegava atrasada. Uma vez esquecera as chaves dentro do apartamento. Outra vez tinha ido até o estacionamento do trabalho usando dois brincos diferentes.
Mas nunca esquecia Sofia.
Muito menos o sábado delas.
“Quero ver.”
Vanessa hesitou.
“Ver o quê?”
“A mensagem.”
Antes que Vanessa respondesse, o celular dela começou a tocar.
Era Rafael.
Vanessa atendeu por vídeo.
O rosto cansado de Rafael Almeida apareceu na tela. Ele estava dentro da caminhonete, estacionada diante de uma obra em Campinas.
“Sofia já acordou?”
“Estou aqui!”
A menina correu.
“Pai, a mamãe não vem.”
O sorriso de Rafael desapareceu.
“Como assim?”
Vanessa virou a câmera para si.
“Mariana me mandou mensagem ontem. Disse que surgiu um problema.”
“Ela falou comigo às sete.”
“Depois disso.”
“Me mostra.”
Vanessa abriu a conversa.
A mensagem era curta.
**Aconteceu uma coisa. Preciso que a Sofia fique com vocês de manhã. Ligo quando puder.**
Rafael leu duas vezes.
“Que horas ela mandou?”
“Onze e dezessete.”
“Estranho.”
Vanessa cruzou os braços.
“Por quê?”
“Porque ela não falou nada comigo.”
Sofia aproximou o rosto da tela.
“Ela prometeu panquecas.”
Rafael imediatamente suavizou a voz.
“Eu sei, pequena.”
“Ela não esquece.”
“Eu sei.”
“Então liga para ela.”
“Vou ligar agora.”
Sofia assentiu, satisfeita com a solução.
Adultos tinham telefones.
Telefones resolviam coisas.
Rafael prometeu retornar e desligou.
Vanessa levou Sofia para a cozinha.
A casa era antiga, construída décadas antes de os prédios modernos tomarem aquela parte da cidade. Rafael comprara o imóvel dois anos antes e ainda reformava pequenos trechos nos fins de semana.
Naquela manhã chuvosa, porém, tudo parecia mais escuro.
Vanessa colocou ovos mexidos diante de Sofia.
“Come um pouco.”
“Quero esperar minha mãe.”
“Ela não vai chegar agora.”
“Você não sabe.”
Vanessa pousou o garfo.
“Sofia.”
A menina não respondeu.
Foi então que ouviu.
**Toc. Toc. Toc.**
Sofia ergueu a cabeça.
Silêncio.
Depois:
**Toc. Toc.**
Ela desceu da cadeira.
“Você ouviu?”
Vanessa abriu a torneira.
“Ouvi o quê?”
Sofia caminhou até uma saída de ar perto da despensa.
Abaixou-se.
Encostou a mão no piso frio.
“Alguém bateu.”
“É o encanamento.”
“Não.”
Vanessa abriu a máquina de lavar na área de serviço.
“Essa casa é velha.”
Sofia permaneceu imóvel.
Então bateu os nós dos dedos no chão.
Três vezes.
Esperou.
Duas vezes.
Vanessa virou-se.
“Sofia, chega.”
A resposta veio de baixo.
**Toc. Toc. Toc.**
Pausa.
**Toc. Toc.**
Os olhos da menina se arregalaram.
“É a mamãe.”
Vanessa ligou a máquina.
O motor começou a girar violentamente, abafando qualquer outro ruído.
“É a tubulação.”
“Minha mãe bate assim.”
“Você está nervosa.”
“Ela bate três e depois duas.”
Vanessa se aproximou.
“Seu pai vai falar com ela. Pare de inventar coisas que vão deixar você mais assustada.”
“Eu não inventei.”
“Vai trocar de roupa.”
Sofia não se mexeu.
Vanessa segurou seu pulso.
Um pouco forte demais.
“Agora.”
Sofia olhou para os dedos em torno do braço.
Vanessa soltou imediatamente.
“Desculpa. Você me assustou.”
A menina subiu sem responder.
Às onze e vinte, Rafael já havia ligado seis vezes para Mariana.
Nenhuma resposta.
Ligou para Lúcia Ribeiro, mãe dela.
“Ela falou com você?”
“Ontem à tarde.”
“Disse que mudaria o fim de semana?”
“Não.”
“Vanessa recebeu uma mensagem.”
Houve silêncio.
“Que mensagem?”
Rafael explicou.
Lúcia ficou séria.
“Rafael, minha filha não cancela um sábado com Sofia desse jeito.”
“Eu sei.”
“Você está onde?”
“Saindo de Campinas.”
“Volta para São Paulo.”
“Já estou indo.”
“E liga para a clínica.”
Rafael fez isso antes mesmo de entrar na Rodovia dos Bandeirantes.
Dra. Renata Vasconcelos retornou vinte minutos depois.
“Rafael, a Mariana deveria ter vindo hoje.”
O estômago dele apertou.
“Ela estava escalada?”
“Ela se ofereceu para cobrir três horas. Não apareceu e não avisou.”
“Isso já aconteceu?”
“Nunca.”
Rafael apertou o volante.
“Se ela entrar em contato, me liga.”
“Claro.”
Ele desligou.
Ligou para hospitais.
Depois para a polícia.
Na casa, Sofia desceu novamente.
Vanessa estava guardando compras na cozinha.
A máquina finalmente havia parado.
A menina passou pelo corredor dos fundos.
Ali ficava a porta do porão.
Rafael estivera consertando aquela moldura na semana anterior.
Sofia lembrava porque tinha segurado uma caixinha de parafusos para ele.
Mas agora havia algo diferente.
Uma pequena trava de latão brilhava no alto.
Nova.
Sofia aproximou o ouvido.
Nada.
Levantou a mão.
**Toc. Toc. Toc.**
Esperou.
**Toc. Toc.**
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Então:
**Toc. Toc. Toc.**
Pausa.
**Toc. Toc.**
Sofia prendeu a respiração.
Ouviu alguma coisa se arrastar lá embaixo.
Depois uma respiração.
Pesada.
Fraca.
“Sofia...”
O coração da menina disparou.
Ela encostou as duas mãos na porta.
“Mamãe?”
Do outro lado, alguma coisa bateu contra madeira.
“Sofia...”
A voz estava rouca.
Mas era aquela voz.
A voz que lia histórias.
A voz que dizia para ela colocar o casaco.
A voz que chamava seu nome quando ela fingia dormir.
“Mamãe!”
Uma sacola caiu atrás dela.
Sofia virou.
Vanessa estava parada no corredor.
O leite escorria de uma embalagem caída.
Mas Vanessa não olhava para o leite.
Olhava para a trava.
Depois para Sofia.
Seu rosto tinha perdido toda a cor.
“Afasta dessa porta.”
Sofia colocou as costas contra a madeira.
“Minha mãe está aí.”
“Não está.”
“Eu ouvi.”
“Sofia.”
“Ela falou meu nome.”
Vanessa avançou um passo.
A menina começou a chorar.
“Por que você trancou minha mãe?”
Vanessa parou.
E naquele instante Sofia entendeu uma coisa que nenhuma criança deveria precisar entender.
Vanessa não parecia confusa.
**Parecia com medo de ter sido descoberta.**
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