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"O Homem no Carro Preto Reconheceu Meu Colar" Capítulo 6 — Quem Mandou Bruno Até Nós

正文开头

Capítulo 6 — Quem Mandou Bruno Até Nós

Teresa chegou ao escritório carregando uma bolsa de tecido e uma caixa pequena de sapatos.

Tinha os cabelos grisalhos presos num coque apertado. Não cumprimentou Helena com um abraço; examinou seu rosto primeiro, como se procurasse traços de uma mulher que não via havia sete anos.

"Marina disse que você fazia perguntas difíceis", Teresa falou.

"Ela dizia isso como elogio?"

"Quando estava irritada."

Camila ofereceu água. Teresa recusou e colocou a caixa sobre a mesa.

"Antes de abrir, quero saber se a menina está segura."

"Está com Dona Célia, minha vizinha", Helena respondeu. "A escola confirmou quem pode buscá-la. Bruno não tem autorização."

"Bruno é o homem que telefonou para mim?"

"Talvez. Você reconheceria a voz?"

"Não prometo. Ele falou pouco."

Teresa abriu a caixa. Havia envelopes datados, um caderno fino e um aparelho pequeno de gravação com a tampa presa por fita.

"Marina não confiava que conseguiria guardar tudo em um só lugar", explicou. "Deixou comigo cópias de cartas e algumas gravações que fez para lembrar exatamente o que tinha dito a cada pessoa."

Camila não tocou nos objetos de imediato. Perguntou a Teresa quando os recebera, onde os guardara e se alguém mais tivera acesso. Teresa respondeu com cuidado. Helena registrou as respostas com a permissão das duas.

A primeira carta era dirigida a Dante. Marina descrevia três lugares para onde tentara ir e a rapidez com que alguém da família aparecera em cada um. Pedia ao irmão que parasse de procurá-la até descobrir quem recebia seus itinerários.

Na margem, com outra caneta, havia uma anotação:

Devolvida à remetente.

"Foi você quem recebeu de volta?", perguntou Helena.

"Eu buscava a correspondência para ela naquela época."

"Por que Marina não me contou?"

"Quando conheceu você, ela estava cansada de explicar o mesmo medo e ouvir que era exagero."

Helena releu a data. Marina ainda estava grávida.

"Ela sabia quem passava as informações?"

"Suspeitava. Nunca me disse um nome até fazer a gravação."

Camila ergueu os olhos. "Você ouviu?"

"Uma vez. Depois guardei o aparelho."

Helena sentiu o impulso de apertar o botão ali mesmo. Camila sugeriu que primeiro fotografassem o estado do aparelho e verificassem se havia uma forma de copiar o conteúdo sem alterar o original. Teresa concordou.

"Há também um segundo envelope", disse ela. "Marina pediu que eu não o entregasse à família. Disse que, se um dia a filha precisasse de respostas, quem a criasse decidiria quando mostrá-lo."

Helena passou os dedos pela borda do envelope sem abri-lo.

Pela primeira vez naquela semana, não pensou apenas em como impedir que alguém tomasse algo dela. Pensou no que Lia talvez quisesse saber quando fosse mais velha.

"Vamos cuidar disso", disse.

Na saída do escritório, o telefone de Helena tocou. Era o síndico. Bruno fora ao prédio mais uma vez, agora em plena tarde. Usara uma ferramenta para forçar a fechadura recém-reparada. A câmera o mostrava claramente, e um funcionário da manutenção chamara a polícia. Bruno havia sido levado para prestar esclarecimentos.

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Helena apoiou a mão na parede.

"Ele chegou ao terceiro andar?"

"Não. Ficou preso na entrada."

"Guarde o arquivo original e me envie uma cópia, por favor."

Camila ouviu a conversa. "Vamos acrescentar isso ao material já registrado."

Na calçada, Helena ligou para Dona Célia. Lia estava em casa, montando um quebra-cabeça. A vizinha nem ouvira o tumulto no térreo.

A notícia não apagava os meses em que Helena olhara para trás antes de abrir a porta. Mas, naquela tarde, Bruno tentara entrar, e havia uma gravação nítida, uma testemunha e um registro de sua abordagem. Era mais do que ela tivera na noite em que fugira do restaurante.

Dante telefonou ao anoitecer.

"Minha equipe identificou a solicitação enviada à escola", disse. "Saiu do setor de patrimônio residencial."

"Nome."

"Otávio Lacerda. Diretor executivo."

"Por que um diretor de imóveis procuraria uma menina de sete anos?"

"Essa é a pergunta que vou fazer a ele amanhã."

"Eu também estarei lá."

"Helena, é uma reunião interna."

"Ele usou o nome da empresa para procurar minha filha. Deixou de ser um assunto interno."

Ela ouviu Dante respirar pelo nariz.

"Venha com sua advogada. Não vou pedir que confie apenas na minha versão."

"Nem pensei nisso."

Na manhã seguinte, Camila entrou com Helena no prédio do Grupo Ferraz. Teresa aguardaria no escritório da advogada, junto da caixa. O aparelho já tinha sido copiado de modo a preservar o original, e Helena ouvira a gravação inteira durante a noite.

Ainda sentia a voz de Marina no peito.

Dante as recebeu numa sala envidraçada. Otávio Lacerda já estava sentado. Usava um sorriso curto e a postura de quem esperava um incômodo administrativo.

"Senhora Duarte", disse. "Lamento a situação pessoal que está enfrentando."

"Qual delas?"

Ele piscou.

"A violência cometida pelo seu ex-companheiro."

"Então podemos começar por isso. Como o senhor soube?"

Dante virou-se para ele.

Otávio endireitou os punhos da camisa. "A notícia chegou ao setor de segurança."

"Onze dias antes de Bruno me agredir, alguém do seu setor procurou a escola da minha filha", Helena disse. "Quero saber por quê."

"A empresa administra muitos imóveis. Consultas externas acontecem."

"Ela mora num prédio que vocês administram?"

"Não posso confirmar dados de terceiros numa reunião como esta."

"Eu sou a mãe dela."

"Segundo os documentos apresentados", Otávio respondeu.

O silêncio que se seguiu foi imediato.

Helena sentiu Camila mover a pasta sobre a mesa, mas não tirou os olhos do homem.

"Quais documentos?", perguntou.

"Não disse que os vi."

"Acabou de dizer 'segundo os documentos apresentados'."

Otávio lançou um olhar rápido a Dante.

"Estou apenas tomando cuidado com termos legais."

"Então tome cuidado também com as datas", Camila disse. "Temos o protocolo da consulta feita à escola antes de seu cliente saber da existência da criança."

"Meu cliente?", Dante repetiu.

"Seu diretor", Camila corrigiu. "A responsabilidade de cada pessoa ainda precisa ser apurada."

Otávio deixou o sorriso desaparecer.

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"Uma mulher aparece usando um medalhão da família Ferraz. Um ex-companheiro dela faz alegações sobre uma criança. É razoável verificar se há alguma tentativa de explorar o nome da família."

Helena abriu a pasta e retirou o bilhete de Bruno dentro da proteção transparente.

"Foi ele quem fez as alegações?"

"Não tive contato direto com esse homem."

"Mas sabe o que alegou."

"Recebi informações."

"De quem?"

Otávio olhou para Dante. "Você vai permitir que me interroguem com base em suposições?"

Dante permaneceu sentado.

"Responda."

A expressão do diretor endureceu.

"Não vou discutir procedimentos da empresa com pessoas externas sem uma revisão formal. E aconselho prudência. Há questões sobre quando essa adoção foi concluída, sobre quem conhecia a origem da criança e sobre possíveis vantagens obtidas com esse silêncio."

Era a ameaça que Helena esperara. Ele pretendia transformar os anos em que ela criara Lia numa história de interesse financeiro. Esperara, provavelmente, que ela se defendesse contando detalhes íntimos da menina àquela mesa.

Helena não lhe deu isso.

"Há uma investigação a fazer", disse. "Minha advogada tratará dos documentos nos canais apropriados. Hoje vim perguntar por que o senhor procurou a escola antes de Dante ver o medalhão."

"Porque alguém precisava proteger esta família."

Dante se levantou. "Não fale por Marina."

"Marina morreu", Otávio disse. "E o senhor nem sabia que tinha uma sobrinha até esta semana."

O golpe acertou. Helena viu, mas Dante não avançou nem respondeu.

Ela pousou sobre a mesa uma cópia da carta devolvida a Marina.

"Ela tentou avisar que alguém entregava seus endereços", disse. "A carta voltou sem resposta."

Dante reconheceu sua própria anotação na margem. Ficou imóvel.

Otávio olhou para o papel e deu de ombros.

"Uma suspeita de sete anos atrás."

"Marina sabia que diriam isso." Helena colocou o celular ao lado da carta. "Por isso deixou a própria voz."

Camila confirmou com um gesto discreto que a cópia podia ser reproduzida. A origem do arquivo e o aparelho original estavam documentados; Otávio não poderia confundi-lo com uma lembrança contada por terceiros.

Helena apertou o botão.

Primeiro veio um ruído baixo. Depois, a voz cansada de Marina encheu a sala.

"Se você está ouvindo isto, é porque Otávio Lacerda finalmente encontrou minha filha."

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