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"O Homem no Carro Preto Reconheceu Meu Colar" Capítulo 4 — A Pasta de Marina

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Capítulo 4 — A Pasta de Marina

Helena leu o bilhete mais uma vez.

Você acha que ele vai gostar de saber de quem é a menina?

Bruno não escrevera "sua filha". Escrevera "a menina", como fazia quando queria feri-la sem precisar levantar a mão.

Ela colocou o papel num saco limpo, anotou no celular onde Dona Célia o encontrara e fotografou a pasta aberta. Depois conferiu as três cartas de Marina. Nenhuma parecia faltar, mas os vincos dos envelopes já não coincidiam com os lugares onde costumavam ficar.

Alguém procurara alguma coisa específica.

Helena abriu a conversa com Dante. Sua primeira vontade foi perguntar se ele mandara alguém entrar em sua casa. Apagou a mensagem antes de enviá-la.

Se tivesse sido ele, uma pergunta lhe daria tempo para preparar a resposta. Se não tivesse sido, ela estaria contando a ele o que guardava.

Em vez disso, escreveu para a advogada indicada por Dante, apresentando-se sem mencionar a criança. Pediu o nome completo da profissional e o endereço do escritório para conferir seus dados pela manhã. Em seguida, procurou no celular uma fotografia da pasta tirada meses antes. Ampliou a imagem até distinguir a ordem dos documentos.

O recibo do hospital estava por cima das cartas naquela época. Agora estava por baixo.

Helena guardou os papéis num envelope novo. Às quatro e meia, levou o envelope para o apartamento de Dona Célia, deixando apenas cópias na pasta antiga.

"Se Bruno aparecer, não discuta com ele", pediu.

Dona Célia segurou o envelope. "Vou esconder onde nem a minha neta encontra os biscoitos."

Helena olhou para Lia, adormecida no sofá sob uma manta. O desenho inacabado estava no chão. Havia uma casa azul, uma mulher de vestido amarelo e uma árvore tão alta que saía da folha.

"Ela pode ficar aqui até eu voltar do atendimento?"

"Pode. Mas você vai mesmo."

"Vou."

"Eu conheço esse seu 'vou'."

Helena mostrou a solicitação de corrida no celular. Dona Célia assentiu, satisfeita.

Na unidade de atendimento, Helena explicou como Bruno a atingira e pediu que as lesões fossem registradas. O profissional examinou seu lábio, limpou o joelho e recomendou que voltasse se surgissem sinais de piora. Ela saiu com o comprovante da consulta, os documentos do atendimento e o horário anotado no celular.

Ao amanhecer, foi direto ao restaurante.

O cozinheiro, Paulo, estava levantando a porta de aço.

"Você devia estar descansando", disse ao ver seu rosto.

"Preciso das imagens de ontem."

Paulo olhou para dentro, onde o dono conferia entregas. "A câmera do caixa funciona. A do corredor dos fundos, nem sempre."

"Uma basta."

Ela contou ao patrão o que ocorrera, sem diminuir a agressão para evitar constrangimento. O homem pareceu mais preocupado com a possibilidade de Bruno voltar durante o almoço do que com a ferida no lábio dela.

"Vou separar o vídeo", prometeu. "Mas, Helena, se ele causar confusão outra vez..."

"Foi ele quem causou confusão ontem."

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"Eu sei. Só estou dizendo que o movimento caiu e não posso ter cliente assustado."

Helena sustentou seu olhar.

"Então mantenha a gravação. Se eu precisar dela e você apagar, a conversa vai ser outra."

Paulo se aproximou da porta da cozinha. "Eu vi quando ele entrou. Também ouvi você gritar para ele sair. Posso confirmar."

"Obrigada."

Ela pediu ao patrão que preservasse a gravação original e lhe enviasse uma cópia. Só saiu depois de ver o arquivo no próprio celular. A câmera mostrava Bruno bloqueando sua passagem, segurando seu braço e empurrando-a contra o caixa. Também mostrava Helena derrubando a bandeja para escapar.

Ela assistiu uma vez, sem som. Foi o bastante.

Do lado de fora, a advogada respondeu. Chamava-se Renata Braga. Helena conferiu os dados públicos do escritório e marcou uma conversa para aquela tarde. Explicou que Dante lhe dera o contato.

Já prestei serviços a uma empresa do grupo Ferraz

, Renata escreveu.

Por isso, recomendo que você escolha outra profissional para qualquer questão que envolva a família. Posso indicar colegas sem esse vínculo.

Helena parou na calçada. Aquela resposta lhe inspirou mais confiança do que qualquer promessa de imparcialidade teria inspirado.

Pediu as indicações e marcou horário com uma delas, uma advogada chamada Camila Nunes.

Em casa, encontrou Lia comendo pão na chapa à mesa de Dona Célia.

"Você veio para o café", a menina disse.

"Prometi."

Helena se sentou. O lábio ardia quando sorria, mas sorriu assim mesmo.

"Hoje a Dona Célia vai buscar você na escola", disse. "Tenho umas coisas para resolver."

"Por causa do Bruno?"

"Por causa dele e de alguns papéis antigos."

Lia empurrou metade do pão para o prato da mãe. "Você sempre diz que papel antigo é importante."

"Às vezes é."

"Mais importante que pão na chapa?"

"Hoje, os dois estão empatados."

Lia pareceu considerar a resposta suficiente. Helena, não. A menina tinha visto medo demais em seu rosto desde a noite anterior.

Depois de acompanhá-la até a escola, Helena voltou ao prédio para falar com o síndico. Ele disse que a câmera da entrada gravara Bruno nas duas visitas. A primeira imagem o mostrava puxando a porta de vidro antes de Dona Célia chamar a polícia. Na segunda, ele permanecia perto dos apartamentos por menos de quatro minutos.

"Quero uma cópia", Helena disse.

"Tem regra para liberar imagem de morador."

"Sou a moradora ameaçada. Diga qual é o procedimento, por escrito."

O síndico prometeu consultar a administradora. Helena enviou imediatamente um e-mail registrando o pedido e solicitando o reparo urgente da fechadura.

Naquela tarde, Camila examinou os documentos sem tocar nos originais que Helena mantinha em casa de Dona Célia. Começou pelo que Helena mais temia.

"Uma família descobrir uma criança não desfaz uma adoção por vontade própria", disse. "Mas alguém pode tentar pressionar você, espalhar dúvidas e obrigá-la a gastar tempo e dinheiro se não estiver preparada. Vamos reunir o histórico completo."

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Helena soltou o ar devagar.

"Também preciso saber quem entrou na minha casa."

"Isso pode ter sido Bruno. Pode ter sido outra pessoa. Temos uma suspeita e uma pasta mexida; ainda precisamos de prova."

"Concordo."

Camila fez uma lista concreta: preservar o vídeo do restaurante, pedir formalmente as imagens do prédio, guardar o bilhete, registrar qualquer novo contato de Bruno e obter cópias certificadas dos documentos de Lia pelos canais adequados.

"Não entregue originais a Dante", acrescentou.

"Não estava planejando."

"Nem a alguém que diga trabalhar para ele."

Helena saiu do escritório com mais tarefas do que quando entrara, mas também com uma ordem para executá-las.

Foi à escola antes do fim da aula. Pediu que confirmassem a lista de adultos autorizados a buscar Lia e retirassem um número antigo de Bruno que ainda aparecia num formulário de emergência. A funcionária mostrou o cadastro atualizado na tela.

Foi então que Helena notou uma linha no histórico de consultas.

Solicitação externa de confirmação cadastral — Grupo Ferraz Habitação.

A data era de onze dias antes.

"Quem pediu isso?", Helena perguntou.

A funcionária aproximou o rosto do monitor. "Não consta o nome da pessoa aqui. Parece que a secretaria respondeu apenas que não forneceria dados."

"Preciso dessa resposta por escrito."

A mulher hesitou. "Vou falar com a diretora."

Helena esperou até receber um protocolo do pedido. Depois telefonou para Camila.

"Alguém procurou informações sobre Lia antes de Dante encontrar o medalhão", disse.

Do outro lado da linha, a advogada ficou em silêncio por um instante.

"Onze dias antes?"

"Exatamente."

"Então a noite passada talvez não tenha sido o começo dessa história."

Helena olhou pelo vidro da escola. Lia saía da sala com a mochila escorregando de um ombro, alheia ao nome de uma empresa que aparecera em seu cadastro.

Não. A história começara antes.

E alguém tivera onze dias de vantagem.

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