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"O Homem no Carro Preto Reconheceu Meu Colar" Capítulo 3 — Ela É Minha Filha

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Capítulo 3 — Ela É Minha Filha

"Fica no carro", Dante disse.

Helena não se moveu. Observou Bruno atravessar a calçada em direção à rua, mancando levemente. Ele trazia uma sacola plástica na mão.

"Se você sair e for atrás dele, Lia vai ver uma briga da janela", ela respondeu.

Dante olhou para cima. Uma cortina se mexeu no terceiro andar.

Helena ligou para Dona Célia.

"Afaste Lia da janela. Estou aqui embaixo. Não abra a porta para ninguém."

"Ela está na cozinha comigo."

"Ótimo."

Bruno reconheceu o carro. Seu passo diminuiu. Nivaldo colocou a mão perto do celular preso ao painel, aguardando instruções.

Helena filmou pela janela fechada.

Bruno parou a poucos metros. Apontou para ela e gritou algo que o vidro abafou.

"Ele pode estar armado", Dante disse.

"Então não vamos dar motivo para ele se aproximar."

Ela mostrou a Nivaldo a tela do telefone com o protocolo do chamado. "Pode dirigir até a padaria aberta no fim da rua? Devagar. Quero manter o prédio à vista."

Nivaldo olhou para Dante, que assentiu.

O carro avançou. Bruno deu dois passos atrás deles, mas parou quando percebeu Helena filmando. Enfiou a sacola no bolso do casaco e foi embora pela rua lateral.

Helena registrou a direção em que ele saiu. Mandou o vídeo a Dona Célia e a um endereço de e-mail seu que Bruno não conhecia.

Só então percebeu que estava prendendo a respiração.

"Você fez isso antes", Dante observou.

"Ser perseguida? Sim."

"Quis dizer documentar tudo."

"Aprendi que contar o que aconteceu não basta quando ele conta uma história diferente."

Ela não queria que aquilo soasse como uma confidência. Era apenas uma explicação. Mesmo assim, Dante não respondeu de imediato.

Uma viatura chegou alguns minutos depois. Helena desceu, relatou a agressão no restaurante, mostrou o vídeo e indicou os danos na fechadura. Os policiais verificaram a entrada e falaram com Dona Célia pelo interfone. Bruno já tinha saído.

Dante permaneceu junto ao carro. Quando um dos policiais perguntou quem era ele, Helena respondeu:

"Uma pessoa que me deu carona. Eu falo por mim."

O homem de terno ouviu. Não se aproximou.

Depois de fornecer seus dados e combinar como entregaria as imagens do restaurante, Helena subiu. Dante perguntou se poderia acompanhá-la até a porta do apartamento.

"Até o corredor", ela disse. "Nivaldo fica aqui embaixo."

A fechadura do prédio resistiu antes de ceder. Alguém teria de consertá-la naquela manhã. Helena fotografou o estrago de perto.

No terceiro andar, Dona Célia abriu sua porta com uma colher de pau na mão.

"É o que eu achei primeiro", explicou ao ver o olhar de Helena.

"Prefiro a colher a você tentar usar aquela caixa de ferramentas."

Dona Célia examinou seu rosto. O humor desapareceu.

"Lia está fazendo um desenho. Eu disse que você tinha se machucado e estava vindo."

"Obrigada."

Helena pegou a filha no colo assim que entrou. Lia tinha sete anos, cabelos claros despenteados e um pijama com estrelas quase apagadas de tantas lavagens.

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"Você demorou", ela reclamou, apertando os braços ao redor do pescoço da mãe.

"Eu sei."

"Seu joelho está sangrando."

"Vou limpar agora."

Lia encostou o dedo perto do lábio inchado, sem tocar. "Foi o Bruno?"

Helena sentiu Dona Célia parar atrás dela.

Não queria mentir. Também não queria despejar sobre a menina tudo que tinha acontecido.

"Ele me assustou e me machucou", respondeu. "Eu saí de perto dele e pedi ajuda. Ele não vai entrar aqui esta noite."

Lia olhou para a porta aberta do apartamento. Dante estava no corredor, a uma distância respeitosa.

"Foi ele que ajudou?"

"Foi."

"Ele é policial?"

"Não."

Dante se abaixou um pouco para ficar menos imponente aos olhos dela.

"Meu nome é Dante."

Lia estudou o rosto dele.

"Você está bravo?"

"Não com você."

Helena viu a menina apertar a gola de seu uniforme.

"Então por que parece bravo?"

Dante abriu a boca e fechou. Dona Célia soltou um ruído que poderia ter sido uma risada, mas disfarçou tossindo.

"Recebi uma notícia difícil", Dante respondeu, por fim.

Lia pareceu aceitar. Helena a levou ao sofá e pediu que Dona Célia ficasse com ela enquanto limpava o joelho. Antes de ir ao banheiro, voltou ao corredor.

"É hora de você ir", disse a Dante.

"Preciso conversar sobre Marina."

"Não hoje, na frente dela."

"Não vou pedir para vê-la de novo sem falar com você."

Helena examinou seu rosto. "Você já a viu."

"Foi por acaso. Não acontecerá outra vez."

"Marina me pediu que mantivesse Lia longe dos Ferraz."

"Eu sei."

"Você disse na farmácia que procurou sua irmã por sete anos. O que fez quando ela desapareceu?"

Dante apoiou o olhar no chão do corredor. "Pedi a pessoas que descobrissem onde ela estava."

"É por isso que ela fugia."

"Talvez."

Helena não aceitou aquela palavra.

"Ela estava grávida quando eu a conheci. Assustada. Dormia em lugares diferentes. Não deixava ninguém anotar o nome dela. Você pode achar que estava protegendo sua irmã, mas ela vivia como alguém que precisava se esconder de você."

Ele recebeu cada frase sem interrompê-la.

"Marina estava certa sobre algumas coisas", disse. "Eu também preciso descobrir sobre quais outras."

"Descubra longe da minha filha."

Dante tirou um passo para trás. "Vou mandar o contato da advogada. Você decide se quer ligar."

"Está bem."

Helena fechou a porta apenas depois que ouviu o elevador partir.

No banheiro, cortou com cuidado o tecido preso ao joelho. Dona Célia apareceu com um copo d'água e ficou à porta enquanto ela lavava a ferida.

"Ele é rico daquele jeito que dá trabalho?", perguntou a vizinha.

"É."

"E conhece a mãe biológica da Lia?"

Helena ergueu a cabeça. Nunca escondera de Dona Célia que Lia era adotada. Nunca, porém, imaginara precisar explicar a presença da família de Marina ali.

"É irmão dela."

Dona Célia olhou para a sala, onde Lia falava sozinha enquanto coloria.

"Ela sabe?"

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"Não. Sabe que Marina existiu. Ainda não sabe quem ele é."

"Então você vai contar quando decidir que é a hora."

Helena sentiu a garganta apertar.

"Ele tem recursos para fazer da nossa vida um inferno."

"Você também tem coisas." Dona Célia ergueu a colher de pau. "Não estou falando disto. Tem documentos, pessoas que viram você criar essa menina, e a própria Lia."

Helena sorriu apesar da dor. "Guarde a colher. Talvez eu precise dela."

O celular vibrou sobre a pia. Uma mensagem de Dante continha o nome e o telefone de uma advogada. Helena não respondeu. Pesquisaria a profissional por conta própria ao amanhecer.

Havia outra coisa a fazer primeiro.

Ela pediu a Dona Célia que levasse Lia para dormir em seu apartamento naquela noite. A menina protestou, mas aceitou quando a vizinha prometeu terminar o desenho com ela. Helena a abraçou na porta.

"Eu fico aqui ao lado. Se acordar, me chama."

"Você vem tomar café?"

"Vou fazer o café."

"E pão na chapa?"

"Se você deixar um pedaço para mim."

Quando as duas entraram no apartamento vizinho, Helena trancou a porta e puxou uma cadeira até o armário da cozinha.

A pasta de Marina estava no alto, atrás de uma lata vazia de biscoitos. Helena desceu com ela, sentou à mesa e fotografou a capa e os documentos mais importantes. Separou a certidão de adoção, correspondências antigas e o cartão da mulher que ajudara Marina a organizar os primeiros cuidados de Lia.

Precisava guardar os originais fora do apartamento. No dia seguinte, procuraria orientação independente sobre o que mais preservar.

Ao devolver os papéis à pasta, notou que a tira de fita adesiva no canto inferior estava solta.

Helena a tinha colocado ali meses antes, quando Lia derrubara suco sobre a mesa. Lembrava da fita porque cortara a ponta em diagonal.

Agora a ponta estava reta.

Ela abriu a pasta de novo e contou os envelopes.

Três cartas de Marina. Um recibo do hospital. Dois documentos antigos. A cópia da primeira autorização.

A ordem estava diferente.

Helena se levantou e foi até a porta. A fechadura de seu apartamento não tinha marcas visíveis. Ainda assim, alguém poderia ter entrado quando Bruno aparecera no prédio, ou em qualquer outro dia.

O bilhete que Dona Célia encontrara continuava no corredor, onde os policiais o haviam fotografado. Helena calçou luvas de limpeza, pegou o papel e o abriu sobre a mesa.

Você acha que ele vai gostar de saber de quem é a menina?

A letra era de Bruno.

Helena olhou para a pasta aberta, depois para a fotografia no celular: a fita antes de ser mexida, registrada por acaso meses atrás ao fotografar um documento.

Bruno sabia sobre Dante antes dela.

E alguém tinha procurado a pasta de Marina.

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