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"O Homem no Carro Preto Reconheceu Meu Colar" Capítulo 1 — A Porta Trancada

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Capítulo 1 — A Porta Trancada

"Tranca a porta!"

Helena Duarte se jogou no banco traseiro do carro preto com tanta força que bateu o joelho no console. A porta ainda estava aberta quando Bruno alcançou a calçada e agarrou a maçaneta pelo lado de fora.

Ela puxou a porta com as duas mãos.

Bruno puxou de volta.

"Você vai me ouvir", ele rosnou.

A chuva escorria pelo rosto dele. Sob a luz azulada da farmácia da esquina, Helena viu a marca vermelha que suas unhas tinham deixado em seu pescoço quando tentara se soltar dentro do restaurante.

Ela apoiou o tênis na soleira e empurrou.

A porta bateu.

"Por favor", disse à pessoa sentada à sua frente. "Tranca."

O homem ergueu os olhos do celular.

Tinha cabelos escuros, um terno cinza impecável e a imobilidade de quem nunca precisava levantar a voz. Ele olhou primeiro para a boca ferida de Helena. Depois, para Bruno, que socava o vidro.

Um movimento quase invisível de sua cabeça bastou.

As travas estalaram.

O motorista arrancou antes que Bruno conseguisse contornar o carro. Helena virou o rosto a tempo de vê-lo correr alguns passos atrás deles, gritando seu nome no meio da chuva.

Então o restaurante sumiu na curva.

Ela ainda segurava a maçaneta por dentro.

"Obrigada", disse, sem fôlego.

O homem guardou o celular. "Você conhece aquele sujeito?"

"Infelizmente."

"O que ele fez?"

Helena limpou com o dorso da mão o sangue no canto da boca. A manga do uniforme amarelo também estava manchada.

"Se importa de me deixar em algum lugar movimentado?"

"Perguntei o que ele fez."

"E eu perguntei se pode me deixar em algum lugar movimentado."

Pelo retrovisor, o motorista lançou a ela um olhar rápido. O homem à sua frente não pareceu ofendido. Pareceu interessado.

Helena conhecia aquele tipo de silêncio. Bruno o usava quando esperava que ela se desculpasse primeiro.

Ela não se desculpou.

O carro passou por baixo de um viaduto. No vidro, o reflexo mostrou seu cabelo castanho grudado ao rosto e a costura rasgada sob o braço. Havia uma mancha escura crescendo sobre o joelho da calça.

Teria de explicar tudo a Lia pela manhã.

Essa ideia a fez procurar o celular.

A tela estava rachada desde a semana anterior. Ainda funcionava. Helena abriu a conversa com Dona Célia e digitou com os dedos trêmulos:

Estou bem. Tranque a porta. Não abra para Bruno. Lia está dormindo?

"Ele é seu marido?", perguntou o homem.

"Meu ex."

"Nome?"

Helena levantou os olhos. "Por quê?"

"Porque está nos seguindo."

Ela se virou.

Três carros atrás deles, um Chevrolet prata avançou sobre uma faixa de ônibus antes de voltar para a pista. O farol esquerdo, mais fraco que o direito, confirmou o que ela já temia.

"Bruno."

O motorista olhou para o retrovisor central.

"Posso despistar", disse.

"Sem correr", Helena respondeu depressa. "Tem gente na rua."

O homem de terno observou o perfil dela por um instante.

正文1

"Ouviu, Nivaldo?"

"Ouvi."

Nivaldo entrou em uma avenida larga, esperou um ônibus parar e tomou uma rua lateral enquanto o Chevrolet ficava preso atrás dele. Não houve derrapagens nem manobras espetaculares. Apenas duas curvas bem escolhidas e um semáforo que fechou no momento certo.

Mesmo depois de perder os faróis prateados, Helena demorou a respirar normalmente.

O celular vibrou.

Está dormindo. Ele apareceu aqui mais cedo, mas não entrou. Estou com a corrente na porta. Me liga quando puder.

O frio que a chuva não tinha causado se espalhou pelo corpo de Helena.

"Ele sabe onde você mora", disse o homem.

Ela apagou a tela. "Sabe."

"Você tem alguém em casa?"

"Tenho."

"Uma criança?"

A pergunta foi rápida demais.

Helena endireitou as costas. "Não falei isso."

"Você olhou para o telefone como alguém que precisava confirmar se uma criança estava segura."

Ela odiou a precisão da observação.

"Onde vocês moram?", ele perguntou.

"Não vou dizer."

"Acabei de impedir que ele entrasse no carro."

"Eu agradeci."

"Posso mandar alguém proteger a entrada do prédio."

"E depois essa pessoa vai saber onde a minha filha dorme."

O motorista manteve os olhos na rua. O homem, não.

"Você entrou no meu carro por vontade própria", disse ele.

"Eu entrei porque Bruno estava atrás de mim. Pedi que trancasse a porta. Não dei autorização para investigar a minha vida."

Por um segundo, ela achou que ele fosse mandar Nivaldo parar.

Em vez disso, ele recostou no banco.

"Justo."

Helena desviou o olhar para a janela. O trânsito da madrugada ainda se espalhava pela avenida: uma moto com caixa de entregas, um táxi vazio, pessoas se protegendo sob a marquise de uma padaria fechada.

O homem também olhou para fora.

"Ele bateu em você no restaurante?"

Helena pressionou a língua contra a parte interna do lábio. Doeu.

"Eu disse que não daria dinheiro. Ele discordou."

"Quanto?"

"Isso muda alguma coisa?"

"Quero entender o motivo."

"Ele acha que escondi uma quantia quando terminamos. Eu não escondi. Naquela época, mal conseguia pagar a escola da minha filha."

"Ele costuma aparecer no seu trabalho?"

"Fazia meses que não aparecia."

Bruno sabia escolher o momento. Entrara no restaurante cinco minutos antes de fechar, quando o cozinheiro já levava o lixo para os fundos e Helena conferia o caixa sozinha. Primeiro sorrira, como se tivesse vindo buscá-la. Depois bloqueara a passagem.

"Você está escondendo dinheiro de mim", dissera.

Ela havia respondido "não" duas vezes.

Na terceira, ele a empurrara contra o balcão. Helena pegara a bandeja de metal mais próxima e a derrubara entre os dois. O barulho lhe dera os segundos necessários para alcançar a porta dos fundos.

Ainda podia ouvir Bruno gritando que ela voltasse.

"Tem câmera no restaurante?", perguntou o homem.

"Uma apontada para o caixa. Se estiver funcionando."

"Você deveria ir ao hospital."

"Preciso ir para casa."

Seu celular vibrou de novo. Era Dona Célia ligando.

正文2

Helena atendeu imediatamente.

"Ele voltou?"

"Não, filha. Lia acordou com o barulho da chuva, bebeu água e dormiu outra vez. Você se machucou?"

Helena olhou para o desconhecido.

"Um pouco. Vou resolver."

"Quer que eu chame a polícia?"

"Se Bruno aparecer aí, chame. Não espera para falar comigo."

"Está bem. E você?"

"Estou chegando a um lugar seguro. Ligo em dez minutos."

Ela desligou antes que a vizinha fizesse outra pergunta. Pela primeira vez desde que fugira do restaurante, percebeu que precisava descobrir o nome do homem à sua frente.

"Onde posso descer?", perguntou.

"Há uma farmácia vinte e quatro horas a algumas quadras. Tem câmeras e funcionários."

"Serve."

Ele assentiu para Nivaldo.

Helena puxou a gola rasgada do uniforme para cobrir o ombro. O tecido roçou na corrente fina que usava desde que Lia era bebê.

O homem acompanhou o movimento.

Seu olhar parou no pequeno medalhão oval junto ao pescoço dela.

A mudança em seu rosto foi tão brusca que Helena segurou o pingente por instinto.

"Onde conseguiu isso?"

"Foi um presente."

"De quem?"

Sua voz continuava baixa, mas Nivaldo ergueu os olhos ao ouvir a pergunta.

Helena fechou a mão ao redor do medalhão.

"Por que quer saber?"

O homem se inclinou para a frente. A pequena cicatriz próxima de sua orelha ficou visível sob a luz de um posto de gasolina.

"Abra."

"Não abre."

"Abre, sim. Há uma depressão ao lado da dobradiça. Pressione."

Helena olhou para a peça gasta. Conhecia cada risco naquela prata. O pequeno afundamento sempre lhe parecera um amassado.

"Ninguém abre isso há sete anos", disse.

"Então abra agora."

Ela poderia esperar até sair do carro. Poderia ignorá-lo. Mas ele sabia da dobradiça, e alguma coisa no rosto dele dizia que a resposta o assustava tanto quanto a ela.

Helena pressionou a unha no metal.

Um clique seco.

As duas metades se separaram.

Dentro havia uma fotografia minúscula, dobrada nas bordas: uma adolescente loira entre dois rapazes diante de uma árvore. O rapaz mais velho tinha os mesmos olhos claros do homem sentado à sua frente.

O sorriso na fotografia era a única coisa que ela não reconhecia.

"Marina", ele disse.

Helena fechou o medalhão num reflexo.

O carro pareceu pequeno demais para os dois.

Ela ainda ouvia a voz fraca de Marina no quarto do hospital, sete anos antes:

Se alguém da família Ferraz procurar você, pegue a Lia e vá embora.

O homem fitou a mão dela.

"Meu nome é Dante Ferraz."

Helena alcançou a trava da porta.

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