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"O Marido Dela Sabia de Tudo" Capítulo 6 — Ninguém Fala Por Mim

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Capítulo 6 — Ninguém Fala Por Mim

Marta chegou com café e uma pergunta escrita no alto de uma folha:

Qual decisão você quer tomar, independentemente do que os três queiram?

"Quero que parem de usar meu nome como justificativa", respondi.

"Isso você pode dizer. Também podemos pedir que a comissão conserve os registros e ouça cada pessoa separadamente. Não vamos transformar a reunião numa audiência que ela não é."

Passamos a manhã preparando uma declaração curta. Eu relataria o que presenciara no estacionamento, identificaria de quem recebera cada documento e recusaria qualquer autorização para que os outros falassem em meu nome. Marta cuidaria do contato com os responsáveis pela apuração. Se me pedissem opinião sobre a venda, a resposta seria simples: eu não tinha acesso suficiente para avaliar o negócio.

Isadora mudou o horário do nosso encontro. Chegou à sala neutra antes de nós, de vestido azul escuro, sem os brincos que eu vira no carro. Marta se apresentou e repetiu que conversávamos voluntariamente; cada lado manteria seus próprios registros.

"Tomás fez parecer que roubei dinheiro da empresa", disse Isadora. "Houve pagamentos aprovados por mim, ligados a análises que pedi antes da venda."

"Bruno trabalhou nessas análises?" perguntou Marta.

"Em parte. O contrato foi com a empresa dele."

"Ele era funcionário do grupo enquanto recebia?" perguntei.

"Sim. Eu achava que ele havia comunicado a atividade."

"Você perguntou?"

Ela olhou para mim pela primeira vez sem a postura de quem concedia uma entrevista. "Não."

Isadora trouxe um resumo de advertências feitas por representantes de empregados sobre o futuro da divisão. Pediu que eu o levasse à reunião. Marta recusou receber o único exemplar.

"Encaminhe diretamente à equipe independente e guarde prova da entrega", disse. "Helena não será portadora da sua versão."

Isadora fechou a pasta com força. "Eu não pedi que ela me defendesse."

"Pediu que eu carregasse seu documento", respondi. "Depois de saber que está dormindo com o homem com quem eu ia me casar. Consegue perceber o que está pedindo?"

Ela sustentou meu olhar. "Consigo. Sinto muito pelo que fiz. Não vou fingir que aconteceu por causa da venda."

Não a perdoei. Mas aquela foi a primeira vez que ela nomeou o que acontecera sem envolver trabalhadores, contratos ou Tomás.

Na tarde seguinte, a comissão se reuniu numa sala do grupo. A revisão externa ainda estava no início; ninguém ali podia anunciar culpa ou inocência. Marta obteve autorização para que eu prestasse uma declaração limitada, sem participar da decisão sobre a empresa. Renata, minha sócia, recebeu cópia do convite para que minha presença não parecesse trabalho do escritório.

Tomás estava à cabeceira. Isadora sentou-se do outro lado, com sua própria advogada. Bruno chegou minutos depois, trazendo uma pasta que apertava contra o corpo. Dois integrantes externos da comissão e a responsável pela integridade conduziam a sessão. Marta se sentou ao meu lado.

Primeiro, os responsáveis apresentaram o que já havia sido preservado: contratos, notas, aprovações e as respostas recebidas de cada envolvido. Bruno confirmou que a Sampaio Consultoria Estratégica recebera pagamentos enquanto ele era empregado do grupo. Alegou ter realizado serviços reais e prometeu apresentar os produtos entregues.

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"Você pode indicar por que esses serviços não foram comunicados pelos canais internos?" perguntou uma integrante da comissão.

"Achei que a aprovação de Isadora bastava."

Isadora virou o rosto. Sua advogada anotou a frase.

Tomás apresentou as designações que aprovara. Admitiu que mantivera Bruno e Isadora trabalhando juntos depois de surgir uma suspeita sobre a relação pessoal entre eles. Disse que queria acompanhar decisões comerciais, não estimular o relacionamento.

Olhei para Bruno. Ele esperava que aquela confissão me levasse a apoiá-lo. Tomás parecia esperar que minha raiva de Bruno me fizesse aceitar sua explicação. Os dois continuavam tratando minhas reações como parte do plano.

"Helena Duarte", chamou a responsável pela integridade. "Você solicitou a palavra."

Vi o celular de Marta sobre a mesa, com a declaração preparada e os arquivos que eu mesma produzira. Se surgisse uma afirmação nova, ela pediria tempo para verificar antes de respondermos. Assenti para ela. Não precisava ganhar aquela reunião inteira; precisava sair dela sem ter cedido minha voz.

Levantei com minha declaração. As mãos tremiam; a voz, não.

"No estacionamento do fórum, vi Bruno e Isadora juntos no carro de Tomás. Não fui enviada ao local por ele. Também não sabia que ele tinha informações sobre a relação e conhecia minha família havia muitos anos. Soube disso depois."

Tomás baixou os olhos para a mesa.

"Bruno confirmou pessoalmente que os contratos pertenciam à empresa dele. Afirmou que Tomás o colocara em projetos com Isadora. Tomás confirmou ter aprovado designações após surgir a suspeita. Registro essas declarações para que sejam verificadas. Não autorizo nenhum dos dois a apresentar minha posição sobre o caso."

Bruno ergueu a cabeça. "Também conte a eles sobre sua mãe."

Marta fez um gesto para que eu aguardasse. Eu mesma respondi.

"A assistência médica recebida pela minha mãe está sendo verificada com o programa que a concedeu. O tratamento dela não é argumento a seu favor nesta sala."

Ele soltou uma risada curta. "Você sabe que corri atrás daquele pedido."

"Sei. Não esqueci o que fez. Também não esqueci o que escreveu sobre isso depois."

A integrante da comissão pediu que não detalhássemos a condição de saúde de uma pessoa ausente. Concordei e entreguei minha declaração a Marta, que solicitou o protocolo de recebimento. Assim que o obtivemos, eu poderia sair. Tinha cumprido o que viera fazer.

Mas os comunicados de Bruno ainda estavam diante de mim. A primeira designação ocorrera semanas antes do primeiro pagamento. E Tomás dissera que queria acompanhar as decisões comerciais depois de encontrar pagamentos suspeitos.

"Antes de eu sair, peço que comparem duas datas", falei. "O primeiro contrato que vi e a ordem que colocou Bruno na equipe de Isadora. Se a ordem for anterior, que registro justificou aquela decisão?"

Marta pediu que a pergunta constasse em ata. A responsável pela integridade folheou um índice eletrônico, chamou uma das integrantes externas e confirmou que a revisão localizara um registro anterior aos pagamentos e às primeiras viagens. Não resumiu seu conteúdo. Perguntou apenas se Tomás e Isadora reconheciam as assinaturas que constavam na capa. Ambos pediram para vê-la.

Tomás franziu a testa. Isadora estendeu a mão. Bruno pareceu aliviado antes de ler a data, então fechou a expressão.

"Posso examinar?" perguntei a Marta.

"Você não precisa", ela disse. "Mas, se a comissão pretende mencionar seu nome, tem o direito de saber em que contexto."

A responsável confirmou que havia uma referência a mim. Em vez de me entregar o documento, mostrou a Marta as páginas relevantes, explicou sua procedência e autorizou que eu lesse somente o trecho sobre meu nome. Dessa forma, eu não teria acesso ao restante das informações empresariais.

Li a primeira linha. A anotação fora feita meses antes de Tomás admitir que me reconhecera. Um convite de casamento anexado estava marcado a caneta. Abaixo, havia uma instrução sobre as designações de Bruno que não combinava com a justificativa que Tomás acabara de dar.

Olhei a data mais uma vez. Naquela semana, Bruno chegara em casa comemorando a primeira reunião particular com Tomás. Eu me lembrava de ter comprado vinho para celebrar, sem imaginar que o convite para o nosso casamento estivesse dentro de uma pasta de trabalho. A lembrança não provava intenção alguma; por isso fixei os olhos no texto e esperei que fosse lido em voz alta diante de todos.

"Você disse que só queria acompanhar as decisões comerciais", falei.

Tomás ergueu os olhos. "Era parte do motivo."

"Então explique a outra parte."

Ele não respondeu.

A responsável pela integridade virou a folha, pronta para ler a instrução completa e identificar quem a havia autorizado. Bruno olhou de Tomás para mim; Isadora apertou as mãos sobre a mesa.

"Quero que fique registrado", eu disse, "que estou ouvindo esta resposta pela primeira vez."

A responsável começou a ler.

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