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"O Marido Dela Sabia de Tudo" Capítulo 5 — Minha Versão dos Fatos

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Capítulo 5 — Minha Versão dos Fatos

Na manhã seguinte, contei à sócia responsável pelo meu departamento por que meu nome poderia aparecer numa investigação do Grupo Valença.

Levei uma linha do tempo, não uma acusação. O horário da audiência, o estacionamento, o encontro no hotel, os documentos que Tomás me deixara consultar, os comunicados que Bruno mostrara em nossa casa. Disse exatamente quais imagens estavam no meu telefone e quais cópias eu mantinha separadas. Minha chefe, Renata, ouviu tudo sem interromper.

"Você já prestou serviço ao grupo?" perguntou.

"Nunca. Tomás sabe que atuo em direito de família, mas não recebi procuração dele nem aconselhei seu divórcio."

"E Bruno pediu orientação sobre os contratos?"

"Fez perguntas informais no passado. Não vou tratar uma conversa doméstica como autorização para acessar os negócios dele."

Renata pediu que eu não analisasse mais os documentos corporativos nem falasse em nome do escritório. Orientou que registrássemos a situação com a equipe interna e que eu procurasse representação própria antes de entregar qualquer material. Assinei a declaração do que tinha visto; ela me deu uma cópia.

Saí da sala com o coração acelerado. Eu construíra minha carreira sendo a pessoa que sabia agir. Pela primeira vez, agir bem significava deixar outra advogada conduzir parte do trabalho.

Dra. Marta Nogueira me recebeu naquela tarde numa sala pequena, perto do fórum. Tinha os cabelos grisalhos presos com uma caneta e não me ofereceu uma teoria sobre homens ricos.

Antes de entrar, pedi a Paula que mudasse a senha do armário onde eu guardava os processos de clientes e que não recebesse documentos do grupo em meu nome. Ela disse que Renata já tinha comunicado a recepção. Aquilo me constrangeu por um momento. Depois compreendi que a proteção dos clientes não podia esperar eu me sentir confortável.

"Quero três colunas", disse, empurrando uma folha. "O que você presenciou. O que alguém lhe mostrou. O que alguém afirmou sem comprovar."

Escrevemos juntas. O beijo no carro estava na primeira. Os contratos de consultoria, na segunda. A intenção de Tomás ao aprovar viagens, apesar da admissão dele, precisava ser descrita com cuidado: ele confirmara decisões, mas suas justificativas ainda eram palavras suas. Marta mandou que eu guardasse os originais das minhas fotografias e não repassasse cópias a pessoas envolvidas no conflito.

"E minha mãe?" perguntei.

"Ela recebeu atendimento. Precisamos saber como o programa de auxílio decidiu o pedido, sem fazer da paciente objeto de disputa."

Marta, com minha autorização, solicitou a Bruno que encaminhasse os documentos que ele próprio havia usado para requerer o benefício. Também enviou ao programa uma pergunta formal sobre o processo da solicitação. Não prometeu uma resposta rápida.

Na saída, encontrei uma mensagem de Isadora.

Tomás não contou tudo. Gostaria de falar com você antes que ele escolha por nós duas.

Mostrei a Marta. "Devo responder?"

"Se responder, marque um encontro comigo presente. Você pode ouvi-la sem assumir o papel que ela preparou para você."

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Enviei exatamente essa condição. Isadora não respondeu naquele dia.

Fui visitar minha mãe. Dona Lúcia estava na cozinha, tentando abrir um pote de doce de leite. Antes que perguntasse por Bruno, contei que o casamento não aconteceria. Disse que ele se envolvera com outra mulher e que eu havia saído do apartamento.

Ela deixou o pote na mesa. "Ele sabe que você está aqui?"

"Sabe que estou bem. Não onde estou. Vou dormir na casa de Paula."

"Você pode ficar comigo."

"Eu sei. Queria vir para conversar, não para fazer você tomar conta de mim."

Minha mãe chorou um pouco, com raiva de ser vista chorando. Depois perguntou se eu tinha comido. Falamos da cirurgia quando consegui suportar a pergunta.

"A ajuda que recebemos existiu", expliquei. "Bruno participou do pedido. Preciso confirmar de que modo. Mas ele usou isso numa conversa para dizer que eu não o enfrentaria."

Ela segurou minha mão. "Eu nunca pediria que você ficasse com alguém por minha causa."

"Eu sei."

Não sabia, até ouvi-la dizer. Bruno contara com o meu medo de perturbá-la, e eu estivera a um passo de deixá-lo decidir por nós duas.

Dois dias depois, Marta recebeu parte da resposta. O programa confirmava que a solicitação existira e que o auxílio fora aprovado; o histórico detalhado ainda precisava ser recuperado. Bruno enviou comprovantes do pedido e uma troca de mensagens com o setor responsável. Numa delas, cobrava prioridade dizendo que o tratamento tinha uma data próxima. Em outra, pedia que sua relação comigo não aparecesse na justificativa para a comissão que avaliaria casos urgentes.

"Isso pode ser proteção da privacidade ou pode ter favorecido o pedido", disse Marta. "Ainda não temos o histórico da comissão."

Ela também solicitara ao hospital apenas os comprovantes de cobrança que minha mãe aceitara compartilhar. Conferimos as datas, separando o valor coberto pelo plano de saúde da parte paga pelo auxílio. Não havia conta inventada. A pergunta era se o pedido passara pelo procedimento comum e por que Bruno acreditava que o benefício lhe dava poder sobre mim. Pedi que Marta não colocasse o prontuário de minha mãe no mesmo arquivo das mensagens entre ele e Isadora.

"Ela tem uma história médica", falei. "Não uma função na briga deles."

Marta criou um envelope separado e escreveu o nome de Dona Lúcia apenas nele.

"Ele sabia que a relação importava."

"Sabia que poderia importar. Vamos registrar as palavras exatas."

À noite, recebi finalmente a confirmação escrita do gabinete de Tomás: eu não exercia função para o grupo; a revisão das transações seria entregue a profissionais externos. Anexado ao e-mail havia um calendário de entrevistas, incluindo Bruno e Isadora na mesma semana.

Isadora também escrevera a Marta. Aceitava conversar, desde que o encontro não fosse gravado nem divulgado. Marcamos uma sala neutra para segunda-feira.

Antes de dormir, Marta me ligou com um aviso. A reunião em que o grupo decidiria como responder às suspeitas fora antecipada. Tomás e Isadora pretendiam apresentar documentos próprios. Bruno solicitara comparecer.

"Eles vão falar sobre mim?" perguntei.

"Tomás mencionou que você estava no estacionamento", disse Marta. "Bruno afirma que você viu pagamentos. Isadora quer usar uma mensagem sua como demonstração de que a procurou. Até a forma como contam seus atos está em disputa."

"Eu não escrevi a ela primeiro."

"Temos a conversa completa. Será apresentada se isso se tornar necessário."

"Já estão falando. Amanhã vamos decidir se você precisa estar presente para dizer a única coisa que nenhum deles pode dizer por você."

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