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"O Marido Dela Sabia de Tudo" Capítulo 4 — O Plano de Tomás Valença

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Capítulo 4 — O Plano de Tomás Valença

A assistente retornou minha ligação antes que eu conseguisse chamar um carro.

"O senhor Valença pode recebê-la em vinte minutos."

"Ótimo. Diga que levarei documentos."

Não disse quais. Passei primeiro no escritório, deixei minha mala na sala de uma colega e imprimi as fotografias dos três comunicados que Bruno me mostrara. A colega, Paula, olhou para meu rosto e ofereceu companhia. Agradeci, mas pedi que anotasse a hora em que eu saía e que me ligasse em uma hora. Precisava ouvir Tomás sem criar uma plateia para a minha vida.

No prédio do Grupo Valença, a recepcionista me conduziu diretamente à sala dele. Tomás estava com duas pessoas diante de uma tela. Assim que me viu, encerrou a reunião.

"Elas podem ficar", falei.

"O assunto inclui sua vida particular."

"E decisões da sua empresa. Não misture os dois quando lhe convém."

Uma das pessoas, uma mulher com uma pasta da área de integridade, lançou um olhar a Tomás. Ele pediu que aguardassem na sala ao lado, sem encerrar o expediente delas. Ao menos haveria alguém próximo para confirmar que a reunião ocorrera.

Espalhei os comunicados sobre a mesa. "Bruno recebeu estas designações depois que você passou a desconfiar dele e de Isadora?"

Tomás comparou as datas. "Sim."

"Você as aprovou?"

"Duas diretamente. A terceira passou pelo meu gabinete."

"Por quê?"

"Eu queria saber se os pagamentos que encontrei estavam ligados a decisões comerciais. Precisava observar o trabalho dos dois no mesmo projeto."

"E colocou os dois em viagens."

"Coloquei funcionários em atividades do grupo. Não decidi que teriam um caso."

"Não foi isso que perguntei. Você sabia que já havia intimidade entre eles quando autorizou a segunda viagem?"

Ele não respondeu de imediato. Tirei a caneta da bolsa e marquei a data no verso da minha cópia. Tomás olhou para o papel.

"Havia indícios", disse.

"E manteve a viagem."

"Mantive."

Foi pior ouvir a admissão do que discutir uma negativa. "Você queria uma vantagem contra Isadora."

"Queria descobrir o alcance das operações que ela não declarava na negociação. O relacionamento também poderia importar, mas não era o motivo inicial."

"Você percebe como consegue falar de duas pessoas traindo seus parceiros como se estivesse escolhendo uma empresa para comprar?"

Tomás pousou as mãos na mesa. "Percebo agora."

"Não peça pontos por perceber tarde."

Ele abriu na tela um resumo da proposta de venda de uma divisão deficitária. Apontou cláusulas de manutenção temporária de empregos e recursos para recolocação. Bruno afirmara que milhares de trabalhadores perderiam seus direitos; Tomás dizia que a alternativa, manter a operação sem financiamento, também teria demissões.

"Isto é sua versão", falei. "Preciso do contrato completo, da análise de riscos e de alguém que represente os trabalhadores na conversa. Não vou escolher quem mente olhando um slide seu."

"Os representantes foram consultados."

"Quando? Antes de a negociação começar ou depois de a notícia circular?"

正文1

Tomás consultou uma pasta, encontrou a ata e apontou uma data. Anotei sem fotografar. Se o encontro ocorrera tarde demais, o compromisso escrito não apagaria o tempo em que aquelas pessoas tinham sido mantidas no escuro. Se ocorrera antes, Bruno também me devia uma explicação por omitir isso. Tomás viu que eu registrava perguntas para os dois lados e parou de tentar completar minhas frases.

Ele fechou a apresentação. "A documentação pode ser entregue a uma revisão independente."

"Faça isso. Não a entregue a mim."

Quando me levantei, vi na estante uma fotografia antiga emoldurada de uma casa de campo. Um lago atrás da varanda. Eu conhecia aquele lugar, embora não soubesse de onde.

"Bruno mencionou uma foto minha", falei.

Tomás abriu uma gaveta e retirou um envelope. Não tentou escondê-lo. Dentro havia uma imagem de duas crianças sentadas num deque de madeira. A menina tinha uma franja que minha mãe insistira em cortar sozinha. Ao lado dela, um garoto mais velho, grande para a idade, segurava uma lata de biscoitos.

"Você era o Teco?"

O apelido saiu antes de eu pensar. Ele soltou uma risada curta. Naquele verão, os outros meninos caçoavam dele por ficar sempre perto da cozinha da propriedade. Eu tinha enfrentado um deles e voltado para casa com o polegar machucado.

"Sua mãe guardou uma cópia", disse Tomás. "Encontrei esta entre as coisas do meu avô."

"Quando soube que eu era aquela menina?"

"Há seis meses. Vi seu nome num convite de casamento que Bruno deixou sobre a mesa e confirmei depois."

"Confirmou como?"

"Perguntei a uma pessoa que conhecia sua família."

Eu me lembrava de Bruno contando, orgulhoso, que Tomás começara a chamá-lo para projetos importantes. Seis meses. As datas eram próximas demais.

"Você deu essas oportunidades a Bruno porque ele ia se casar comigo?"

"Ele já trabalhava no grupo. Eu não o escolhi por você."

"Mas, depois de me reconhecer, passou a observar se ele me merecia."

Tomás desviou os olhos para a fotografia. "Sim. Achei que estava evitando que se machucasse."

"Você criou oportunidades para que eu me machucasse e ficou esperando o resultado."

"Não sabia que ele escolheria Isadora."

"Sabia que eu seria afetada se escolhesse. Essa era a parte sobre a qual você não tinha direito de apostar."

Meu telefone vibrou. Paula cumpria a promessa de ligar. Atendi na frente dele e disse que estava saindo.

Tomás me acompanhou até a porta. "Helena, depois de ontem, pensei que poderia ajudá-la."

"No hotel, você me mostrou material para que eu passasse a depender da sua versão. Se queria ajudar, teria contado antes que sabia quem eu era."

"Eu estava com raiva de vê-la naquele estacionamento."

"Você também podia ter ido embora", respondi. "Podia ter deixado que eu o procurasse quando estivesse pronta. Preferiu aparecer com uma pasta na manhã seguinte."

Ele pareceu querer discutir a urgência da investigação, mas olhou para os comunicados na minha mão. "Fui eu que escolhi o momento", disse. "Isso também precisa constar."

"Então registre com as pessoas responsáveis, não apenas comigo."

"Essa raiva era sua. Não me peça para carregá-la."

Deixei a fotografia sobre a mesa e recolhi minhas cópias. Antes de ir, pedi o nome da pessoa responsável pela revisão independente e uma confirmação por escrito de que eu não representava Tomás, Isadora nem o grupo. Ele aceitou enviar ambos.

No elevador, Paula perguntou se eu estava bem. Olhei para o reflexo das minhas mãos segurando os papéis.

"Ainda não", respondi. "Mas amanhã vou resolver o que cabe a mim."

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