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"O Marido Dela Sabia de Tudo" Capítulo 2 — A Mentira de Sexta-feira

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Capítulo 2 — A Mentira de Sexta-feira

Bruno chegou às oito e quinze com uma sacola de comida japonesa e os mocassins castanhos nos pés.

"Desculpa a demora. A reunião passou do horário."

Deixou a sacola na bancada e tentou me beijar. Ofereci o rosto. Ele não percebeu a diferença.

"Sua mãe ligou", disse. "Quer que eu dê uma olhada na torneira dela no domingo."

Assenti. Na porta da geladeira havia uma foto dos três, tirada depois que ela recebeu alta do hospital. Bruno segurava a bolsa de remédios dela e sorria como se aquela imagem pudesse provar que ficaríamos juntos para sempre.

"Você esteve no escritório a tarde inteira?" perguntei.

Ele abriu uma embalagem de molho. "Saí para uma reunião. Por quê?"

"Curiosidade."

"Com o pessoal de investimentos. Uma confusão com contratos."

Eu poderia dizer que vira o carro. Poderia ouvir uma mentira maior. Em vez disso, guardei a hora e a frase.

"Amanhã vou sair cedo", falei.

"Audiência?"

"Compromisso meu."

Pela primeira vez, ele ergueu os olhos do jantar. "Você está bem?"

"Não muito."

Bruno aproximou a mão da minha nuca. Foi um gesto familiar; nas semanas em que minha mãe esteve internada, ele fazia aquilo sempre que eu perdia o fôlego. Tive vontade de me apoiar nele. Depois lembrei do estacionamento.

"Vou tomar banho", falei, afastando-me.

Às nove e cinquenta da manhã seguinte, entrei no restaurante do hotel. Tomás estava numa mesa perto da janela, com uma pasta fechada à sua frente e dois copos de água.

"Você disse que eu poderia trazer alguém", falei, puxando a cadeira.

"E pode."

"Não trouxe porque ainda não sei o que contaria a essa pessoa. Comece pela origem dos documentos."

Ele abriu a pasta. Havia registros de pagamentos feitos a três empresas prestadoras de serviço, contratos de consultoria e um quadro preparado pela auditoria interna do Grupo Valença. Algumas páginas traziam marcações a lápis; outras eram cópias cuja procedência eu ainda precisava confirmar.

Um nome aparecia em mais de um contrato:

Sampaio Consultoria Estratégica

.

"É a empresa de Bruno?"

"Está registrada no nome dele."

Virei as páginas. Parcelas altas, notas com descrições vagas, serviços que se sobrepunham às funções de Bruno no grupo.

"Isso merece investigação", eu disse. "Ainda não prova desvio."

"Concordo."

"Você me trouxe aqui para concordar comigo?"

"Trouxe porque os pagamentos começaram depois que Isadora passou a tratar diretamente com ele."

"E o que você quer que eu faça com isso?"

"Nada em meu nome. Quero que saiba antes de ele pedir sua ajuda."

Fechei a pasta. Tomás percebeu meu movimento.

"Existe outra coisa", disse.

"Então mostre de uma vez."

Ele tirou uma folha separada. Era um registro de solicitação ao programa de assistência médica dos funcionários. O nome de minha mãe estava ali. A cirurgia cardíaca havia sido oito meses antes; o hospital cobrara uma parte que ela e eu não conseguíamos pagar sem vender o apartamento dela. Bruno contou que sua empresa tinha aprovado um auxílio excepcional.

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Eu sabia que recebera aquela ajuda. Não sabia que Bruno havia acompanhado pessoalmente cada etapa da solicitação.

"Ele fez algo errado para consegui-la?"

"Ainda não sei. E não vou dizer que fez."

"Então por que pôs o nome dela nesta mesa?"

Tomás inclinou a cabeça, como quem aceitava a pergunta que merecia.

"Porque encontrei uma mensagem de Bruno a Isadora. Ele escreveu que você jamais enfrentaria publicamente quem ajudou sua mãe a operar."

Empurrou o telefone desbloqueado na minha direção. A imagem mostrava a mensagem e uma data. Pedi o arquivo original e os dados de extração; ele disse que a auditoria os preservara. Anotei isso num guardanapo, junto com os números dos documentos que havia visto.

"Você teve acesso a mensagens privadas de sua mulher?"

"A auditoria recuperou conversas de um aparelho corporativo usado no trabalho. Não preciso que confie na minha palavra."

Eu não confiava. Mas conseguia ouvir Bruno dizendo algo muito parecido.

Minha mãe achava que o genro futuro tinha salvado sua vida. Eu também o achava.

"Ela não será parte da sua disputa", avisei.

"Não pretendo procurá-la."

"Isso vale para Bruno também?"

"Não controlo o que ele fará."

Levantei. Tomás permaneceu sentado.

"Se tiver mais material, entregue ao seu advogado e à auditoria", falei. "Não me mostre informação privilegiada esperando que eu me torne útil."

"Helena, eu não queria que soubesse desse jeito."

"Mas escolheu o jeito."

Saí com a fotografia dos documentos autorizados para consulta, os dados de contato da auditoria e a certeza desconfortável de que não deveria usar nada daquilo sem orientação independente. Tomás não me pediu silêncio. Isso não o tornava inocente.

Durante a tarde, enviei a Bruno uma única mensagem:

Precisamos conversar em casa, às seis.

Tirei minha pasta de trabalho do apartamento, fotografei os pertences que deixaria e coloquei numa mala apenas minhas roupas e documentos pessoais. Pedi a uma colega que estivesse disponível por telefone. Também cancelei a visita de domingo sem contar a minha mãe por quê.

Pensei em ligar para ela. Desisti. Ainda chamava Bruno de "meu rapaz" e separava um pedaço de bolo para ele sempre que fazia aniversário. Eu não queria que recebesse uma versão apressada, nem que a notícia sobre meu casamento se misturasse à dívida imaginária da cirurgia.

Deixei a chave sobre a bancada, mas conservei a minha cópia até poder retirar o resto das coisas. A casa também era minha, e sair por uma noite não significava entregar a Bruno o direito de decidir quando eu voltaria. Pus o contrato de locação ao lado da mala. Quando a fechadura girou, eu já sabia o que perguntar primeiro.

Às seis em ponto, Bruno abriu a porta.

Viu minha mala ao lado da saída. Seu olhar desceu até os próprios sapatos e voltou ao meu rosto.

"Helena", disse, "o que você descobriu?"

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