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"O Marido Dela Sabia de Tudo" Capítulo 1 — Os Sapatos Que Eu Comprei

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Capítulo 1 — Os Sapatos Que Eu Comprei

Reconheci meu noivo pelos sapatos antes de reconhecer a mulher que estava com ele.

Os mocassins castanhos apareciam sob a porta entreaberta de um carro estacionado no terceiro subsolo. Eu os havia comprado três anos antes, com o dinheiro do primeiro processo grande que ganhei sozinha. Bruno disse que eu era louca por gastar tanto. Depois prometeu usá-los no nosso casamento.

Naquela quinta-feira, os sapatos estavam no chão de um carro que não era dele. A mão de uma mulher saiu de dentro, puxou sua gravata e fechou a porta quase inteira.

Fiquei imóvel com a pasta de audiências apertada contra o peito.

Eu passava os dias ouvindo pessoas explicarem por que tinham mentido a quem amavam. Sabia reconhecer uma desculpa antes mesmo de ela chegar à metade. Isso não me preparou para ouvir a risada de Bruno através do vidro fumê.

"A Helena pode descer a qualquer momento", disse a mulher.

"Então pare de falar dela."

O carro balançou levemente. Dei um passo para trás e bati o salto numa grelha de drenagem. O estalo correu pelo estacionamento.

A porta traseira se moveu.

"Não vá até lá", disse uma voz atrás de mim.

Virei depressa. Tomás Valença estava ao lado da coluna de concreto, sem gravata, com as mangas da camisa dobradas. Eu o conhecia das festas a que Bruno me arrastava. Era o homem cuja aprovação meu noivo perseguia havia anos.

E aquele era o carro de Tomás.

"Você sabe?" perguntei.

Ele olhou para a porta do automóvel. "Sei."

A mulher saiu primeiro. Cabelo escuro preso num coque frouxo, blusa clara e brincos compridos. Isadora Valença. Ela ajeitou a manga enquanto Bruno descia pelo outro lado. Os dois entraram no elevador privativo sem olhar na nossa direção.

Tomás deu um passo, mas me afastei antes que pudesse tocar em mim.

"Há quanto tempo?"

"Isso não é uma conversa para este lugar."

"Para eles, aparentemente é."

Passei por ele. Queria alcançar o elevador, obrigar Bruno a me olhar, ouvir Isadora dizer meu nome na minha frente. Tomás não bloqueou meu caminho. Limitou-se a falar:

"Se você subir agora, Bruno vai querer saber o que você viu. E vai adaptar a história ao que você disser."

Parei diante do botão. A luz indicava que o elevador já estava no décimo andar.

"Você fala como se tivesse uma história pronta."

"Tenho perguntas. Algumas dizem respeito a você."

"Não use meu nome como desculpa para resolver seu casamento."

Ele aceitou o golpe sem baixar os olhos. Por um segundo, pareceu tão cansado quanto eu me sentia.

"Está certa."

Peguei o telefone e fotografei a placa do carro, o número da vaga e o relógio digital junto ao elevador. Não sabia se aquelas imagens serviriam para alguma coisa. Precisava fazer algo com as mãos antes que começassem a tremer.

Tomás observou em silêncio.

"Você já tinha vindo aqui por causa deles?" perguntei.

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"Vim porque sabia que eles estariam aqui."

"E sabia que eu sairia da audiência a esta hora?"

Ele demorou uma fração de segundo a mais para responder.

"Sim."

A raiva encontrou um alvo novo. "Então você me trouxe para assistir?"

"Não combinei seu horário com o deles. Mas sabia da coincidência e não a impedi."

Era uma resposta cuidadosamente estreita. Eu reconhecia aquele tipo de frase das salas de reunião.

"O que você quer de mim, Tomás?"

"Que não aceite a primeira explicação que Bruno lhe der."

Uma buzina soou na rampa, devolvendo o barulho comum ao estacionamento. Eu tinha uma mensagem de Bruno no celular, enviada dez minutos antes:

Boa audiência, amor. Saio tarde do trabalho.

Mostrei a tela a Tomás. "A primeira explicação já chegou."

Meu telefone continuava aberto naquela mensagem. Toquei no contato de Bruno, mas não liguei. Havia uma diferença entre descobrir uma traição e entregar ao mentiroso a única informação que ele ainda não possuía: o tamanho do que eu sabia.

"Isadora sabe que você os segue?" perguntei.

"Não costumo segui-los. Recebi a informação de que estariam aqui."

"De quem?"

"De uma pessoa que trabalha no grupo. Não vou lhe dar o nome sem a autorização dela."

"Então anote que, por enquanto, essa informação não vale como prova para mim."

Ele soltou o ar pelo nariz, quase um sorriso, e eu detestei perceber que ele me avaliava. Não estávamos numa negociação. Eu precisava me lembrar disso toda vez que Tomás escolhia uma resposta capaz de parecer respeitosa.

Ele não sorriu.

"Amanhã, às dez, estarei no hotel ao lado do meu escritório. Traga alguém de sua confiança, se quiser. Vou mostrar o que tenho e de onde veio. Você decide o que fazer depois."

"Por que amanhã?"

"Porque hoje Bruno ainda acredita que você não sabe."

Não aceitei responder. Abri o aplicativo de transporte e pedi um carro. Enquanto esperava, liguei para minha mãe. Dona Lúcia atendeu na terceira chamada, reclamando que o chá havia esfriado. Perguntou se eu jantaria com ela no domingo. Eu disse que sim.

Consegui manter a voz firme até desligar.

Dentro do carro, a motorista perguntou se eu queria mudar a rota por causa de um bloqueio na avenida. Respondi que sim. Uma decisão pequena, banal, minha. Olhei novamente para a foto que Bruno me enviara naquela manhã, do café que tinha preparado para nós dois. Não a apaguei. Também não respondi à mensagem sobre o trabalho.

Na portaria do prédio, pedi ao funcionário que não avisasse Bruno da minha chegada. Subi sozinha, tirei uma folha do caderno de audiências e escrevi os fatos na ordem em que tinham ocorrido. A hora, a vaga, as palavras ouvidas no carro, a presença de Tomás. Deixei de fora o que eu imaginava. Era o único jeito de impedir que a raiva passasse por memória.

Antes de entrar no carro, Tomás me entregou um cartão com o endereço do hotel. Não havia logotipo nem instruções.

"Helena", disse ele, "amanhã ele vai mentir de novo."

"Você também pode estar mentindo agora."

"Pode conferir tudo. É exatamente o que eu quero que faça."

Guardei o cartão sem prometer que iria.

No caminho para casa, abri a fotografia da vaga. O relógio marcava 16h47. Ampliei a imagem até enxergar, refletido na janela do carro, o rosto de uma mulher que eu não reconhecia de imediato.

Era o meu.

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