"A Filha da Empregada Fez o Chefe da Máfia Rir… Então Revelou o Segredo do Irmão Morto" Capítulo 3 — O Sangue dos Montenegro
Dante entregou o laudo a Clara.
Ela não precisou ler todas as páginas. A conclusão estava destacada no final: compatibilidade genética com parentesco avuncular superior a 99,8%.
Nina era sobrinha biológica de Dante Montenegro.
“Eu nunca menti sobre o pai dela.”
“Mentiu durante quase quatro anos ao esconder que ela existia.”
“Eu a mantive viva.”
Dante olhou para a menina adormecida. A raiva em seu rosto não desapareceu, mas perdeu o alvo.
“A partir de amanhã, ela terá escolta.”
“Não.”
“Não é uma negociação.”
“Tudo sobre minha filha é uma negociação comigo.”
Ele virou-se devagar.
“Ela é minha família.”
“Ela é minha filha.”
Clara fechou a mão sobre o chip escondido. Ainda não sabia se devia mostrá-lo. O resultado confirmava o sangue, não a confiança.
Dante se aproximou até que apenas um passo os separasse.
“Gabriel teria querido que eu a protegesse.”
“Gabriel mandou que eu corresse de todos vocês.”
A dor atravessou os olhos dele, rápida e verdadeira.
“Eu não sou todos.”
“Então prove.”
Dante saiu sem responder.
Pela manhã, a mansão parecia uma fortaleza em estado de guerra. Homens verificavam câmeras, trocavam códigos e vasculhavam os carros dos funcionários.
Nina, alheia, comeu pão de queijo sentada na cadeira à direita de Dante.
Aquele lugar pertencera a Gabriel.
Rosa tentou mudar o prato da menina, mas Dante impediu com um gesto.
“Ela fica.”
Otávio chegou antes das oito, acompanhado de um advogado. Trouxe uma boneca cara e um sorriso que não alcançava os olhos.
“Então é oficial”, disse. “Temos uma nova Montenegro.”
Nina examinou a boneca e devolveu-a.
“Ela parece brava.”
“É uma peça francesa.”
“Continua brava.”
Dante quase sorriu. Otávio observou a proximidade entre os dois.
O advogado abriu uma pasta e explicou que a confirmação de paternidade exigiria processo judicial, já que Gabriel estava morto. Também seria necessário corrigir a certidão de nascimento e verificar eventuais direitos sucessórios.
“Direitos sucessórios?”, Clara perguntou.
Otávio respondeu antes do advogado.
“Formalidades. Gabriel não deixou patrimônio relevante fora do que já foi inventariado.”
Dante ergueu os olhos.
“Meu irmão possuía trinta por cento das ações com direito a voto.”
“Que retornaram à holding após a morte, conforme o acordo familiar.”
“Na ausência de descendentes.”
O silêncio entre tio e sobrinho foi curto, mas suficiente.
Clara entendeu por que uma menina de três anos assustava um homem poderoso.
Nina não era apenas filha de Gabriel. Era herdeira.
O advogado tirou da pasta um termo provisório de representação e o colocou diante de Clara.
“Isto permitiria ao Grupo Montenegro administrar qualquer participação até a conclusão do processo.”
Clara leu a primeira página. A cláusula oito autorizava a diretoria financeira a votar em nome da menor.
“A diretoria financeira é você”, disse, olhando para Otávio.
“É uma proteção técnica.”
“É uma procuração disfarçada.”
Ela rasgou o documento ao meio.
Dois seguranças se mexeram, mas Dante ergueu a mão.
“Minha sobrinha não assina nada por meio da mãe sem um advogado independente.”
Otávio encarou o sobrinho.
“Você está deixando uma desconhecida interferir no patrimônio da família.”
“Ela fez em dez segundos a pergunta que seus advogados esperavam que eu não fizesse.”
Nina observou os pedaços de papel e cochichou para Dante:
“Mamãe faz isso quando a conta está errada.”
Ele inclinou-se para ouvi-la.
“Sua mãe costuma vencer?”
“Sempre. Às vezes depois de chorar no banheiro.”
Clara sentiu o rosto esquentar. Dante, porém, não riu. Olhou para ela com uma consideração nova, menos desconfiada e mais perigosa para as barreiras que ela construíra.
Otávio recolheu a pasta.
“Tenha cuidado para não confundir sangue com lealdade, Dante.”
“Foi exatamente o que Gabriel escreveu.”
O tio parou por um instante. Não perguntou sobre o bilhete, mas sua mão apertou a alça de couro.
“Nenhum documento será assinado hoje”, disse Clara.
Otávio sorriu.
“Naturalmente. Você deve estar confusa.”
“Não. Estou prestando atenção.”
Depois do café, Dante levou Clara ao escritório. Mostrou o monitor com as imagens do prédio onde ela morava.
Dois homens haviam entrado no apartamento às 4h12. Usaram chaves, evitaram as câmeras principais e permaneceram vinte e seis minutos.
“Eles não roubaram televisão nem dinheiro”, disse Rafael. “Reviraram livros, abriram colchões e desmontaram brinquedos.”
Clara sentiu enjoo.
“Procuravam o relógio.”
“Ou isto.”
Ela abriu a mão e mostrou o chip.
Dante ficou rígido.
“Onde estava?”
“No telefone de brinquedo de Nina.”
Rafael pegou o aparelho usando luvas. O chip era um transmissor simples, capaz de reproduzir áudios armazenados e receber um sinal de curta distância.
“Quem deu o brinquedo a ela?”, perguntou.
“Comprei usado há dois meses numa feira da Praça Benedito Calixto.”
“Alguém pode ter trocado o aparelho depois”, disse Rafael.
Clara lembrou-se de Otávio tocando a bolsa de Nina na semana anterior, quando visitara a mansão e fingira não notar a criança no corredor.
Na época, ele ainda não sabia quem ela era. Ou fingia não saber.
“Quero ir ao apartamento”, disse Clara.
“Não”, Dante e Rafael responderam juntos.
“Há uma coisa escondida lá que ninguém vai encontrar sem mim.”
Dante ordenou a preparação de dois carros. Clara insistiu que Nina permanecesse com Rosa na mansão.
Antes de sair, agachou-se diante da filha.
“Você fica aqui e não abre sua bolsa para ninguém.”
“Nem para o homem que ri?”
Clara olhou para Dante.
“Só para ele, se houver perigo.”
Nina tirou do bolso um botão preto e colocou-o na palma de Dante.
“Para você voltar.”
Ele reconheceu o botão do casaco que Gabriel usara na última ceia de Natal. Clara explicou que a menina o encontrara entre os objetos do pai e o carregava como amuleto.
Dante fechou os dedos sobre a lembrança.
“Eu volto. E sua mãe também.”
Clara percebeu que ele não fizera uma promessa para acalmar a criança. Fizera um juramento.
No apartamento, a porta estava intacta, mas tudo dentro parecia ter sido atingido por uma tempestade. Roupas cobriam o chão. Fotografias tinham sido rasgadas. O colchão de Nina estava aberto de uma ponta à outra.
Clara entrou no banheiro e removeu a tampa do ralo sob a pia. De dentro do cano seco, tirou uma chave pequena embrulhada em plástico.
“Gabriel me deu no mesmo dia que entregou o relógio.”
“Chave de quê?”, perguntou Dante.
“Ele disse que eu saberia quando parasse de fugir.”
Rafael fotografou a peça. O número 17-B estava gravado na lateral.
Dante retirou do bolso o bilhete encontrado no relógio.
“Procure 17-B.”
Um barulho veio do corredor.
Rafael empurrou Clara para trás da parede no instante em que um disparo atravessou a porta. Dante sacou a arma, enquanto seus homens avançavam pela escada.
O agressor tentou alcançar a saída de serviço, mas foi derrubado no térreo. Quando Rafael o trouxe de volta, o homem tinha um corte na testa e nenhum documento.
Dante segurou-o pelo colarinho.
“Quem mandou você?”
O invasor cuspiu sangue no chão e riu.
“O morto devia ter ficado sem filha.”
Dante o lançou contra a parede.
“Diga o nome.”
Antes que o homem respondesse, seu corpo sofreu um espasmo. Ele levou a mão ao pescoço e caiu.
Rafael encontrou uma cápsula rompida entre seus dentes.
“Cianeto”, murmurou.
Clara recuou, horrorizada.
O telefone de Dante tocou.
Era Rosa.
“Senhor Dante, desculpe incomodar, mas a Nina encontrou uma fotografia no escritório antigo do senhor Gabriel.”
“Que fotografia?”
“Uma em que a mãe dela aparece.”
Clara tomou o aparelho.
“Rosa, eu nunca estive no escritório de Gabriel.”
Do outro lado, a governanta ficou em silêncio.
“Então precisamos voltar”, disse ela. “Porque a foto mostra você grávida, ao lado dele. E no verso está escrito: ‘Se alguma coisa acontecer comigo, foi meu tio.’”
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