"A Empregada Que Pediu R$ 100 Mil ao Chefe da Máfia" Capítulo 3 — A Fotografia
Às cinco e quinze da manhã, ninguém dormia na Mansão Montenegro.
Bruno havia fechado os portões.
Dois homens verificavam as câmeras externas.
Outros revistavam carros, corredores e áreas de serviço.
Os funcionários que já estavam na casa receberam ordens para permanecer onde estavam.
Camila observava tudo da sala menor ao lado da cozinha.
Teresa Almeida colocou uma xícara de café diante dela.
"Beba."
"Não consigo."
"Não perguntei."
Camila olhou para a governanta.
Teresa tinha cinquenta e oito anos e trabalhava para os Montenegro havia tempo suficiente para falar com quase todo mundo daquela maneira.
Até com Dante, às vezes.
Camila pegou a xícara.
"Obrigada."
Teresa sentou-se diante dela.
"O menino está bem?"
"Está."
"Então comece por isso."
Camila assentiu.
"Mas alguém entrou no hospital."
"Eu sei."
"E sabia onde eu trabalhava."
"Também sei."
Camila apertou a xícara.
"Eu nunca contei para ninguém."
Teresa a observou.
"Tem certeza?"
"Tenho."
"Nem para uma amiga?"
"Não."
"Família?"
"Minha tia sabe que trabalho numa mansão no Jardim Europa. Não sabe de quem."
"Seu irmão?"
Camila pensou.
"Matheus sabe."
"Ele contou?"
"Não."
"Como sabe?"
"Porque ele sabe o que significa trabalhar aqui."
Teresa ficou em silêncio.
Camila ergueu os olhos.
"Você acha que eu fiz alguma coisa?"
"Não."
"Mas Dante acha."
"Se Dante achasse que você fez alguma coisa, não estaria tomando café na cozinha."
Camila não sabia se aquilo deveria tranquilizá-la.
Teresa apontou para as mãos dela.
"Isso precisa de pomada."
"Depois."
"Agora."
"Teresa..."
"Você quer ficar sem pele?"
Camila finalmente deixou a mulher buscar o kit de primeiros socorros.
Enquanto Teresa limpava cuidadosamente os cortes, Camila pensava na fotografia.
Dante dentro do próprio escritório.
Alguém estivera perto o bastante para fotografá-lo.
E aquele alguém sabia exatamente como atingir Camila.
"Quem entra no escritório dele?", perguntou.
Teresa parou.
"Por quê?"
"A foto foi tirada lá."
"Eu sei."
"Quem entra?"
"Poucas pessoas."
"Quem?"
Teresa terminou de colocar um curativo.
"Bruno."
"Mais."
"Eu."
"Mais."
"Marcelo."
Camila ergueu os olhos.
"Marcelo Tavares?"
"Sim."
Marcelo era diretor financeiro do Grupo Montenegro.
Aparecia na mansão quase toda semana.
Sempre impecável.
Sempre educado.
Sempre falando como se estivesse atrasado para alguma reunião.
Camila lembrou-se de algo.
Três meses antes.
Ela estava na lavanderia organizando toalhas quando uma pasta caiu de sua bolsa.
Os papéis se espalharam.
Contas do hospital.
Relatórios.
Uma cobrança.
Marcelo entrara naquele momento.
Ajudara a juntar os documentos.
"Problemas?"
"Nada importante."
Ele vira o logotipo do hospital.
Camila se lembrava claramente.
"Teresa."
"Sim?"
"Marcelo sabe do Matheus."
---
Dante ouviu sem interromper.
Camila estava novamente no escritório.
Desta vez, à luz da manhã.
O ambiente parecia menos assustador.
Dante não.
"Conte exatamente."
Camila explicou o episódio da lavanderia.
"Ele viu uma conta do hospital."
"Você disse que era seu irmão?"
"Acho que sim."
"Acha?"
"Foi há meses."
Dante olhou para Bruno.
"Marcelo chega às nove."
"Eu ligo para ele?"
"Não."
Camila franziu a testa.
"Você não vai perguntar?"
"Se ele estiver envolvido, quero que continue acreditando que não sabemos."
"Mas meu irmão..."
"Está protegido."
"Por seus homens?"
"Por pessoas que eu confio."
Camila soltou uma risada curta.
"Isso não parece estar funcionando muito bem."
Bruno ficou tenso.
Dante apenas olhou para ela.
Camila percebeu tarde demais.
"Desculpe."
"Você está errada?"
Ela hesitou.
"Não."
"Então não peça desculpas."
Camila ficou surpresa.
Dante pegou a fotografia.
"Essa foto foi feita há seis dias."
"Como sabe?"
"Esse relógio não está mais ali."
Ele apontou para uma pequena peça ao fundo.
"Quebrou na semana passada."
Camila aproximou-se.
"Então alguém entrou recentemente."
"Sim."
"E tirou isso sem você perceber?"
Dante ergueu os olhos.
"Você parece muito surpresa."
"Você é Dante Montenegro."
"E?"
"As pessoas têm medo até de respirar errado perto de você."
"Você acabou de me dizer que minha segurança não funciona."
Camila apertou os lábios.
Ele tinha razão.
Dante virou a fotografia novamente.
"Por que você?"
"Como?"
"Tenho mais de quarenta funcionários ligados a esta casa. Por que escolheram você?"
"Porque devo dinheiro."
"Talvez."
"Porque tenho acesso à mansão."
"Você não tem acesso ao meu escritório."
"Eu limpo o corredor."
"Exatamente."
Camila entendeu.
"Queriam que eu entrasse."
Dante assentiu.
Ela sentiu o estômago embrulhar.
"Rogério mandou eu pedir dinheiro."
"Ou roubar."
Camila encarou Dante.
"Você ouviu?"
"Ouvi o suficiente."
Ela desviou o olhar.
"Eu não roubaria."
"Eu sei."
"Como?"
"Porque você teve oito meses."
A resposta a pegou desprevenida.
Dante continuou:
"Relógios. Joias. Dinheiro. Objetos pequenos que ninguém notaria imediatamente."
"Eu nunca..."
"Eu sei."
Camila respirou fundo.
"Então por que fizeram isso?"
"É o que vou descobrir."
Dante pegou um telefone sobre a mesa.
"Até lá, você fica aqui."
"Como?"
"Na mansão."
"Eu já trabalho aqui."
"Quero dizer que não vai voltar para casa."
Camila levantou-se.
"Não."
"Não é seguro."
"Minha vida está no Tatuapé."
"Seu irmão está no hospital."
"Minhas coisas estão lá."
"Alguém busca."
"Não."
Dante apoiou as mãos sobre a mesa.
"Camila."
"Eu não sou uma das suas..."
Ela parou.
"Uma das minhas o quê?"
"Pessoas."
Bruno virou discretamente o rosto.
Camila continuou:
"Você não pode simplesmente decidir onde eu vou dormir."
"Posso decidir quem permanece na minha propriedade."
"Então estou demitida?"
"Não."
"Então eu vou para casa."
Dante respirou lentamente.
"Alguém sabe onde você trabalha, onde seu irmão está internado e quanto você deve."
"Eu sei."
"Alguém fotografou meu escritório."
"Eu sei."
"E você quer voltar sozinha para um apartamento cujo endereço Rogério conhece?"
Camila ficou calada.
"Isso é coragem ou teimosia?"
"É minha casa."
Dante se aproximou.
"Por alguns dias, esta casa é mais segura."
"Para quem?"
A pergunta saiu espontaneamente.
Dante parou.
Camila percebeu que havia tocado em algo.
Antes que ele respondesse, Bruno recebeu uma ligação.
"Encontraram alguma coisa."
Dante virou.
"O quê?"
"Um acesso ao sistema do hospital."
Camila ficou atenta.
"Que acesso?"
"Alguém consultou o prontuário completo de Matheus ontem à noite."
"Quem?"
Bruno olhou para Dante.
"Uma credencial externa vinculada ao Grupo Montenegro."
O rosto de Dante endureceu.
Camila sentiu um arrepio.
"Então alguém daqui entregou meus dados."
"Nós ainda não sabemos."
"Mas alguém daqui sabia."
Dante não negou.
---
Naquela noite, Camila aceitou dormir no quarto de funcionários.
Não porque Dante mandara.
Foi o que repetiu para si mesma.
Aceitou porque Matheus estava protegido.
Porque Rogério conhecia seu endereço.
Porque, pela primeira vez desde que aquela dívida começara, ela não sabia qual perigo esperar.
O quarto era simples.
Cama.
Armário.
Banheiro pequeno.
Camila tomou banho e ficou quase dez minutos olhando as próprias mãos.
Teresa havia colocado curativos novos.
Ela vestiu uma camiseta larga e sentou-se na cama.
O celular barato permanecia desligado.
Dante havia pedido que não ligasse.
Camila abriu o telefone normal.
Uma mensagem de Matheus:
**Tô bem. Para de surtar.**
Ela sorriu.
Respondeu:
**Durma.**
Matheus:
**Você também.**
Camila colocou o aparelho na mesa.
Foi então que ouviu um ruído.
Algo raspou no chão.
Ela virou.
Um pedaço de papel apareceu por baixo da porta.
Camila não se mexeu.
Seu coração acelerou.
Levantou lentamente.
Abriu a porta de uma vez.
Corredor vazio.
"Tem alguém aí?"
Nada.
Ela fechou.
Pegou o papel.
Havia duas frases impressas.
**O DINHEIRO DE DANTE NÃO VAI SALVAR SEU IRMÃO.**
Camila sentiu o sangue gelar.
Abaixo:
**PORQUE NUNCA FOI SOBRE DINHEIRO.**
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