"A Empregada Que Pediu R$ 100 Mil ao Chefe da Máfia" Capítulo 1 — Uma Hora
O desinfetante industrial tinha acabado com as mãos de Camila Ferreira.
Aos vinte e sete anos, ela já não lembrava da última vez em que seus dedos não arderam ao tocar água quente.
As juntas estavam vermelhas, rachadas, algumas cobertas por pequenos cortes que voltavam a abrir sempre que ela torcia um pano.
Naquela madrugada, uma gota de sangue caiu sobre o pano branco.
Camila parou imediatamente.
Olhou para os dois lados do corredor.
Ninguém.
Passava da uma da manhã, e a Mansão Montenegro estava quase silenciosa.
Quase.
Do outro lado da porta de madeira escura à sua frente, homens conversavam em voz baixa.
Camila não entendia as palavras.
Nem tentava.
Trabalhava naquela casa havia oito meses e aprendera rapidamente a regra mais importante.
Não perguntar.
Não olhar.
Não ouvir.
E, principalmente, nunca repetir nada do que acontecia depois da meia-noite.
Era por isso que o salário era tão alto.
Três vezes mais do que Camila recebera no último emprego.
Ninguém pagava aquele dinheiro apenas para alguém limpar mármore italiano e trocar lençóis.
Pagavam pelo silêncio.
Camila mergulhou novamente o pano no balde e continuou polindo a luminária de bronze ao lado do escritório de Dante Montenegro.
Ela conhecia o nome do homem atrás daquela porta.
Toda São Paulo conhecia.
Empresário para os jornais.
Presidente do Grupo Montenegro para o mercado financeiro.
Para quem sabia demais, porém, Dante Montenegro era outra coisa.
Um homem que ninguém queria como inimigo.
Camila nunca havia conversado com ele por mais de alguns segundos.
"Bom dia, senhor Montenegro."
"Com licença, senhor Montenegro."
"Sim, senhor Montenegro."
Era tudo.
Ela preferia assim.
Quanto menos Dante soubesse sobre ela, melhor.
O celular escondido no bolso do avental vibrou.
Camila congelou.
Aquele aparelho não era o telefone que usava normalmente.
Era um celular barato, comprado em dinheiro e mantido escondido.
Só três pessoas tinham aquele número.
Camila puxou o aparelho.
01:45.
Número desconhecido.
Seu estômago apertou.
Ela atendeu.
"Alô?"
Uma voz masculina respondeu imediatamente.
"Boa noite, Camila."
O pano escapou de seus dedos.
Rogério Brandão.
Ela se afastou da porta do escritório.
"Eu já fiz o pagamento deste mês."
Rogério riu.
Era uma risada baixa, tranquila.
Camila preferia quando ele gritava.
Quando Rogério falava daquele jeito, alguma coisa ruim vinha depois.
"Fez."
"Então por que está me ligando?"
"Porque seu pagamento não cobre mais os juros."
Camila fechou os olhos.
"Você disse que cobria."
"Eu disse muitas coisas."
"Rogério..."
"Você me deve cem mil reais."
Camila abriu os olhos.
Por alguns segundos, achou que havia entendido errado.
"O quê?"
"Cem mil."
"Eu não tenho esse dinheiro."
"Eu sei."
"Então por que..."
"Você tem uma hora."
Camila encostou as costas na parede.
"Uma hora para quê?"
"Para conseguir."
O coração começou a bater tão forte que ela sentiu o pulso nas têmporas.
"Isso é impossível."
"Não para uma mulher que trabalha na casa de Dante Montenegro."
Camila ficou imóvel.
Até então, Rogério sabia apenas que ela trabalhava como doméstica para uma família rica.
Ela nunca dissera o sobrenome.
Nunca mencionara Jardim Europa.
Nunca mencionara Dante.
"Como você sabe onde eu trabalho?"
Rogério ignorou a pergunta.
"Seu irmão está acordado?"
Camila perdeu a cor.
"Não fale do Matheus."
"Por quê?"
A voz dele continuava calma.
"Seu irmão é a razão de estarmos conversando."
"Fica longe dele."
"Eu estou longe."
Uma pausa.
"Mas o Caio não está."
Camila apertou o telefone.
"Quem é Caio?"
"Meu sobrinho."
Rogério pareceu sorrir do outro lado.
"Ele acabou de entrar no hospital."
O corredor pareceu inclinar.
Camila precisou apoiar uma mão na parede.
"Você está mentindo."
"Hospital Infantil Sabará. Ala de oncologia."
Ela parou de respirar.
"Quarto 614."
"Não."
"A cortina está meio aberta."
"Para."
"Seu irmão está dormindo."
"Para!"
"Tem uma manta azul cobrindo as pernas dele."
As pernas de Camila ficaram fracas.
Rogério continuou:
"Tem uma máquina do lado direito da cama e uma poltrona verde perto da janela."
"Por favor..."
"Caio disse que ele parece tranquilo."
Camila levou a mão à boca.
"Ele tem dezesseis anos."
"Eu sei."
"Ele está doente."
"Também sei."
"Ele não tem nada a ver com isso."
"Tem tudo a ver."
Camila sentiu as lágrimas descendo.
"Eu já te paguei quase cento e oitenta mil reais."
"E ainda deve."
"Eu peguei trezentos mil."
"Juros existem, Camila."
"Eu pago todo mês!"
"E hoje vai pagar cem mil."
"De onde eu vou tirar cem mil reais em uma hora?"
Rogério ficou em silêncio por dois segundos.
Quando respondeu, sua voz estava ainda mais baixa.
"Olhe para a porta na sua frente."
Camila virou lentamente a cabeça.
O escritório de Dante.
"Não."
"Você trabalha para um homem que gasta cem mil reais antes do café da manhã."
"Não."
"Peça."
"Você ficou louco."
"Roube."
Camila sentiu um arrepio.
"Eu não vou roubar ninguém."
"Então espero que o hospital tenha um bom gerador."
Ela apertou o celular contra o ouvido.
"O que você quer dizer?"
"Nada."
"Rogério."
"Acidentes acontecem em hospitais."
Camila começou a tremer.
"Não toque no meu irmão."
"Uma hora."
"Por favor."
"Cem mil reais."
"Eu não consigo."
"Então se despeça dele."
A ligação terminou.
Camila continuou com o telefone encostado ao ouvido.
Nenhum som.
Só o próprio coração.
Ela tentou ligar para Matheus.
Chamou.
Chamou.
Ninguém atendeu.
Ligou outra vez.
Nada.
Camila digitou o número do hospital, mas apagou antes de chamar.
E se Rogério estivesse observando?
E se Caio realmente estivesse lá?
Ela olhou para o relógio.
01:49.
Cinquenta e seis minutos.
Camila tentou respirar.
Não conseguiu.
O telefone quase caiu de sua mão.
Ela olhou novamente para a porta de Dante.
Cem mil reais.
Talvez aquilo não significasse nada para ele.
Para ela, significava uma vida inteira.
Camila deu um passo em direção à porta.
Parou.
Não.
Dante Montenegro não era um banco.
E ela não era ninguém para ele.
Era a mulher que limpava o corredor quando todos dormiam.
Talvez ele nem soubesse seu nome.
Camila recuou.
A visão ficou turva.
Ela pensou em Matheus aos oito anos, correndo atrás dela na rua.
Pensou nele aos doze, reclamando que ela queimara o arroz.
Pensou no dia em que o médico pronunciara a palavra que transformara tudo.
Leucemia.
Pensou na primeira internação.
Na primeira conta.
Na segunda.
Na terceira.
Na casa vendida.
Nos móveis vendidos.
Nas joias da mãe vendidas.
Até não restar nada.
Foi então que Rogério apareceu.
Trezentos mil reais.
Sem banco.
Sem análise.
Sem perguntas.
Camila descobriu tarde demais que homens como ele faziam perguntas somente depois.
Quando já era impossível escapar.
Ela escorregou pela parede.
Sentou no chão.
Cobriu a boca com as mãos machucadas para abafar o choro.
Uma das rachaduras abriu novamente.
Sangue manchou seu rosto.
Camila nem percebeu.
Do outro lado da porta, a conversa parou.
Ela também não percebeu isso.
Só percebeu quando a maçaneta girou.
A porta se abriu.
Camila ergueu os olhos.
Dante Montenegro estava parado diante dela.
Camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços.
Calça escura.
Nenhum paletó.
Nenhuma gravata.
Uma pistola repousava em sua mão direita, apontada para o chão como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Atrás dele, dois homens permaneceram dentro do escritório.
Dante olhou para Camila.
Depois para o balde.
Depois para o sangue em suas mãos.
"Camila?"
Ela arregalou os olhos.
Ele sabia seu nome.
"Desculpe, senhor Montenegro."
Camila tentou se levantar.
As pernas falharam.
Dante segurou seu braço antes que ela caísse.
Ela se afastou imediatamente.
"Eu estou bem."
Dante olhou para ela.
Não parecia acreditar.
"Você está chorando no chão às duas da manhã."
"Foi só..."
O celular vibrou.
Camila empalideceu.
Dante olhou para o aparelho.
Ela apertou o botão para recusar.
Ele vibrou novamente.
"Atenda."
"Não é nada."
"Atenda."
"Senhor Montenegro..."
Dante não elevou a voz.
"Camila."
Ela ficou imóvel.
"Atenda o telefone."
As mãos dela tremiam tanto que quase não conseguiu deslizar o dedo pela tela.
Atendeu.
"Alô?"
Rogério não perdeu tempo.
"Quarenta e oito minutos, Camila."
Ela fechou os olhos.
"Eu estou tentando."
"Não tente."
A voz dele atravessou o corredor silencioso.
"Consiga."
Camila baixou o volume, mas era tarde.
Dante estava perto demais.
Rogério continuou:
"Depois disso, seu irmão fica sozinho comigo."
Camila olhou para Dante.
O rosto dele não mudou.
Mas os olhos, sim.
"Rogério..."
"Quarenta e oito minutos."
"Não faça nada com ele."
"Então encontre meus cem mil."
A ligação terminou.
Camila baixou lentamente o telefone.
Dante continuava olhando para ela.
"Quem é seu irmão?"
Ela não respondeu.
"Quem é Rogério?"
Silêncio.
Dante colocou a pistola sobre uma mesa próxima.
Então estendeu a mão.
"Me dê o telefone."
Camila apertou o aparelho contra o peito.
"Não."
Um dos homens no escritório deu um passo à frente.
Dante ergueu dois dedos.
O homem parou.
Dante voltou a olhar para Camila.
"Quanto?"
Ela franziu a testa.
"Como?"
"Quanto dinheiro ele quer?"
Camila sentiu a garganta fechar.
"Senhor Montenegro..."
"Quanto?"
Ela tentou falar.
Nenhum som saiu.
Dante esperou.
Finalmente, Camila respondeu:
"Cem mil reais."
Pela primeira vez em oito meses, Dante Montenegro olhou para sua empregada como se ela não fosse invisível.
E perguntou:
"Para quando?"
Camila olhou para o relógio.
01:57.
"Antes das duas e quarenta e cinco."
Dante pegou o próprio celular.
"Bruno."
Um homem apareceu na porta.
"Chefe."
Dante não desviou os olhos de Camila.
"Descubra quem é Rogério."
Camila levantou-se de repente.
"Não!"
Dante a encarou.
"Se seus homens aparecerem perto do meu irmão, eles podem fazer alguma coisa com ele."
"Em qual hospital?"
Ela recuou.
"Eu não vou dizer."
Dante aproximou-se.
"Camila, alguém acabou de ameaçar seu irmão dentro da minha casa."
"Isso não é problema seu."
A resposta saiu antes que ela pudesse pensar.
O corredor ficou completamente silencioso.
Bruno olhou para Dante.
Camila percebeu o que tinha dito.
Mas Dante não se irritou.
Apenas inclinou ligeiramente a cabeça.
"Agora é."
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