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"Comeram Dez Pastéis, Não Pagaram e Derrubaram a Barraca" Capítulo 5 — A Barraca em Chamas

正文开头

O fogo subia acima das mangueiras quando o carro de Dante entrou na estrada de terra. A barraca de Rosa já não parecia um lugar onde alguém pudesse vender comida. Era uma armação negra, cercada por labaredas, fumaça e vizinhos carregando baldes.

Rosa abriu a porta antes que o veículo parasse.

"A casa", ela disse. "Ele falou da minha casa."

Dante segurou seu braço.

"Rafael já mandou homens para lá."

"Homens não sabem o que precisam salvar."

Ela se soltou e correu. Ao lado do terreno, Joel e outros caminhoneiros formavam uma corrente com baldes de água. Dona Cida, que vendia caldo de cana dois quilômetros adiante, tossia enquanto arrastava para longe um botijão fechado.

"Não entrem!", gritou um bombeiro voluntário. "O telhado pode cair."

Rosa não tentou entrar na barraca. Atravessou o quintal e seguiu para a casa simples de tijolos. A porta estava arrombada. Gavetas, fotografias e roupas cobriam o chão.

No quarto dos fundos, o assoalho havia sido arrancado.

"Ele procurou a chave", Rosa murmurou.

Caio, com o rosto inchado, apareceu escoltado por Rafael.

"Meu pai sabia que a senhora guardava alguma coisa aqui. Eu ouvi quando ele mandou Valmir cavar perto do berço."

Dante olhou para o rapaz como se medisse a distância entre arrependimento e armadilha.

"Se isso for outra mentira, você não terá tempo de pedir desculpas."

"Eu sei."

Rosa foi até o fundo do quintal. Ali havia uma pequena cruz de madeira, quase escondida sob um pé de manacá. Durante trinta e dois anos, ela acreditara que o filho estava enterrado naquele lugar. Depois descobrira que a cova era vazia, mas nunca tivera coragem de retirar a cruz.

Ela se ajoelhou e afastou a terra com as mãos.

"Mãe, saia daí", Dante pediu.

Foi a segunda vez que a chamou assim. A palavra atingiu Rosa com mais força do que a fumaça.

"Quando me disseram que meu bebê morreu, devolveram o berço", explicou. "Havia uma tábua mais pesada. Eu escondi nela a única coisa que encontrei no lençol da clínica."

Sob a terra, envolvida em plástico endurecido, estava uma pequena ripa do velho berço. Dante a partiu com a coronha da arma. De dentro caiu uma chave de latão marcada com o número 214 e uma etiqueta quase apagada: Rodoviária de Campinas.

Um estampido veio da estrada.

Todos se abaixaram.

O tiro acertou a parede da casa, centímetros acima da cabeça de Caio. Rafael empurrou Rosa para trás do carro e respondeu contra a mata. Uma motocicleta arrancou entre as árvores, levantando poeira.

"Não persiga", Dante ordenou. "Proteja minha mãe."

Rafael parou por um instante. Dante jamais havia usado aquelas palavras diante dos homens.

Caio tocou o reboco quebrado.

"Ele tentou me matar."

"Agora você entendeu que deixou de ser filho e virou prova", disse Camila, chegando com dois policiais civis de Campinas. "Se quer continuar vivo, vai depor formalmente."

Caio confirmou a extorsão, o veneno plantado e a ordem para destruir a barraca. Entregou o celular. Havia mensagens de Otávio, áudios de Valmir e fotografias de envelopes recolhidos entre vendedores.

正文1

Camila guardou o aparelho em um saco de evidências.

"Isso derruba o sargento. Ainda não prova o tráfico de bebês."

Rosa ergueu a chave.

"Talvez a prova esteja esperando há trinta e dois anos."

Enquanto os bombeiros apagavam os últimos focos, os comerciantes da estrada chegaram. Um trouxe madeira. Outro, um fogão usado. Uma mulher colocou sobre a mesa chamuscada um pote com dinheiro.

"Ele queimou uma barraca", disse Dona Cida. "Não queimou a estrada inteira."

Mais de vinte vendedores concordaram em prestar depoimento. Pela primeira vez, o medo de Otávio Braga encontrou algo maior: gente cansada de ter medo sozinha.

Joel instalou o celular sobre o capô e começou a registrar cada depoimento. Um vendedor de milho mostrou o recibo de uma cobrança inexistente. Uma costureira trouxe fotografias do filho espancado depois de recusar a taxa. Dona Cida abriu um caderno onde anotara, durante cinco anos, datas, placas e valores levados pelos homens dos Braga.

Camila fotografou todas as páginas.

"Sozinhos, eram histórias que a polícia fingia não ouvir", disse. "Juntos, formam um padrão."

Valmir apareceu numa viatura quando o sol já se escondia. Alegou que viera isolar a área, mas um dos policiais civis bloqueou sua passagem.

"O senhor está afastado desta ocorrência."

O sargento olhou para Caio e depois para a chave na mão de Rosa.

"Essa gente não sabe com quem está mexendo."

Rosa caminhou até ele.

"Sabemos, sim. Durante anos, chamamos de medo. Hoje sabemos o nome: crime."

Valmir recuou sob as câmeras dos caminhoneiros. Pela primeira vez, não conseguiu transformar o uniforme em silêncio.

Dante ofereceu levar Rosa a um hotel seguro.

"Eu não vou fugir da minha casa."

"Ele mandou atirar aqui."

"E você acha que um quarto caro apaga isso?"

"Acho que mantém você viva."

Rosa sustentou o olhar dele.

"Então fique. Mas fique como filho, não como dono."

Dante dispensou metade dos homens e permaneceu. Sentou-se na varanda quebrada, ainda de terno, enquanto Rosa preparava café num fogareiro emprestado. Não falaram sobre os anos roubados. A presença dele já era uma conversa difícil demais.

À meia-noite, Camila conseguiu autorização para abrir o armário 214. A rodoviária havia sido reformada, mas os antigos guarda-volumes tinham sido transferidos para um depósito municipal.

Eles chegaram antes do amanhecer. Um funcionário conferiu a ordem judicial e conduziu o grupo por corredores com malas esquecidas, placas antigas e cheiro de papel úmido.

A chave girou.

Dentro do armário havia uma caixa de metal. Rosa reconheceu no tampo o símbolo da Clínica Santa Augusta. Dante forçou a fechadura. Encontraram uma fita cassete, três fotografias, um recibo bancário e um cartão escrito por Iolanda Pereira.

Rosa leu em voz alta.

"Se eu desaparecer, procurem o livro azul. Álvaro vendeu crianças para famílias ricas. Augusto Montenegro levou o menino de Rosa, mas voltou dois dias depois querendo desfazer tudo. Otávio viu."

Dante ficou imóvel.

"Augusto tentou me devolver?"

"Ou tentou esconder o que fez", respondeu Camila. "Ainda não sabemos."

正文2

Em uma fotografia, Iolanda aparecia diante de uma capela abandonada, ao lado de uma placa indicando a Serra do Luar. No verso havia uma data de apenas seis meses antes.

Caio empalideceu.

"Meu pai usa um galpão nessa serra. Quando precisa fazer alguém desaparecer, manda para lá."

Rafael examinou o recibo. O pagamento saíra de uma empresa de fachada dos Braga na semana anterior. Beneficiária: Iolanda Pereira.

"Ela está viva", Rosa disse.

O telefone de Caio vibrou dentro do saco de evidências. A tela mostrou uma chamada de vídeo. Camila autorizou que ele atendesse enquanto outro aparelho gravava.

Otávio apareceu num ambiente escuro.

"Filho, você sempre foi uma decepção."

Caio respirou com dificuldade.

"Acabou, pai."

"Ainda nem começou."

A câmera virou. Iolanda estava amarrada a uma cadeira, com sangue no canto da boca. Atrás dela, caixas de prontuários cobriam uma parede.

Rosa avançou para a tela.

"Iolanda!"

A enfermeira ergueu a cabeça.

"Rosa, escute", disse, antes que uma mão puxasse seus cabelos. "Dante não foi o único bebê. O livro azul tem todos os nomes."

Otávio voltou a aparecer.

"Tragam a caixa e a chave até o meio-dia. Caio também. Caso contrário, ela morre com o arquivo inteiro."

Camila tentou manter a ligação ativa enquanto um técnico rastreava o sinal. Otávio percebeu. Aproximou um fósforo do rosto de Iolanda e sorriu.

"Não desperdicem tempo procurando um endereço. O endereço já está na fotografia. A pergunta é se Dante Montenegro salvará uma testemunha ou protegerá o próprio nome."

Dante não respondeu. Guardou a caixa sob o braço e fez um gesto para Rafael preparar os veículos.

Rosa viu a resposta antes que ele a dissesse. O homem que chegara à estrada como ameaça agora partia para salvar uma desconhecida capaz de destruí-lo.

Ao fundo, por uma janela quebrada, Dante viu uma cruz branca pintada numa pedra. Era a mesma cruz da fotografia da capela.

Então uma chama surgiu atrás da cadeira de Iolanda.

"Vocês têm três horas", Otávio disse.

A transmissão terminou enquanto a enfermeira gritava que o galpão já estava pegando fogo.

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