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"Comeram Dez Pastéis, Não Pagaram e Derrubaram a Barraca" Capítulo 2 — O Homem da Motocicleta Preta

正文开头

Rosa deu um passo para trás.

"Meu filho morreu."

Dante manteve as duas metades da medalha abertas na palma. Os homens de segurança olharam para o chão. Caio e os amigos já não riam.

"Foi o que disseram a mim sobre você", respondeu Dante.

Rosa sentiu o joelho ceder. Ele a segurou antes da queda, mas ela afastou a mão.

"Não me toca."

Dante obedeceu.

O gesto surpreendeu Rafael Moura, chefe de sua segurança. Havia quinze anos ninguém falava assim com Dante Montenegro e continuava decidindo o que aconteceria em seguida.

Rosa apontou para os pastéis espalhados.

"Eles destruíram meu trabalho. Não transforme isso em teatro sobre a sua vida."

Dante guardou a medalha.

"Rafael, registre tudo. Não encoste em nenhum deles."

Caio recuperou a coragem ao ouvir a ordem.

"Isso mesmo. Se me tocar, meu pai fecha suas empresas nesta região."

Dante olhou para ele.

"Qual é o nome do seu pai?"

"Otávio Braga."

Pela primeira vez, Rafael reagiu. Otávio aparecia numa investigação interna sobre cargas desviadas na Fernão Dias.

"Conhece?", perguntou Dante.

"Conheço o sobrenome."

Uma viatura chegou oito minutos depois. O sargento Valmir desceu ajustando o cinto, cumprimentou Caio pelo apelido e só então observou a destruição.

"Dona Rosa, outra confusão?"

"Outra?", repetiu Dante.

Valmir reconheceu-o tarde demais.

"Senhor Montenegro, não sabia que estava na região."

"Agora sabe. Faça seu trabalho."

O sargento pediu documentos aos quatro rapazes, mas evitou algemá-los. Disse que tudo poderia ser resolvido com termo circunstanciado por dano simples.

Rosa mostrou o pulso marcado.

"Ele me segurou. Ameaçou usar a polícia do pai."

"A senhora está nervosa."

Dante pegou o celular de Rafael e mostrou uma gravação salva da transmissão.

"Ela está lúcida. O senhor é que parece confuso."

Valmir tentou tomar o aparelho. Rafael recuou.

"Essa filmagem é ilegal."

"Foi feita pelo amigo do agressor e publicada para centenas de pessoas", disse uma mulher que acabara de descer do segundo carro.

Era a advogada Camila Nogueira. Explicou que havia dano, ameaça, constrangimento e possível lesão corporal. A omissão do policial também seria registrada na Corregedoria.

Enquanto esperavam reforço, Valmir tentou levar Rosa para depor dentro da viatura, sem testemunhas. Camila recusou.

"O depoimento será na delegacia, com advogada presente."

"A senhora não é advogada dela."

"Sou a partir de agora, se dona Rosa aceitar."

Rosa não confiava em quem chegava num carro preto, mas reconhecia uma porta aberta.

"Aceito até esta ocorrência terminar. Depois conversamos."

Um caminhoneiro chamado Joel entregou a Rafael a gravação de sua câmera veicular. O vídeo mostrava Nando examinando o botijão antes de virar a barraca.

"Eles queriam derrubar a panela", disse Joel. "Só pararam porque ela fechou o registro."

Três comerciantes também confessaram pagar proteção a cobradores de Otávio. Nenhum queria aparecer na televisão. Rosa foi a primeira a permitir que seu nome constasse.

"Se todos se esconderem, eles voltam amanhã."

E voltariam ainda piores.

Joel contou que Otávio cobrava também dos vendedores de caldo de cana, milho e queijo artesanal. Quem recusava perdia a licença após uma denúncia anônima. Camila gravou os relatos separadamente e prometeu preservar os nomes até obter proteção judicial.

正文1

Rosa reconheceu uma senhora que fechara a barraca meses antes.

"Disseram que ela desistiu por doença."

"Quebraram o braço do marido", respondeu Joel. "Ela foi embora na mesma semana."

Dante olhou para os pequenos comércios. A queda da barraca era apenas a parte visível de um sistema inteiro.

Valmir finalmente chamou reforço.

Caio telefonou para o pai.

"Ele quer falar com você", disse a Dante.

"Seu pai pode falar com meu advogado."

"Ele disse que conhece a mulher."

Rosa ficou imóvel.

Dante pegou o telefone.

A voz de Otávio Braga era calma.

"Dante Montenegro. Curioso encontrá-lo justamente na barraca de Rosa Nascimento."

"Curioso é seu filho destruí-la diante de uma câmera."

"Meninos fazem bobagens. Posso pagar dez barracas."

"Ela não quer seu dinheiro."

"Pergunte se também não quer respostas sobre o filho que enterrou."

A ligação terminou.

Rosa ouviu cada palavra.

"Como ele sabe?"

Caio sorriu, mesmo cercado por policiais.

"Meu pai sabe tudo que acontece por aqui."

Dante segurou a vontade de quebrar aquele sorriso. Rosa percebeu.

"Se fizer alguma coisa, eles vão transformar você no criminoso e ele na vítima."

"Eu sou o criminoso", disse Dante.

"Então aprenda a não ser por cinco minutos."

Ele virou-se para Camila.

"Use a lei."

Caio e os amigos foram conduzidos à delegacia, mas liberados após depoimento. A live já se espalhava por grupos de Atibaia. Pessoas começaram a chegar à barraca com celulares, algumas oferecendo ajuda, outras apenas querendo filmar a mulher que poderia ser mãe de Dante Montenegro.

Rosa cobriu o rosto.

"Eu não autorizei ninguém a contar isso."

"Ainda não sabemos se é verdade", disse Dante.

Ela o encarou.

"Você acredita que é."

"Procurei você durante oito anos."

Dante contou que fora criado por Augusto Montenegro, dono de uma pequena transportadora que crescera por meios legais e ilegais. Aos vinte e quatro anos, encontrara entre os documentos do pai adotivo uma pulseira de maternidade e metade da medalha.

Na pulseira estava escrito: BEBÊ DE ROSA NASCIMENTO.

Dante mostrou uma fotografia da pulseira. O plástico amarelecido tinha o número 214. Rosa retirou do bolso uma pequena chave presa a um barbante: era do armário 214 da clínica.

"Voltei uma semana depois do parto", contou. "Álvaro Braga disse que eu tinha enlouquecido e mandou dois homens me retirar."

Otávio, então com vinte anos, estava na recepção carregando uma pasta azul. Perguntara se a certidão já fora assinada.

"Ele me viu. Por isso sabe quem sou."

Dante compreendeu que aquele encontro não criara o perigo. Apenas revelara um perigo que observava Rosa desde 1994.

Augusto jurara que a mãe biológica abandonara o filho por dinheiro. Depois, antes de morrer, admitira que recebera Dante de uma clínica fechada por irregularidades.

"Qual clínica?", perguntou Rosa.

"Santa Augusta."

O mesmo lugar onde ela dera à luz.

Rosa abriu a caixa metálica do carrinho tombado. Sob notas molhadas e recibos, guardava uma cópia amarelada da certidão de óbito do bebê.

O médico responsável era Álvaro Braga, pai de Otávio.

Camila fotografou o documento.

"Precisamos de exame de DNA."

Rosa fechou a caixa.

"Não preciso de exame para saber que tive um filho. Preciso saber quem o roubou."

Dante ofereceu levá-la a um laboratório de São Paulo. Ela recusou sair antes de levantar a barraca.

Ele tirou a jaqueta, arregaçou as mangas e ergueu a estrutura de metal com Rafael. Os seguranças recolheram mesas. Moradores trouxeram caixas e panos.

Rosa observou o homem mais temido da capital limpar frango do acostamento.

Não sentiu orgulho. Sentiu raiva pelos trinta e dois anos que não podiam ser recolhidos.

Ao anoitecer, encontraram sob o carrinho uma pequena placa de madeira pregada no assoalho. Rosa nunca a vira. Dante removeu os parafusos.

Dentro do compartimento havia um envelope recente.

Na frente, alguém escrevera:

PARA ROSA — SE DANTE MONTENEGRO ENCONTRAR VOCÊ, FUJA DELE.

No verso havia o carimbo de uma gráfica de Piracaia e uma impressão manchada de farinha. Rafael reviu as imagens feitas após a queda da barraca. Leleco se afastara do grupo e se abaixara junto ao carrinho.

O rapaz que menos rira era também o único que parecera assustado desde o começo.

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