"Comeram Dez Pastéis, Não Pagaram e Derrubaram a Barraca" Capítulo 1 — Dez Pastéis e Uma Dívida
O décimo pastel ainda estava na mão de Caio Braga quando ele decidiu que não pagaria.
"A conta deu cento e vinte reais", disse Rosa Nascimento.
O rapaz de jaqueta vermelha olhou para os três amigos espalhados pelas mesas de plástico e riu. Duas motocicletas estavam estacionadas junto ao acostamento da antiga estrada entre Atibaia e Piracaia.
"Cento e vinte por massa e frango? Está roubando a gente, tia."
Rosa tinha cinquenta anos, braços marcados por queimaduras de óleo e uma barraca que começava a funcionar antes do amanhecer. Não precisava consultar o caderno.
"Foram dez pastéis de frango, quatro refrigerantes e duas garrafas de água. O preço está escrito na placa."
Juninho filmava com o celular. Nando batia uma chave contra a mesa. O quarto rapaz, Leleco, escondia o rosto sob o boné.
"Faz um desconto", disse Caio.
"Posso tirar as águas. Ficam cento e quatorze."
"Eu estava pensando em cem por cento."
Os amigos gargalharam.
Rosa olhou para a rodovia. Um caminhão passou sem reduzir. Mais adiante, perto de uma motocicleta preta, um homem alto falava ao telefone. Vestia jaqueta escura apesar do calor e mantinha o capacete na mão.
Ela não pediu socorro. Aprendera que chamar estranhos podia transformar uma dívida em tragédia.
"Vocês comeram. Agora pagam."
Caio levantou-se. Era filho de Otávio Braga, dono da empresa de ônibus, de três postos e de metade dos contratos municipais. Usava o sobrenome como outros homens usavam armas.
"Meu pai deixa você vender nesta estrada. Isso já é pagamento."
"Seu pai não é dono do acostamento."
Durante oito meses, Rosa pagara quatrocentos reais por semana a um cobrador que dizia representar uma associação de comerciantes inexistente. O recibo não tinha CNPJ, e o dinheiro sempre terminava no porta-luvas de um carro da Braga Transportes.
Na segunda-feira anterior, ela recusara o pagamento. Precisava comprar remédio para dona Dalva e trocar a mangueira rachada do fogareiro.
"Seu pai já recebe demais de mim", completou.
Caio inclinou a cabeça.
"Então é por isso. Ele disse que a senhora estava esquecendo como as coisas funcionam."
Juninho manteve a câmera apontada, mas parou de rir. Aquilo não era uma brincadeira improvisada.
"Você veio cobrar?", perguntou Rosa.
"Viemos almoçar. Se a comida fosse boa, talvez esquecêssemos a dívida."
Rosa olhou as embalagens vazias. Eles haviam comido tudo e elogiado o recheio antes de ligar a transmissão. A reclamação era apenas a desculpa escolhida para humilhá-la.
O sorriso dele desapareceu.
Rosa soube que passara do limite invisível imposto aos pobres: o direito de não concordar.
Caio pegou outro pastel da travessa.
"Está frio."
"Saiu do óleo há dois minutos."
Ele mordeu, mastigou devagar e cuspiu o recheio no chão.
"Agora está no lugar certo."
Juninho aproximou a câmera do rosto de Rosa.
"Pede desculpa ao cliente."
"Desliga isso."
"Pede."
Rosa tentou afastar o celular. Caio segurou seu pulso.
"Não toca em mim."
O homem junto à motocicleta interrompeu a ligação. Ainda estava a quase cinquenta metros, mas começou a caminhar.
Caio viu e soltou Rosa.
"Arruma a mesa para o próximo otário."
Ele chutou uma das cadeiras. Nando virou a primeira mesa. Copos, guardanapos e um pote de vinagrete caíram na terra.
Rosa correu para o fogareiro.
"O óleo está quente!"
Caio agarrou a lateral do carrinho.
"Então é melhor sair de perto."
Os quatro empurraram juntos.
A barraca tombou.
Rosa conseguiu fechar o registro do botijão antes de cair sobre o joelho. A panela deslizou, espalhando óleo no cascalho. Uma caixa com quarenta pastéis preparados durante a madrugada se abriu. Massa, frango e farinha cobriram o chão.
O celular de Juninho continuava transmitindo.
"Olha a promoção!", gritou Nando. "Pastel com poeira!"
Caio pegou dois pastéis caídos e os esmagou sob a bota.
Rosa não chorou quando perdeu a cadeira, a placa ou o vidro dos molhos. Chorou quando viu a caixa vazia. Cada pastel representava farinha comprada a prazo, frango desfiado à mão e seis horas de trabalho.
"Vocês não sabem o que fizeram", ela disse.
Uma menina que esperava o ônibus escolar começou a recolher os guardanapos. Nando a expulsou com um palavrão. Rosa se colocou entre os dois.
"Com criança você não fala assim."
Caio empurrou outra mesa. A borda atingiu o quadril dela.
"Ainda está dando ordens?"
Rosa apoiou-se no carrinho. Aos dezoito anos, também mandaram que ficasse quieta quando perguntou pelo filho desaparecido. Ela se calara e carregara o arrependimento por três décadas.
"Estou dizendo diante da câmera", respondeu. "Vocês comeram, recusaram pagar, me agrediram e destruíram meu trabalho porque parei de entregar dinheiro ao seu pai."
Juninho baixou o telefone.
"Isso não estava combinado."
Caio tomou o aparelho e voltou a filmar.
"Agora está."
"Vai chamar quem?", Caio perguntou. "Seu marido morto?"
Rosa levantou-se com dificuldade.
"Não. A polícia."
Caio mostrou o próprio celular. Na tela havia uma conversa com o sargento do posto local.
"Ele almoça na casa do meu pai todo domingo."
O homem da motocicleta chegou à borda da lona caída.
"Solte a mesa."
Sua voz não era alta. Mesmo assim, os quatro pararam.
Ele tinha cerca de trinta e dois anos, cabelos negros, barba curta e olhos que não combinavam com pedidos. Sob a jaqueta, aparecia a gola de uma camisa preta e uma corrente de ouro.
Caio avaliou a motocicleta cara.
"A estrada é pública. Continua seu caminho."
"A dívida também é pública. Seu amigo transmitiu tudo."
Juninho encerrou a live.
"Foi brincadeira."
"Então levante a barraca rindo."
Caio empurrou o peito do estranho. Não conseguiu movê-lo.
Dois carros pretos pararam atrás da motocicleta. Quatro homens desceram, mas o estranho ergueu um dedo. Ninguém avançou.
Rosa percebeu que ele não era um viajante comum.
"Não quero confusão", disse. "Só quero que eles vão embora."
O homem olhou para os pastéis na terra.
"Quanto perdeu?"
"Não está à venda a minha humilhação."
Ele a encarou pela primeira vez.
Rosa usava no pescoço uma corrente simples com metade de uma medalha de Nossa Senhora Aparecida. A outra parte fora colocada na manta do filho que lhe disseram ter morrido trinta e dois anos antes.
O estranho perdeu o controle da expressão.
Levou a mão ao bolso interno da jaqueta e retirou uma metade de medalha marcada por uma pequena rachadura. As bordas se encaixavam mesmo à distância.
Rosa deixou cair o pano que segurava.
"Onde conseguiu isso?"
Ele não respondeu. Aproximou-se devagar, como se um movimento brusco pudesse fazê-la desaparecer.
Caio tentou pegar a chave da motocicleta. Um dos homens dos carros segurou seu braço.
"Sabe com quem está mexendo?", Caio gritou.
O desconhecido continuou olhando para Rosa.
"Eu sei exatamente", respondeu.
Um dos seguranças chamou-o pelo nome.
"Senhor Montenegro, precisamos sair."
Caio empalideceu.
Dante Montenegro era um empresário citado em jornais e um nome sussurrado nos corredores da polícia. Controlava transportadoras, casas noturnas e homens que não faziam perguntas duas vezes.
Rosa, porém, não conhecia o chefe da máfia.
Conhecia apenas os olhos do bebê que segurara por onze minutos antes de uma enfermeira levá-lo.
Dante uniu as duas metades da medalha.
O encaixe foi perfeito.
Sua voz saiu mais fraca do que qualquer pessoa ali imaginava possível.
"Mãe?"
O silêncio foi interrompido pelo motor de um ônibus. Passageiros reconheceram Dante e começaram a filmar. Caio percebeu que já não controlava a história.
Rosa, porém, viu apenas uma mancha escura na borda da medalha. Era o vestígio de iodo deixado pela enfermeira no dia do parto. Nenhuma cópia teria aquela marca.
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