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"A Morta Que Me Pediu Ajuda" Capítulo 6 — O Homem Que Trouxe Flores

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Capítulo 6 — O Homem Que Trouxe Flores

“Vocês conversaram sobre a mala perto de Marcelo?” Rafael perguntou.

Sofia aceitou um copo de água, mas não bebeu. Estavam em uma sala reservada da delegacia. Elisa permanecia ao lado dela; não havia prometido guardar segredos que pudessem comprometer o caso.

“Na cozinha da casa de Helena”, Sofia respondeu. “Achei que ele tivesse saído. Helena disse que esconderia uma cópia das transferências no vestido. Eu levaria a mala para um lugar onde alguém conferisse os objetos antes de entregá-los à família.”

“Por que o necrotério?” Elisa perguntou.

“Porque encontrei seu nome no turno da noite. Liguei na semana passada fingindo perguntar por um velório. Você recusou informar os pertences de um morto sem conferir a ficha.”

Elisa lembrou da ligação. Uma mulher insistira em saber se uma aliança havia sido devolvida à família. Ela respondera que não poderia procurar um objeto sem o número do atendimento.

“Então você me procurou na calçada.”

“Precisava que você se lembrasse de mim viva. Se Marcelo dissesse que Helena tinha saído usando aquele casaco, eu queria que alguém soubesse que era eu.”

O plano não salvara Helena. Sofia apertou o copo até a borda deformar.

Ela contou que, às sete da noite, vestira o casaco escuro de Helena e saíra pelos fundos da empresa levando o telefone da amiga. Helena tomara um caminho diferente para encontrar alguém do conselho. Antes das oito, uma mensagem de Helena anunciara que mudaria o ponto de encontro. Depois disso, silêncio.

“Onde está o telefone dela?” Rafael perguntou.

“Desligou enquanto eu corria. Deixei num lugar seguro. Posso entregar.”

Rafael anotou o local, sem mandar Sofia voltar sozinha. Pela manhã, a equipe recolheria o aparelho. Elisa explicou que a ficha médica listava um telefone que nunca chegara ao necrotério. Eram, portanto, dois aparelhos ou uma declaração falsa. Sofia confirmou que Helena usava um telefone particular e um da empresa.

“O que está faltando é o da empresa”, ela disse. “Marcelo conhecia a senha.”

Um policial entrou com uma atualização: a administração da Valença Logística recebera ordem interna para eliminar arquivos temporários naquela noite, sob o argumento de manutenção. Rafael solicitara a preservação dos dados e enviara a equipe responsável ao prédio. Marcelo ainda não fora preso. Tinha advogado, circulava livremente e sabia que o vestido estava sob custódia policial.

Sofia entregou a Rafael o recibo da compra de duas fitas brancas. Helena escolhera a cor para combinar com o vestido; depois, as duas decidiram usá-la como sinal. Uma terceira pessoa podia ter visto a compra, mas somente quem conhecia a conversa saberia interpretar os nós. Elisa pediu que guardassem o recibo junto do depoimento, sem transformá-lo numa prova maior do que era.

“E o endereço no comprovante da lavanderia?” ela perguntou.

Rafael confirmou que era uma sala alugada pela empresa de Helena. O porteiro reconhecera Marcelo em uma fotografia e dissera que ele subira naquela noite com um pacote grande. O registro da câmera ainda estava sendo recuperado. Elisa sentiu que a cena se aproximava da verdade por vários caminhos independentes; faltava ligar Marcelo ao momento em que o vestido mudara de mãos.

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Elisa passou o dedo pelos dois nós da fita de Sofia, agora guardada em um envelope transparente. Na gravação, a mulher de casaco escuro aproximara-se da van durante a volta no quarteirão. O motorista dissera que recebera a mala de um homem com um recibo. Talvez Sofia a tivesse deixado perto do veículo e alguém a tivesse entregue depois. Talvez o motorista escondesse outra conversa.

“A mala não chegou aqui por acaso”, Elisa disse. “Marcelo tentou buscá-la antes que soubéssemos do cartão. Se ele voltar, vai procurar o que acha que ainda falta.”

Rafael olhou para ela. “Não vou usar você como isca.”

“Ele já está usando meu nome, meu turno e meu crachá. Quero que pare de escolher sozinho onde a conversa acontece.”

Elisa propôs uma ação limitada: voltaria à recepção, acompanhada por Davi, para buscar seus objetos pessoais. Marta já sabia que a polícia examinava a adulteração da ficha. Se Marcelo aparecesse, ninguém lhe entregaria nada nem abriria qualquer área sem autorização. Rafael posicionaria policiais dentro do prédio, fora da vista do balcão.

Às oito e cinquenta, Marta telefonou. Marcelo havia pedido para falar com Elisa sobre “um engano com os pertences da noiva”. Trazia uma procuração da família e um buquê de rosas brancas.

“Diga que chego em dez minutos”, Elisa respondeu.

Sofia segurou seu braço. “Aquele buquê estava com ele quando saiu da casa de Helena. Disse que eram para a decoração do casamento.”

Rafael ouviu. Se as rosas entregues com o corpo vieram do mesmo lote, poderiam ajudar a reconstituir quem tivera acesso à van. Ainda precisavam de registro da floricultura e de comparação; a lembrança de Sofia não bastava.

Quando Elisa entrou na funerária, Marcelo estava junto ao balcão. Era mais alto do que na fotografia. O rosto mostrava noites sem dormir, mas a voz permaneceu controlada.

“Sinto muito por toda esta confusão”, ele disse. “Helena gostava das pessoas que cuidavam bem dos detalhes.”

“Eu não a conheci viva.”

“Mesmo assim, cuidou do vestido dela. Vim buscá-lo para a família.”

“O vestido está com a polícia.”

Marcelo passou o polegar pela fita das flores. “Eu sei. Disseram que encontraram uma coisa dentro dele.”

Elisa não confirmou. Ele prosseguiu:

“Sofia sempre teve ideias dramáticas. Se foi ela quem colocou algo ali, vocês deveriam perguntar por quê.”

“O senhor disse ao investigador que não conhecia Sofia.”

O polegar parou. Marcelo olhou para a porta interna, depois para Davi.

“Eu disse que não sabia onde ela estava. Foi um mal-entendido.”

Elisa pediu que esperasse enquanto verificava o registro de pertences. O armário do corredor, aquele aberto com sua credencial copiada, tinha sido esvaziado pela polícia; restava uma caixa lacrada com objetos sem relação com o vestido. Ela não pretendia tocá-la. Rafael acompanhava a conversa pela sala ao lado, com autorização de Marta para permanecer ali.

“Por aqui”, Elisa disse.

Marcelo entrou no corredor. Parou diante da porta do depósito antes de ela indicar qualquer direção.

“A mala não está mais aí”, ele disse.

“Eu não mencionei mala.”

“Foi trazida com Helena. Eu vi no relatório.”

“No relatório entregue à família não há registro de mala. Esse foi exatamente o problema.”

Elisa abriu a pasta que trouxera consigo. Dentro havia uma cópia da primeira ficha, sem a declaração acrescentada depois, e a foto da mala feita por Davi antes da chegada da polícia. Ao lado, o comprovante de entrega do vestido mostrava o endereço comercial e um campo reservado à senha de retirada, ainda oculto na versão enviada à família.

“Quero perguntar sobre este endereço”, ela disse. “Não sobre a morte de Helena.”

Marcelo recuou um passo. “Pergunte ao motorista.”

“Ele não retirou o vestido da lavanderia.”

Elisa virou o comprovante e mostrou o campo da senha. A polícia obtivera a sequência completa diretamente da loja naquela tarde. Rafael ainda não a revelara a Marcelo nem a seu advogado.

“Quem foi buscar o vestido às oito e quarenta e nove?”

Marcelo encarou o papel. “Quem usou a senha 1708 para retirá-lo também devia saber onde Sofia escondeu o cartão.”

Atrás da porta aberta, Rafael surgiu com o telefone de gravação em mãos.

Elisa manteve os olhos em Marcelo.

“Como o senhor sabe que a senha era 1708?”

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