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"A Morta Que Me Pediu Ajuda" Capítulo 5 — A Mulher do Casaco Escuro

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Capítulo 5 — A Mulher do Casaco Escuro

Elisa colocou seu crachá verdadeiro sobre a mesa de Rafael. O plástico tinha um arranhão diagonal perto da fotografia.

“Davi viu este comigo durante o depoimento. Posso mostrar o registro das mensagens que mandei naquele horário.”

Rafael fotografou o cartão e pediu a análise do equipamento de acesso. Não concluiu que existia uma cópia: alguém poderia ter usado uma credencial obtida pelo sistema. Elisa ouviu a ressalva sem protestar. Queria fatos que resistissem a uma contestação, não uma certeza conveniente.

O guarda-volumes fechava às oito da noite. Até lá, restavam quatro horas. A chave número 47 fora recolhida pela polícia com o envelope, e Elisa insistiu em acompanhar Rafael quando fossem abrir o compartimento.

“Por que acha que Sofia escolheu você?” ele perguntou no caminho.

“Ela sabia meu nome e meu horário de café. Deve ter procurado alguém que conferisse os pertences antes de liberar a mala.”

“Ou queria uma testemunha de que estava viva às oito.”

“As duas coisas podem ser verdade.”

O guarda-volumes ficava na entrada de uma galeria antiga do centro. O responsável reconheceu o disco amarelo. Explicou que uma mulher reservara o armário na véspera e pagara por dois dias. Não guardava documento dos clientes que faziam reservas curtas, mas a câmera do balcão ainda tinha as imagens.

Rafael registrou a abertura. Dentro havia um casaco claro dobrado, um carregador portátil e um telefone antigo desligado. Em um envelope de papel pardo, duas fotografias mostravam Helena e Sofia ainda adolescentes, diante de uma quadra escolar. Atrás de uma delas, Helena escrevera: “Se eu me perder, você sabe onde me encontrar.”

Elisa reconheceu a marca junto à sobrancelha de Helena. Sofia, à esquerda, tinha o mesmo corte de cabelo atual e olhos parecidos, mas um queixo ligeiramente mais estreito. Sob a luz forte da galeria, elas não seriam confundidas. Na chuva, sob o chapéu e o casaco de Helena, sim.

O telefone antigo continha uma gravação curta. Rafael esperou que a cópia fosse feita antes de reproduzi-la.

Na tela, Sofia aparecia sozinha, sem chapéu. “Se este aparelho for encontrado, meu nome é Sofia Azevedo. Helena me pediu ajuda depois de descobrir que Marcelo preparava documentos para culpá-la pelos desvios. Ela vai levar as provas a alguém do conselho. Eu vou vestir o casaco dela para que pensem que saiu comigo.”

Sofia respirou fundo antes de continuar.

“Não estamos brincando de desaparecer. Helena encontrou uma reserva para transportar um corpo feita com antecedência. Ainda não sei se a reserva era para ela.”

A gravação terminava com Sofia olhando para fora do enquadramento.

Elisa pediu para rever os segundos finais. Um som de duas batidas, uma pausa e mais uma batida vinha da porta. Sofia reagira antes de desligar a câmera. No verso da fotografia das adolescentes havia três pequenos círculos desenhados à caneta. Um sinal entre amigas, talvez. Elisa não supôs mais do que isso.

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O homem do balcão mostrou a filmagem da reserva. Sofia chegara sozinha e colocara o carregador no armário. Helena não aparecia. A data eliminava a hipótese de que alguém tivesse preparado aquele conteúdo depois da morte.

De volta à delegacia, Rafael confirmou que a credencial usada no armário da funerária não tinha sido emitida em nome de Elisa. O sistema aceitara uma cópia eletrônica do identificador de seu crachá. Ainda faltava descobrir quem a produzira. Marta informou que o técnico responsável pela manutenção do controle de acesso prestava serviços também para a Valença Logística.

“É uma ligação”, Rafael disse. “Não é a identidade do homem na câmera.”

Elisa assentiu. O fio ligava os prédios, mas alguém ainda precisava mostrar quem o puxara.

Às seis e vinte, uma mensagem chegou ao telefone antigo de Sofia. Não era a mesma linha das ameaças recebidas por Elisa.

ENCONTRE-ME ONDE ELA SEMPRE DEIXAVA AS CHAVES. VENHA SEM A POLÍCIA.

Rafael pediu que Elisa não respondesse. Ela leu a frase outra vez. As fotos da escola não diziam onde Helena deixava chaves. O recado podia ser de Sofia, mas também podia ser uma armadilha enviada por quem conhecera sua amizade.

“Temos uma maneira de testar”, Elisa disse.

Ela enviou apenas: QUANTAS BATIDAS?

A resposta demorou três minutos.

DUAS, PAUSA, UMA. NÃO CONFIO NA LINHA. VENHA À FARMÁCIA DA RUA DOS ESTUDANTES ÀS SETE. SOZINHA NA PORTA.

Rafael preparou a aproximação sem colocar Elisa em um carro descaracterizado estacionado diante da farmácia. Ela chegou a pé, pela calçada oposta. Uma mulher de cabelo preso examinava caixas de curativos na vitrine. Sem chapéu, parecia menos com Helena. A marca junto à sobrancelha, afinal, pertencia apenas à morta.

Sofia bateu duas vezes no vidro com a unha. Esperou. Bateu uma terceira.

“Você encontrou o cartão?” perguntou quando Elisa se aproximou.

“Encontramos. Helena está morta.”

Sofia fechou os olhos por um instante. Quando voltou a abri-los, a voz saiu rouca.

“Eu a deixei viva. Ela disse que ia encontrar uma pessoa da empresa e depois me ligar.”

“Quem?”

“Ela não contou. Tinha medo de que eu tentasse ir junto.”

Elisa viu Rafael aproximar-se pelo reflexo da vitrine. Sofia recuou, mas Elisa segurou apenas a própria bolsa, deixando-lhe espaço para escolher.

“Você pediu minha ajuda”, disse. “Eu pedi a dele. Agora estamos tentando descobrir quem matou Helena.”

Sofia olhou da polícia para Elisa e, finalmente, concordou em acompanhá-los. Antes de entrar no carro, tirou do bolso uma fita branca dobrada, idêntica à da alça da mala.

“Amarrei dois nós para avisar que o cartão estava dentro”, disse. “Um nó significaria que eu não tinha conseguido.”

“Quem sabia desse código?”

“Helena. E Marcelo, se ele ouviu nossa conversa naquela tarde.”

Rafael pediu que Sofia descrevesse a fita original. Ela apontou um pequeno defeito no tecido, perto da ponta, e a equipe comparou a descrição com as imagens registradas antes da abertura da mala. O defeito estava lá. Isso sustentava que ela manuseara o objeto, embora não provasse tudo o que dizia sobre o plano.

Elisa perguntou por que Sofia não se apresentara à polícia imediatamente após a notícia da morte. Sofia contou que recebera uma foto da porta da casa de sua mãe acompanhada de uma ameaça. Dormira em um quarto alugado sob outro nome e só se arriscara a escrever quando viu, nas notícias, que o vestido não tinha sido entregue à família.

“A primeira mensagem no meu celular foi sua?” Elisa perguntou.

Sofia balançou a cabeça. “Eu não tinha seu número. Sabia apenas seu nome.”

O aviso que salvara Elisa de voltar para casa permanecia sem autor. E alguém que conhecia o cartão escondido continuava acompanhando cada passo delas.

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