"A Morta Que Me Pediu Ajuda" Capítulo 4 — Alguém Entrou Antes da Polícia
Capítulo 4 — Alguém Entrou Antes da Polícia
“Não entregue a escala”, Elisa disse a Davi. “E não diga que falou comigo.”
Rafael, sentado diante dela, ergueu os olhos. Ela ativou o viva-voz.
“Ele ainda está aí?” perguntou o policial.
“Saiu quando eu pedi um documento”, Davi respondeu. “Disse que voltaria com uma autorização da família. Boné preto, camisa cinza. Deixou um cartão.”
Elisa pediu uma foto do cartão. Trazia o nome de uma empresa de serviços funerários que não constava da documentação de Helena. O número impresso não atendia. Rafael providenciou que uma equipe verificasse a recepção e pediu a Davi que preservasse as imagens, inclusive as da rua.
“Vamos registrar a tentativa de acesso”, Rafael disse. “E você vai ficar longe do prédio por enquanto.”
“Alguém pode entrar lá antes de vocês.”
“Há uma equipe a caminho.”
Elisa saiu da delegacia com um policial. No carro, recebeu um e-mail de sua supervisora, Marta: acesso ao sistema suspenso até que a divergência na ficha de Helena fosse esclarecida. Anexada ao aviso havia uma cópia da folha de transporte com uma declaração nova, supostamente assinada por Elisa: “Mala recebida sem ressalvas”.
Ela abriu a imagem original que fizera no plantão. Na sua cópia, o espaço estava vazio.
“Por favor, encoste”, pediu ao policial. “Preciso mandar isso para Rafael agora.”
Na recepção da funerária, Marta a aguardava com os braços cruzados. Davi estava ao lado da porta interna.
“Você devia ter me comunicado antes de chamar a polícia”, Marta disse.
“Eu comuniquei uma morte com documentação incompatível.”
“E agora há gente dizendo que você colocou uma mala sem identificação perto de um corpo.”
Elisa mostrou no telefone a imagem que Davi fizera às dez e dezenove: a mala ao lado da porta, com a van ainda visível através do vidro. Em seguida exibiu a ficha fotografada antes da chegada dos policiais.
“A declaração que você recebeu não estava aqui.”
Marta comparou as duas telas. O rosto dela mudou.
“Quem enviou isso para mim foi o escritório administrativo.”
“Quando?”
“Hoje, às oito e quinze.”
Elisa pediu que não encaminhasse mais a folha a ninguém e que guardasse o e-mail completo. Marta assentiu, mas manteve a suspensão até o fim da apuração. Elisa tirou o crachá do jaleco e o colocou sobre o balcão. A porta onde trabalhara durante seis anos agora só se abriria se alguém a acompanhasse.
Rafael chegou pouco depois. Juntos, examinaram as imagens do corredor onde a mala ficara guardada. Às duas e onze da manhã, já depois de a polícia ter levado o vestido, um homem de uniforme de limpeza parara diante do armário de materiais. A câmera não mostrava seu rosto. Ele passara um cartão de acesso, entrara e saíra sem balde ou carrinho.
“Quem limpa aquele setor de madrugada?” Rafael perguntou.
“Ninguém”, Davi respondeu. “A equipe chega às seis.”
O armário estava aberto. Não faltavam produtos, mas uma gaveta onde Elisa deixava formulários de reserva havia sido vasculhada. Entre os papéis, ela guardara a segunda via da folha de chegada, antes de entregar a primeira aos policiais. A segunda via tinha desaparecido.
“Você fez uma foto?” Rafael perguntou.
“Sim. E deixei outra cópia com você.”
Ele confirmou. A tentativa não apagara a diferença entre as folhas, mas mostrava que alguém sabia onde Elisa guardava registros.
Pela janela da portaria, Elisa viu um carro branco estacionado do outro lado da rua. Um homem ao volante levantou o telefone diante do rosto. Podia estar fotografando a fachada. Podia estar fotografando a ela.
“Você conhece aquele carro?” perguntou.
Davi olhou. “Passou aqui mais cedo.”
Rafael enviou um policial para anotar a placa. O carro saiu antes que ele atravessasse a rua.
Elisa ligou para a irmã, Patrícia. Pediu que ficasse na casa de uma amiga por aquela noite. Patrícia quis discutir; Elisa contou da ficha adulterada e da pessoa que telefonara procurando por ela. A irmã prometeu sair, desde que Elisa também não voltasse sozinha para casa.
“Eu vou para outro lugar”, Elisa disse.
Não disse qual. Ainda não tinha decidido.
No escritório de Marta, Elisa encontrou um detalhe ainda mais incômodo: a folha adulterada viera anexada a uma mensagem encaminhada por uma conta interna da funerária, não diretamente pela transportadora. Pediu a Marta que não apagasse o e-mail original, inclusive os dados de envio. Marta fez uma cópia para Rafael e mudou as senhas da recepção na presença dos dois.
“Se alguém daqui ajudou a alterar isso, eu quero saber”, Marta disse.
“Eu também. Mas não responsabilize Davi por ter me avisado.”
Marta olhou para o segurança. “Ele fez o que devia.”
Era pouco consolo para Elisa, que já perdera o acesso ao trabalho. Ainda assim, impediu que a única pessoa que vira a mala chegar fosse pressionada a mudar a história.
À tarde, Rafael recebeu a resposta preliminar sobre o motorista. Ele admitira que o buquê e a mala foram colocados na van durante a volta no quarteirão, por um homem que mostrou um recibo de serviço. O motorista supôs que os objetos pertenciam à família. Não guardara o recibo.
“A fita branca na mala”, Elisa lembrou. “Sofia tinha uma tira parecida no punho.”
“Também pode ser coincidência.”
“Eu sei. Mas a mulher da gravação chegou perto da van antes da entrega?”
Rafael não respondeu imediatamente. A câmera da rua mostrava uma figura de casaco escuro aproximando-se do veículo enquanto ele parara fora do portão. O chapéu escondia o rosto. Ela permanecera ali menos de vinte segundos.
“Pode ter sido Sofia”, ele disse. “Ou alguém querendo que pensássemos isso.”
Elisa imaginou a mulher amarrando a fita com pressa, depois desaparecendo. Por que entregar o cartão de memória ao necrotério em vez de diretamente à polícia? Talvez não confiasse que chegaria à delegacia viva. Talvez estivesse protegendo outra pessoa.
Antes de sair, Elisa pediu a Marta que verificasse o registro de uso do cartão empregado no armário às duas e onze. A resposta veio quando ela já estava no táxi com Rafael.
O cartão de acesso estava cadastrado no nome de Elisa Nogueira.
O crachá verdadeiro de Elisa permanecera com ela durante toda a madrugada.
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