"A Morta Que Me Pediu Ajuda" Capítulo 3 — A Mala Sem Registro
Capítulo 3 — A Mala Sem Registro
Rafael não abriu a mala no corredor.
Providenciou o registro da apreensão, fotografou a posição em que ela fora deixada e pediu que Davi salvasse as imagens da chegada da van. Elisa assistiu sem se afastar. A alça tinha uma fita branca amarrada em volta, apertada em dois nós diferentes.
“Eu vi essa fita quando o motorista entrou”, ela disse. “Não fui eu que amarrei.”
O zíper deslizou. Dentro, dobrado com cuidado, havia um vestido de noiva. O tecido branco quase preenchia a mala. Sob ele, sapatos de salto baixo e uma caixa de grampos. Nenhum documento, nenhum telefone.
“Talvez a família tenha enviado as roupas para o velório”, comentou um policial.
“Um vestido de casamento?” perguntou Elisa.
“Algumas famílias fazem pedidos incomuns.”
Ela não discutiu. Observou a etiqueta de uma lavanderia costurada provisoriamente na capa do vestido. Mostrava o nome de Helena e um número de retirada. Perto da costura lateral, havia um ponto mais grosso, feito com linha de cor ligeiramente diferente.
“Esta parte foi fechada depois do acabamento original.”
Ela sabia reconhecer um ajuste simples porque costurava as próprias roupas para economizar. Ainda assim, recuou e deixou que Rafael fotografasse o detalhe. Uma observação feita em voz alta era útil; desfazer a costura por conta própria permitiria que a defesa questionasse como o cartão chegara ali. Elisa já tinha feito uma escolha impulsiva ao abrir o envelope. Não repetiria o gesto com a única peça que talvez explicasse a morte de Helena.
Rafael pediu que ninguém mexesse na peça até que a abertura fosse documentada. Quando afastaram o forro, encontraram um cartão de memória pequeno, preso em uma bolsa de tecido. Elisa sentiu alívio por não ter permitido a saída da mala.
O alívio durou pouco. Uma mensagem nova surgiu em seu celular:
VOCÊ ENCONTROU. AGORA ELES VÃO DIZER QUE FOI VOCÊ QUEM COLOCOU.
Ela mostrou a Rafael imediatamente.
“A pessoa que enviou isso sabia onde estava o cartão”, ele disse.
“Ou viu a mala ser aberta.”
Os dois olharam para a câmera do corredor, depois para a porta fechada. Rafael pediu a identificação de todos os funcionários presentes no prédio. Elisa entregou seu telefone para o registro da mensagem e perguntou se poderia receber uma cópia do protocolo. Queria saber exatamente o que lhe seria atribuído caso alguém tentasse responsabilizá-la.
Na manhã seguinte, ela prestou novo depoimento. Rafael já havia recebido uma primeira análise dos arquivos, feita em equipamento da polícia. Havia planilhas de pagamentos da Valença Logística, cópias de extratos e fotografias de reuniões. Parte do dinheiro seguira para contas abertas em nome de Helena; os documentos, isoladamente, não mostravam quem autorizara cada operação.
“Marcelo tinha acesso a essas contas?” Elisa perguntou.
“Trabalhava no financeiro e tinha acesso a vários procedimentos da empresa. Ainda estamos verificando quais.”
“E a voz?”
Rafael tocou um trecho de áudio. Um homem dizia que Helena não podia levar os papéis ao conselho da empresa. Uma segunda voz, abafada, perguntava o que fariam se ela insistisse. A primeira respondeu: “Se ela falar, tudo desaba.”
Elisa reconheceu a voz do homem da entrevista gravada que encontrara na página da empresa quando buscara o telefone administrativo. Era Marcelo. Ela disse isso a Rafael, que anotou o reconhecimento sem tratá-lo como identificação definitiva.
“As gravações explicam por que ela tinha medo”, Elisa disse. “Ainda não explicam por que colocaram o vestido junto do corpo.”
Rafael mostrou a foto da etiqueta da lavanderia. A retirada estava marcada para a noite anterior ao casamento. Mas havia também um comprovante de ajuste dobrado entre a capa e o vestido. O papel registrava uma entrega feita às vinte e quarenta e nove da noite em que Helena morreu.
“Segundo os documentos médicos”, ele disse, “Helena foi encontrada inconsciente no carro antes desse horário.”
“Então quem pegou o vestido?”
“A assinatura está ilegível.”
Elisa pediu uma imagem do verso do comprovante. Havia ali um endereço de entrega diferente do endereço da família Valença, em um edifício comercial perto do centro. Um vestido retirado depois de Helena perder a consciência podia ter sido levado para qualquer lugar antes de aparecer junto à maca. Rafael registrou o endereço para conferir as câmeras do prédio e a identidade de quem recebera o pacote.
Elisa aproximou a foto da tela. O comprovante tinha um carimbo vermelho no canto, quase apagado pela umidade: entregue mediante senha.
“Não precisava assinar o nome verdadeiro”, ela concluiu.
O telefone de Rafael tocou. Ele se afastou para atender, deixando Elisa diante das imagens do vestido, da mala e do comprovante. A ficha de Helena dizia que o celular dela acompanhara o corpo. O aparelho, porém, não havia sido entregue ao necrotério. Ela conferira somente o anel na embalagem lacrada.
Quando Rafael voltou, Elisa apontou a divergência.
“O telefone está listado nos pertences, mas não veio na maca. Quem fez a transferência devia responder por ele.”
“O motorista disse que recebeu apenas a mala e o buquê.”
“Ontem ele não sabia me dizer quem tinha mandado trazer a mala.”
Rafael fechou a pasta. Um funcionário da Valença Logística confirmara que o pedido de remoção fora feito do ramal administrativo, mas alegara que a linha era compartilhada. A empresa prometia entregar os registros de acesso. Marcelo, por sua vez, já procurara um advogado e afirmava não conhecer Sofia.
Elisa pediu para rever o vídeo da porta lateral. Pela terceira vez, viu a mulher de casaco escuro aproximar-se dela, entregar o envelope e afastar-se depressa. Desta vez, prestou atenção no que Sofia fizera antes de sair do enquadramento.
Ela tocara o próprio punho esquerdo, como se verificasse se alguma coisa ainda estava presa ali.
“A fita da mala”, Elisa disse.
Rafael aproximou a imagem. Um pequeno pedaço branco aparecia sob a manga do casaco. Não bastava para identificar a mulher. Bastava para Elisa perceber que os dois nós na alça talvez não fossem um enfeite.
No mesmo instante, Davi telefonou do necrotério. Sua voz mal saiu acima de um sussurro.
“Elisa, alguém pediu sua escala de trabalho na recepção. Disse que veio buscar um vestido de noiva.”
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