"A Morta Que Me Pediu Ajuda" Capítulo 2 — O Nome Que Ela Me Disse
Capítulo 2 — O Nome Que Ela Me Disse
“A senhora tem certeza de que está lendo o horário certo?” perguntou a voz do outro lado da linha.
“Está impresso em duas vias. Posso mostrar as duas quando a equipe chegar.”
Elisa desligou sem tirar os olhos da ficha. Às dezenove e quarenta e dois, alguém pedira a retirada de um corpo que, conforme os papéis recebidos, só seria declarado morto mais tarde. Podia ser um erro de digitação. Podia ser um pedido aberto antes da confirmação. Mas ninguém explicara a mala, as flores ou a mensagem em seu celular.
Davi colocou a cadeira da recepção diante da porta do corredor.
“Você devia esperar longe daquela sala.”
“Se mexerem em alguma coisa, eu preciso ver.”
“Eu estou aqui para isso.”
“E eu estava aqui quando ela chegou.”
Às onze e três, dois policiais entraram acompanhados de Rafael Moura, o responsável por apurar as circunstâncias da morte. Elisa entregou as cópias e mostrou o envelope sem ocultar que o havia aberto antes da chegada deles. Rafael registrou essa informação, recolheu o material e pediu que ela contasse o encontro na calçada desde o início.
Elisa repetiu as palavras de Sofia. Não acrescentou certezas que não tinha.
“Ela disse o sobrenome?”
“Não.”
“Você viu o rosto inteiro?”
“Quando ela levantou o chapéu para olhar a rua. Por poucos segundos.”
“E acha que era Helena?”
“Achei quando vi o corpo. Agora não sei. O que sei é que ela disse que se chamava Sofia.”
Rafael examinou a fotografia. Na imagem, Helena tinha os cabelos soltos e um sorriso aberto. A mulher na maca tinha o rosto imóvel, alterado pelo atendimento que antecedera sua morte.
“Podem ser duas pessoas parecidas”, ele disse.
“É justamente por isso que estou pedindo as câmeras.”
Davi abriu as gravações em um computador. Na imagem das oito e sete, Elisa saía pela porta lateral. Uma mulher de casaco escuro permanecia perto do poste, parcialmente encoberta pela lateral de uma van. O encontro durara menos de um minuto. Quando a desconhecida se virou, a aba do chapéu escondeu o rosto.
“Amplia a imagem da manga”, pediu Elisa.
Rafael inclinou-se. Havia uma tira clara presa ao punho do casaco.
“Na fotografia da cerimônia”, disse ela, “Helena está usando um casaco no banco atrás deles. Olhe o punho.”
Não era prova de identidade. Era, no mínimo, a mesma peça ou uma muito parecida. Rafael pediu uma cópia da gravação original e orientou Davi a preservar o equipamento.
Pouco depois, uma mulher ligou para a funerária dizendo ser assessora de Marcelo Bastos. Queria saber quando a família poderia retirar os pertences de Helena.
Elisa ouviu Davi responder que nenhum objeto seria entregue naquela noite. A pessoa insistiu especificamente na mala preta.
Rafael ergueu a cabeça.
“Como ela soube da mala?”
Davi repetiu a pergunta ao telefone. Do outro lado, a ligação caiu.
Elisa anotou o número que aparecia no visor. Enquanto isso, um dos policiais examinava a folha original de transporte. O motorista identificara a entrega como concluída às dez e vinte e um. O registro automático do portão mostrava que a van entrara às dez e doze.
“Nove minutos podem ser apenas o tempo de descarregar”, observou Rafael.
“Eu concordaria”, Elisa respondeu, “se o recibo de chegada tivesse sido preenchido aqui.”
Ela apontou para a assinatura que aparecia no campo reservado ao funcionário do necrotério. Era um rabisco semelhante a seu primeiro nome. Elisa colocou ao lado uma ficha que havia assinado na semana anterior.
“Não é minha letra. E, às dez e vinte e um, eu estava procurando um recibo para a mala.”
Rafael fotografou os dois documentos. Pediu ao motorista que aguardasse para prestar esclarecimentos, mas a empresa informou que ele já havia deixado a garagem. A placa registrada por Davi permitiu localizá-lo.
À meia-noite, Elisa recebeu uma ligação da irmã. Tinha o costume de avisá-la quando sairia tarde, e naquela noite não havia mandado mensagem.
“Você está bem? Um homem ligou aqui procurando você.”
Elisa sentiu o estômago contrair.
“Que homem?”
“Não disse o nome. Perguntou se você tinha ido para casa.”
Elisa pediu que a irmã trancasse a porta e não respondesse a desconhecidos. Rafael ouviu apenas o suficiente para entender. Ofereceu que um policial a acompanhasse quando terminasse o depoimento.
“Quero procurar uma coisa antes”, ela disse.
“Aqui dentro?”
“No meu livro de recados.”
Elisa mantinha uma pequena agenda para solicitações feitas fora do procedimento normal: alguém querendo um horário, uma informação sobre velório, o número de uma sala. Às sete e vinte e seis daquela noite, enquanto ela cobria o balcão, um homem telefonara perguntando se o necrotério aceitaria uma remoção após as dez. Não dissera o nome da pessoa falecida.
Na hora, Elisa o mandara falar com a administração. Agora apontou para o número anotado ao lado da mensagem.
Rafael comparou os dígitos com os da ligação feita pela suposta assessora. Os prefixos eram diferentes.
“Posso pedir a identificação das linhas”, ele disse.
Elisa pensou na mulher da calçada. Sofia poderia ter escolhido a porta lateral porque sabia que ali a câmera não registrava bem os rostos, ou simplesmente porque era por onde Elisa saía para comprar café. Ainda não havia como decidir. Antes de abandonar aquela hipótese, pediu a Davi que anotasse também as horas em que a van tinha parado diante do portão, fora do alcance da câmera interna.
O segurança voltou às imagens da rua e encontrou o veículo passando uma primeira vez às dez e quatro. Não entrara. Fizera a volta no quarteirão antes de retornar. Rafael pediu que preservassem os minutos anteriores; alguém podia ter se aproximado da van naquele intervalo. Pela primeira vez, Elisa sentiu que a mala talvez não tivesse vindo da mesma origem que o corpo.
“Eu já reconheço uma delas.”
Na manhã anterior, a recepção recebera uma ligação da Valença Logística para reservar uma sala de despedida destinada a um antigo funcionário. Elisa procurou o e-mail de confirmação no computador e mostrou o rodapé a Rafael.
O número que pedira a remoção antes de Helena morrer era o ramal direto do setor administrativo da empresa de sua família.
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