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"A Morta Que Me Pediu Ajuda" Capítulo 1 — O Rosto Sob o Lençol

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Capítulo 1 — O Rosto Sob o Lençol

O homem da funerária deixou duas rosas brancas sobre a maca antes de entregar os papéis.

Elisa Nogueira olhou para as flores, depois para a mala preta apoiada junto à porta.

“A mala também veio com o corpo?”

“Estava no carro quando me chamaram. Disseram para deixar tudo aqui.”

“Quem disse?”

O motorista apontou para a ficha sem responder. Eram dez e dezessete da noite. No pequeno necrotério da funerária, em São Paulo, Elisa ainda tinha três horas de plantão. Tinha recebido gente demais nos seis anos anteriores para acreditar que uma entrega fora do horário fosse, por si só, extraordinária.

Mas uma mala sem etiqueta, flores sem remetente e um motorista que evitava olhar para ela formavam uma combinação difícil de ignorar.

Na ficha estava escrito HELENA VALENÇA. Trinta e um anos. Encaminhamento após atendimento de emergência. O campo dos pertences, porém, dizia apenas: anel e telefone celular.

“Preciso de um recibo para a mala.”

“Não tenho.”

“Então ela fica no corredor, sob câmera, até alguém identificar quem a entregou.”

O segurança Davi, chamado por Elisa, aproximou-se. O motorista pareceu aliviado quando ela assinou somente a parte relativa à maca. Assim que ele saiu, Davi trancou a porta externa.

“Você está desconfiada de quê?”

“Ainda não sei.”

Davi conhecia aquela resposta. Elisa a dera uma vez quando a etiqueta de uma senhora fora trocada com a de outra paciente e a família errada aparecera para a despedida. Desde então, ela insistia em conferir duas vezes nomes, horários e objetos, mesmo quando os motoristas resmungavam. Naquela noite, Davi voltou à portaria para recuperar a gravação da chegada sem esperar que ela pedisse.

Elisa percebeu uma mancha recente na lateral da mala. Não tentou examiná-la com as mãos. Marcou no livro que o objeto não acompanhava a relação de pertences e pediu a Davi que fotografasse sua posição antes de qualquer deslocamento. Se alguém alegasse depois que a mala aparecera por iniciativa dela, haveria ao menos uma imagem anterior à abertura.

Elisa calçou luvas limpas. Puxou o lençol até a altura do queixo da mulher e perdeu a força nos dedos.

O mesmo formato de rosto. Os cabelos castanhos presos às pressas. Uma pequena marca junto à sobrancelha esquerda.

Duas horas antes, uma mulher com aquele rosto a esperara perto do ponto de ônibus.

Elisa tinha saído pela porta lateral às oito e cinco para comprar café. A chuva acabara de parar, e o concreto ainda brilhava sob a luz dos carros. Uma desconhecida, de casaco escuro e chapéu de aba baixa, atravessara a calçada em sua direção.

“Você é Elisa?”

“Depende de quem pergunta.”

A mulher olhara por cima do ombro. Tinha o rosto pálido, mas a voz firme.

“Se alguém vier perguntar se me viu esta noite, diga que não.”

“Isso não é uma boa forma de conseguir ajuda.”

“É a única que eu tenho.”

正文1

Ela tirara um envelope do bolso. Elisa se recusara a pegá-lo de imediato.

“Qual é o seu nome?”

Houve uma pausa, curta o suficiente para parecer medo, longa o bastante para Elisa se lembrar dela depois.

“Sofia. Se eu não voltar até meia-noite, abra.”

“Voltar de onde?”

Um carro buzinara na esquina. A mulher deixara o envelope nas mãos de Elisa e desaparecera antes que ela pudesse fazer outra pergunta.

Agora havia uma morta na maca.

Elisa não estava mais tão certa de que reconheceria aquela mulher em plena luz. À noite, sob o chapéu, vira sobretudo os olhos e a metade superior do rosto. No necrotério, um hematoma discreto alterava a cor de uma das pálpebras. Ainda assim, a semelhança era brutal.

“Davi, anota a hora exata em que a maca entrou.”

“Está na ficha.”

“Anota no nosso livro.”

Ele obedeceu. Elisa verificou o lacre do saco usado no transporte e conferiu a pulseira de identificação sem tocar nos objetos pessoais. Helena Valença. Não havia qualquer menção a Sofia.

O telefone de Elisa vibrou no bolso do jaleco.

Número desconhecido.

NÃO VÁ PARA CASA. ELE SABE QUE VOCÊ A VIU.

Ela mostrou a tela a Davi, que parou de escrever.

“Liga para a polícia.”

“Vou ligar. Primeiro, preciso saber o que está acontecendo.”

O aviso não trazia o nome de Helena nem o de Sofia. Quem o escrevera pressupunha que Elisa já sabia a quem se referia. Ela respondeu apenas com uma pergunta — QUEM É VOCÊ? — e viu a mensagem permanecer sem confirmação de leitura. Copiou o número em sua agenda. Não conseguiria dormir se o apagasse por engano.

Elisa foi até a mesa da recepção interna. O envelope permanecia guardado dentro de sua agenda, exatamente como Sofia o entregara. Ela fotografou a frente e o verso antes de romper a aba. Havia uma fotografia de Helena ao lado de um homem de terno claro, sorrindo diante de um jardim iluminado. No verso, uma frase escrita à mão:

Não deixem que contem por mim como morri.

Uma chave pequena caiu sobre a mesa. Preso a ela havia um disco amarelo com o número 47 e o nome de um guarda-volumes no centro da cidade.

Elisa voltou à maca e colocou a fotografia ao lado da ficha, sem encostá-la no corpo. Era a mesma mulher, ou uma semelhança que alguém havia escolhido usar. O homem ao lado dela estava identificado na legenda de uma publicação impressa atrás da foto: Marcelo Bastos, seu noivo.

“Quem trouxe essas rosas?” Elisa perguntou.

Davi examinou a tela das câmeras. “O motorista entrou com elas. Mas espera... quando o carro parou, ele já estava segurando o buquê.”

“Quero o número da placa registrado. E ninguém toca naquela mala.”

Elisa ligou para a polícia. Informou a entrega, a mulher que havia encontrado na rua, a mensagem e o envelope. Enquanto esperava a orientação, copiou em uma folha o horário da chegada, o nome do motorista e os dados da ficha. Em seguida, fotografou a página do livro de plantão.

Seu trabalho não era investigar mortes. Seu trabalho era garantir que ninguém entrasse ou saísse daquele lugar com uma identidade trocada, um pertence perdido ou uma assinatura inventada.

Naquela noite, as três coisas pareciam possíveis.

Ela aproximou a ficha da luz. No rodapé, quase escondido pelo carimbo de recebimento, havia um campo preenchido à máquina: solicitação de retirada do corpo.

Elisa leu o horário uma vez. Depois outra.

A solicitação tinha sido registrada às dezenove e quarenta e dois.

Segundo o documento médico anexado, Helena Valença ainda estava viva naquele horário.

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