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"A Criada Que Fez a Coroa Brilhar" Capítulo 3 — O nome que faltava

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Capítulo 3 — O nome que faltava

Marina esperou Teodoro retirar as palavras. Ele não retirou.

“Ela me criou desde que eu conseguia lembrar”, disse.

“Eu sei.”

“Sabia que eu existia?”

“Soube que Helena saiu do palácio carregando uma criança. Nunca soube onde vocês foram morar.”

Augusto se voltou para o arquivista.

“E guardou isso para si?”

“Naquela noite, duas pessoas que poderiam confirmar o que eu vira morreram. Helena pediu que eu não a procurasse. Quando tentei registrar minha suspeita, a investigação já havia sido encerrada.”

Marina não queria ouvir uma defesa. Queria ver o que o homem havia guardado. Pegou o papel e a pena que Lúcia trouxera da mesa ao lado.

“Dite o que lembra. Datas, salas e nomes. Depois vou conferir.”

Teodoro aceitou. Augusto abriu a porta e pediu ao capitão uma ordem escrita para o acesso ao arquivo. Cecília ainda estava no corredor.

“Por que demoram tanto?”

“Porque estamos registrando tudo”, Marina respondeu, mostrando as páginas nas mãos de Lúcia.

Cecília fitou as anotações como se elas fossem mais ameaçadoras que a luz no salão. Quando Augusto comunicou a abertura do arquivo, ela pediu autorização para chamar um conselheiro.

“Depois que retirarmos o primeiro inventário”, ele disse. “Você receberá cópia.”

Os quatro cruzaram o salão. O cristal ainda brilhava, embora mais fraco. Criados e nobres se afastaram de Marina, mas ninguém riu. Sob o estrado do trono havia uma escada estreita, iluminada por lanternas. Augusto quebrou o selo da porta diante dos guardas; Lúcia anotou a hora e descreveu o lacre.

O arquivo cheirava a couro úmido. Teodoro conduziu o grupo por armários numerados, consultando o próprio caderno, até chegar a uma caixa de registros domésticos da ala infantil.

Marina insistiu em examinar o índice antes do conteúdo. Havia entradas sobre mantas, remédios, salários das amas e deslocamentos dos servos. Procurou o nome de Helena. Estava ali duas vezes.

Na primeira, meses antes do incêndio, constava como assistente pessoal de Isabel. Na segunda, uma nota afirmava que deixara o serviço três dias antes da tragédia.

“Ela não poderia ter fugido na noite do fogo se já tivesse ido embora”, disse Lúcia.

Marina aproximou a lanterna. A tinta da segunda anotação era mais escura, e o traço cruzava a margem que delimitava a coluna. Isso não demonstrava, por si só, quando fora escrita. Ela anotou a diferença e pediu que ninguém tocasse na página até que Lúcia terminasse de copiá-la.

“Quem cuidava desses registros?” perguntou.

Teodoro indicou o selo no rodapé: a administração do palácio, então supervisionada pelo conde Belmonte. Cecília era sua neta. Marina se lembrou da pressa com que ela pedira o pingente, mas conteve a acusação. Um selo podia apontar para um escritório, não para quem segurara a pena.

“Quero o livro de entrada e saída dos guardas.”

“Foi retirado para a investigação da época”, disse Teodoro. “O volume que voltou está incompleto.”

正文1

“Mostre o que há.”

Encontraram uma descrição breve de uma mulher passando pela porta de serviço com um embrulho nos braços. O nome do guarda fora coberto por uma mancha de água. Marina pediu a Lúcia que copiasse exatamente o que ainda podia ser lido. Ao lado, Augusto assinou a ordem para preservar os dois livros separados do restante do arquivo.

Só então Teodoro abriu um pequeno armário com chave própria. Retirou uma caixa de madeira, mostrou seu número a Lúcia e a colocou diante de Marina.

Dentro havia um pedaço de metal com raios curtos em torno de uma borda partida. Marina tirou do vestido a metade que Helena lhe dera. Hesitou antes de pousá-la sobre a mesa. Augusto afastou as mãos; Teodoro fez o mesmo.

Ela própria juntou as duas peças.

O encaixe foi preciso. Na face posterior surgiu uma gravação contínua: o sol da Casa de Aurélia, símbolo usado pela família de Isabel antes da reforma do brasão. Não era o formato que Marina conhecia das bandeiras atuais. Teodoro encontrou no inventário a descrição da peça completa, encomendada para a princesa e guardada com seus pertences pessoais.

Marina separou as metades de novo.

“Helena me deu a minha parte. Quem trouxe a outra?”

“Ela mesma, anos depois do incêndio. Não quis dizer onde você estava. Pediu que eu a guardasse até que houvesse um motivo para abrir o arquivo.”

Marina imaginou Helena atravessando sozinha aquelas escadas e voltando depois para a vida modesta que dividiam. A mãe havia estado perto o bastante para pedir ajuda. Não confiara que alguém pudesse protegê-las.

“Existe uma carta?”

“Existe. Está lacrada numa seção separada, com instruções dela. Ainda precisamos verificar a condição que deixou para a abertura.”

“E o registro de nascimento?”

Teodoro levou-os à prateleira seguinte. Retirou um volume grosso e abriu na data correspondente. Uma folha fora arrancada rente à costura. A numeração pulava de quarenta e seis para quarenta e oito.

O corte era irregular. Na página seguinte havia marcas de pressão deixadas pela escrita sobre a folha ausente. Marina inclinou a lanterna, mas viu apenas sulcos sem forma suficiente para reconstruir um nome. Pediu a Teodoro que protegesse o livro numa caixa rígida. Ele concordou e registrou o estado da costura antes de fechá-la.

Marina passou o dedo perto da borda rasgada, sem tocá-la.

“A prova de quem nasceu foi retirada”, disse Augusto.

“A prova que estava aqui”, corrigiu Marina. “Helena arriscou voltar ao palácio porque acreditava que outra ainda podia sobreviver.”

Uma batida soou na porta superior. O capitão chamou o príncipe: representantes do conselho aguardavam para entrar e recolher os livros.

Marina fechou o registro com cuidado. Lúcia já tinha a cópia das entradas, a descrição das duas metades do sol e a assinatura de Augusto na ordem de preservação.

“Antes que eles desçam”, Marina disse, “quero saber quem solicitou aquela página pela última vez.”

Teodoro consultou a ficha presa à contracapa. O espaço reservado ao nome do solicitante estava vazio. No campo da data, porém, havia uma anotação feita na semana anterior à cerimônia.

Alguém procurara o nascimento da filha de Isabel poucos dias antes de Marina tocar o cristal.

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