"A Empregada Que Fez o Filho do Chefe da Máfia Falar Depois de Quatro Anos" Capítulo 4 — O Menino Que Viu Tudo
Dante abaixou a arma.
"Solte a criança."
A mulher apertou a lâmina contra o pescoço da menina.
"Afastem-se."
Clara ergueu as mãos.
"Ela me chamou de tia. Cecília falou de mim?"
"Falou que você seria a única pessoa capaz de tirá-la daqui."
"Então deixe que eu faça isso."
A mulher olhou para Dante.
"Ele não pode levá-la."
"Por quê?", perguntou Dante.
A menina respondeu antes dela:
"Porque o homem da bengala disse que meu pai é um monstro."
Dante ficou imóvel.
A mulher tentou recuar. Rafael apagou a luz do corredor. No escuro, Clara puxou a menina enquanto Dante desarmava a sequestradora.
Quando as luzes voltaram, a mulher estava no chão, algemada.
Chamava-se Marta Reis e trabalhara como enfermeira da clínica. Disse que cuidava da menina por ordem de Cecília, mas recebia dinheiro de Vicente havia dois anos.
Marta afirmou que os primeiros pagamentos vinham de uma conta aberta por Cecília. Depois passaram a chegar da Fundação Ferraz.
"Vicente descobriu o esconderijo", disse Clara.
"Ele prometeu que manteria a menina viva", respondeu Marta. "Disse que Cecília estava doente e já não podia decidir."
"Você acreditou?"
"Minha filha precisava de uma cirurgia que eu não podia pagar. Eu quis acreditar."
Dante pediu o nome do hospital. A cirurgia realmente acontecera, paga pela fundação. Vicente não comprara apenas silêncio; criara uma dívida que Marta temia romper.
"Onde está Cecília?", perguntou Dante.
"Ela vinha de madrugada. Há três meses chegou ferida, dizendo que descobriram a casa de Atibaia. Depois não voltou."
Marta entregou uma pulseira de tecido deixada por Cecília. Havia sangue seco e um número bordado: 214.
Era o número do antigo quarto de Cecília na clínica.
"Qual é o nome dela?", perguntou Clara.
"Helena."
"Quem são os pais?"
Marta fechou a boca.
Dante se aproximou.
"Se encostar nela outra vez, não haverá advogado capaz de ajudá-la."
"Vicente disse que o senhor a mataria quando descobrisse."
"Descobrisse o quê?"
Marta recusou-se a responder.
No bolso do uniforme, Rafael encontrou um prontuário parcialmente queimado. O nome da paciente era Cecília Ferraz Montenegro. A data de entrada correspondia a dois dias depois do funeral.
No campo procedimento estava escrito: parto cesáreo de emergência.
Dante leu duas vezes.
"Cecília estava grávida."
O prontuário registrava uma gestação de trinta e quatro semanas. A criança nascera prematura, com dificuldade respiratória, mas recebera alta vinte dias depois.
O campo destinado ao pai estava coberto por tinta preta. Sob a luz do celular, Clara distinguiu o início de uma assinatura: D. M.
Dante comparou o traço com sua própria assinatura.
"É minha."
"O senhor sabia da gravidez?", Marta perguntou.
"Não."
Ele lembrou que Cecília evitara vinho e cancelara uma viagem nas semanas anteriores ao acidente. Na manhã em que saiu, tentou conversar, mas Dante pediu que esperasse o fim de uma reunião.
"Vicente quer que o senhor olhe para o passado enquanto move Helena agora", disse Clara.
Rafael encontrou uma ordem de transferência para um abrigo, assinada por Lorena Sampaio como representante da fundação.
Lorena conhecia Helena desde o nascimento.
Clara lembrou-se da fotografia, da mão pequena e do choro na gravação.
Helena observava Dante com medo. Tinha os mesmos olhos de Nicolas.
"Quantos anos você tem?", Clara perguntou.
"Quatro."
O mundo de Dante se reorganizou em silêncio.
Antes que pudesse aproximar-se, sirenes surgiram do lado de fora. Viaturas cercaram a clínica. Vicente descera do primeiro carro acompanhado por policiais civis e uma equipe do Conselho Tutelar.
"Dante Montenegro sequestrou uma criança", anunciou diante das câmeras.
Rafael olhou pela janela.
"Ele preparou isso antes de chegarmos."
Vicente apresentou uma ordem judicial para retirar Helena do prédio e prender Marta. A documentação indicava que a menina era órfã e estava sob guarda provisória da Fundação Ferraz.
A decisão fora emitida menos de uma hora antes, com base numa denúncia feita na noite anterior. Vicente previra que encontrariam a clínica.
Dante ligou para uma advogada independente, doutora Camila Nogueira. Ela percebeu uma irregularidade: o relatório social tinha a assinatura de uma profissional falecida havia seis meses.
"A ordem foi obtida com documento falso", disse Camila. "Mesmo assim, se você resistir armado, perde qualquer chance de pedir a guarda."
Dante olhou para Helena. O instinto mandava tirá-la dali. Pela primeira vez, escolheu não resolver uma ameaça com força.
"Registre tudo", ordenou a Rafael. "Cada rosto, cada placa, cada homem que tocar nesta criança."
Clara percebeu que Dante não estava recuando. Estava aprendendo a lutar num terreno onde seu nome não garantia vitória.
Dante não podia levar Helena sem confirmar a paternidade.
Clara se ajoelhou diante da criança.
"Você conhece uma saída?"
Helena apontou para o elevador de serviço.
"Mamãe usava quando vinha cantar."
"Quando ela veio pela última vez?"
"Antes do Natal."
Cecília estivera viva apenas três meses antes.
Dante ouviu. A esperança atravessou sua expressão e desapareceu sob cautela.
"Ela disse para onde iria?"
Helena tirou do bolso uma fita azul.
"Falou que precisava buscar Nino."
Nino era como Cecília chamava Nicolas.
Vicente bateu na porta principal. Deu trinta segundos para que Dante se rendesse.
Clara encontrou uma mochila infantil com documentos e uma escova de cabelo de Helena. Guardou alguns fios num envelope limpo.
Também encontrou um gravador em forma de brinquedo. Ao apertar o botão, ouviu Cecília:
"Helena, se um homem de olhos escuros disser que é seu pai, observe o que ele faz antes de acreditar no que dizem sobre ele."
A menina reconheceu a voz e começou a chorar.
Dante não tentou abraçá-la. Sentou-se no chão, a alguns passos.
"Não vou pedir que acredite em mim hoje", disse. "Só vou garantir que ninguém apague sua história outra vez."
Helena olhou para Clara.
"Ele é mesmo o monstro?"
"Ele fez coisas que precisa explicar", respondeu Clara. "Mas o homem que quer machucar você tem medo de que conheça seu pai."
Dante aceitou a resposta sem se defender.
"Isso basta para um exame de DNA", disse.
Rafael abriu a saída do subsolo. Dante queria levar Helena, mas Clara o impediu.
"Se fugir com ela, confirma a acusação. Saia pela frente. Eu levo a amostra ao laboratório."
"Não vou deixá-la aqui."
"Então ninguém descobre quem ela é."
Dante entregou Helena aos agentes do Conselho Tutelar diante das câmeras. Vicente sorriu ao vê-la passar.
A menina recuou.
"Vovô Vini."
Os jornalistas ouviram.
Vicente perdeu o sorriso.
"Ela está confusa."
"Uma órfã sob sua fundação chama você de avô?", perguntou uma repórter.
Dante se colocou diante das câmeras.
"Exijo exame de DNA e proteção independente para esta criança."
Vicente tentou encerrar a entrevista, mas a pergunta já circulava ao vivo.
Clara saiu pelo túnel com Rafael. No estacionamento dos fundos, um homem tentou tomar a mochila. Rafael o derrubou, mas recebeu um corte no braço.
O agressor carregava uma fotografia recente de Nicolas dormindo.
No verso estava escrito: O MENINO FALARÁ UMA ÚLTIMA VEZ.
Clara telefonou para a mansão.
Ninguém atendeu.
Dante chegou segundos depois. Os três voltaram a São Paulo sob chuva, enquanto a equipe de segurança tentava contato com a governanta.
Os portões estavam abertos.
As câmeras, desligadas.
No quarto de Nicolas, encontraram a janela quebrada e o carrinho de madeira partido ao meio.
Na parede, o menino escrevera com lápis vermelho:
FOI LORENA.
Debaixo da cama, Clara encontrou o lenço branco de Cecília, ainda úmido de chuva. A mãe estivera ali naquela mesma noite.
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