"A Empregada Que Fez o Filho do Chefe da Máfia Falar Depois de Quatro Anos" Capítulo 3 — A Carta Que Devia Permanecer Fechada
A ambulância levou o ex-funcionário sob escolta. Dante permaneceu na sacristia com a fotografia queimada entre os dedos.
"Quem é essa criança?"
Clara observou o tamanho da mão junto à de Cecília.
"Não sei."
"Você disse que a encontrou sozinha."
"E encontrei. Esta foto pode ter sido tirada depois."
Rafael conectou o pen drive a um computador isolado. A maioria dos arquivos estava corrompida, mas uma pasta tinha o nome C.F.M.
Cecília Ferraz Montenegro.
Havia prescrições, recibos e um áudio protegido por senha.
Dante tentou a data de nascimento da esposa. Nada.
Clara digitou APARECIDA.
O arquivo abriu.
"Como sabia?", perguntou Rafael.
"Era o nome gravado no medalhão. Cecília dizia que santos eram melhores guardiões que homens."
A voz dela encheu a pequena sala.
"Se Dante estiver ouvindo, então Clara conseguiu chegar até você. Não a culpe pelo silêncio. Fui eu quem pedi que esperasse."
Dante fechou os olhos.
"O acidente não foi acidente", continuou Cecília. "Vicente descobriu que eu mudaria o administrador do patrimônio Ferraz. Ele perderia acesso a contas, imóveis e à fundação. Mas Vicente não agiu sozinho. Alguém da segurança informou minha rota."
Rafael retirou lentamente o fone de um ouvido.
"Ela está me acusando."
"Ela disse alguém da segurança", respondeu Clara.
Rafael contou que, na noite do acidente, recebera uma chamada falsa informando uma invasão num galpão do Morumbi. Retirou metade dos homens da escolta de Cecília e só descobriu o engano depois da explosão.
"O código usado na ligação pertencia ao meu antecessor", disse. "Ele morreu um mês antes."
"Quem tinha acesso?", perguntou Dante.
"Vicente, eu e o senhor."
Dante encarou o homem que o protegia havia onze anos.
"Por que nunca me contou?"
"Porque encontrei dinheiro numa conta aberta em meu nome. Parecia pagamento pela retirada da escolta. Passei quatro anos procurando quem criou a conta."
Rafael entregou extratos e pedidos de informação. Clara percebeu que ele não improvisara uma defesa; investigava sozinho havia anos.
"Cecília escreveu para não confiar no primeiro homem que confessasse", disse ela. "Alguém planejou que Rafael parecesse culpado."
Dante recolheu a arma do segurança, mas não o prendeu.
"Até sabermos a verdade, você trabalha desarmado e não fica sozinho com Nicolas."
Rafael aceitou.
O áudio falhou. Depois, Cecília voltou a falar.
"Nicolas viu o homem perto do carro. Se ele parou de falar, é porque se lembra. Não o obriguem. Quando estiver seguro, ele contará."
Ao fundo, ouviu-se o choro de uma criança.
Não era a voz de Nicolas.
A gravação terminou.
Rafael verificou os metadados. O áudio fora criado na madrugada posterior ao acidente e modificado três meses antes.
"Alguém acessou esta gravação recentemente", disse.
"Cecília?", perguntou Dante.
"Ou a pessoa que a mantém escondida."
O endereço de rede apontava para a mansão Montenegro. Dante ordenou uma varredura. Um técnico encontrou um repetidor clandestino dentro do quarto infantil, oculto atrás de uma tomada.
Durante meses, alguém ouvira Nicolas dormir, as sessões de terapia e as conversas com o pai.
"Por isso ele não falava", disse Clara. "Talvez soubesse que estavam escutando."
Dante telefonou para a governanta e mandou retirar Nicolas da ala infantil. O menino seria levado à biblioteca, onde não havia câmeras ligadas à rede.
Poucos minutos depois, Nicolas enviou uma fotografia pelo celular da governanta. Atrás do repetidor arrancado, uma palavra havia sido escrita por Cecília no reboco:
OUÇA.
Dante abriu o envelope que carregava desde o baile. A carta começava com um pedido:
NÃO CONFIE NO PRIMEIRO HOMEM QUE CONFESSAR.
Cecília relatava que descobrira saques milionários do patrimônio deixado por seu pai. Vicente usava a fundação infantil e empresas de transporte para lavar dinheiro. Ela pretendia entregar os documentos ao Ministério Público de São Paulo.
Também contava que Clara era a última herdeira reconhecível de Teresa Valente. Se Cecília morresse sem registrar a irmã, Vicente herdaria parte das ações.
"Ele tentou apagar você", disse Dante.
"Por isso ela me mandou fugir."
No fim da carta havia uma frase riscada várias vezes: PERDOE-ME PELA CRIANÇA.
Dante mostrou a Clara.
"Que criança?"
"Talvez a da fotografia."
Rafael encontrou no pen drive uma planta da clínica. Um elevador de serviço levava a um subsolo que não aparecia nos registros municipais.
Foram até o prédio abandonado. A porta principal estava lacrada, mas a fechadura lateral fora trocada recentemente.
No subsolo havia três quartos, um pequeno consultório e câmeras ainda funcionando. As camas estavam limpas. Alguém utilizara o lugar naquela semana.
Clara abriu um armário. Encontrou roupas infantis, um inalador e desenhos assinados apenas com a letra H.
Um dos desenhos mostrava uma mulher de lenço branco cantando para duas crianças.
Outro mostrava uma casa amarela, um sino e uma mulher caída perto de uma árvore. No canto havia a data do mês anterior.
Clara fotografou a página.
"Pode ser onde Cecília está."
Rafael identificou o contorno de uma igreja colonial em Atibaia. O sino tinha uma rachadura igual à desenhada. Dante enviou uma equipe discreta, sem usar os canais normais da segurança.
Dentro de uma caixa de brinquedos, encontraram cartões de aniversário nunca enviados a Nicolas. Todos estavam assinados por Cecília. O último dizia:
NINO, QUANDO CONSEGUIR FALAR, DIGA AO SEU PAI QUE A CHAVE NÃO ESTAVA COMIGO.
Dante leu em voz alta.
"Que chave?"
Clara lembrou-se da chave na bolsa de Lorena.
"Talvez a chave do carro. Ou do quarto onde guardaram a menina."
A equipe enviada a Atibaia informou que a casa amarela estava vazia. Encontrara sangue recente e outro cartão dirigido a Nicolas.
Alguém chegara antes deles.
"Cecília esteve aqui com ela", disse Clara.
Dante encontrou marcas de altura numa parede. As datas começavam quatro anos antes e terminavam havia três meses.
"Quem quer que seja, cresceu escondida aqui."
Rafael chamou os dois. Dentro do consultório havia uma cadeira presa ao chão e frascos de sedativo vencidos.
Na mesa, um gravador reproduzia a mesma melodia que Clara cantara no baile.
Uma câmera girou na direção deles.
"Estamos sendo observados", disse Rafael.
As luzes se apagaram.
Uma porta de metal fechou a saída.
Gás começou a entrar pelas grades de ventilação.
Dante tirou o paletó e o pressionou contra uma das saídas. Rafael tentou abrir a porta com um disparo, mas o metal resistiu.
Clara procurou o painel elétrico. Reconheceu o sistema usado na clínica onde trabalhara.
"Existe uma liberação manual dentro do consultório."
Ela atravessou a fumaça, que já ardia nos olhos. Encontrou uma alavanca atrás do armário de medicamentos e puxou.
A porta abriu apenas vinte centímetros.
Dante forçou o espaço com os ombros. Rafael passou primeiro e segurou o metal. Clara saiu em seguida.
Um disparo veio do corredor.
Dante empurrou Clara para o chão. A bala atingiu a parede. Rafael respondeu, mas o invasor escapou pelo elevador.
No piso, Clara encontrou uma abotoadura de ouro com as iniciais R.M.
Rafael Moura.
Dante apontou a arma para o chefe da segurança.
"Explique."
Rafael olhou para a própria manga. Uma de suas abotoaduras havia desaparecido.
"Alguém colocou isso aqui."
"Ou você esqueceu de recolher."
Clara lembrou-se da carta: não confiar no primeiro homem que confessasse. A prova contra Rafael parecia perfeita demais.
"Vicente quer que Dante mate o próprio aliado", disse ela.
Rafael entregou a arma.
"Então me prenda até provarmos."
Do andar superior veio o som de passos pequenos.
Uma menina apareceu na escada. Tinha cabelos escuros, olhos castanhos e um medalhão idêntico ao de Clara.
"Tia Clara?", perguntou.
Clara perdeu o ar.
Antes que alcançasse a criança, uma mulher de uniforme branco surgiu atrás dela e encostou uma lâmina em seu pescoço.
"Cecília avisou que você viria", disse a mulher. "Também avisou que Dante Montenegro não podia descobrir quem é a menina."
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