"A Dançarina Que Voltou Para Si" Capítulo 10 — No Alto do Teatro
Capítulo 10 — No Alto do Teatro
Gabriel percebeu que algo estava errado quando o palco ficou vazio e a música começou sem Lara. Não correu para os bastidores como um homem tentando tomar o comando. Foi até Bianca, ouviu o que ela sabia e ligou para Paula.
"Ela mandou uma localização incompleta", Bianca disse, mostrando o celular. "E houve uma queda de energia na ala antiga."
Paula já estava a caminho. "Ninguém entra sozinho. Isolamos as saídas e chamamos a equipe de resgate."
Gabriel respirou uma vez, duas vezes. O impulso dizia para arrombar cada porta. O que Lara precisava, porém, era de uma busca que não destruísse evidências nem colocasse outras pessoas em risco.
"Tem uma escada de manutenção para o telhado", ele informou. "Mas a porta abre com cartão antigo."
Fernanda levantou o pedaço de tecido encontrado preso na parede. "O figurino de Mirela. Ela usou isso na estreia."
No alto do teatro, Lara acordou com a boca seca e um gosto metálico na língua. Estava sentada no chão, presa por uma corda frouxa em volta dos pulsos. O vento golpeava seu rosto. Abaixo, São Paulo era uma constelação distante e indiferente.
Mirela andava de um lado para o outro, descalça, com a tornozeleira de prata brilhando sob a luz de emergência.
"Finalmente acordou", ela disse. "Eu precisava que você entendesse como é ser apagada."
Lara manteve os olhos nela, procurando tempo, não confronto. A corda estava mal dada. Mirela queria medo, não eficiência.
"Você não foi apagada", Lara respondeu devagar. "Você foi responsável pelo que fez."
Mirela riu. "Claro. A menina perfeita dizendo que meritocracia existe. Você perdeu uma noite e foi para Lisboa. Eu perdi anos vendo diretores olharem para você como se o mundo fosse seu."
"Você podia ter dançado sua própria história."
"Eu tentei. Mas você sempre voltava." Mirela se aproximou. "Então pensei: se o público acreditar que você é instável, perigosa, manipuladora, eles vão me ver de novo. As flores eram só para deixar você fraca. A escada, a foto, a Jéssica... cada pessoa já queria acreditar em alguma coisa sobre você. Eu só dava a frase certa."
Lara sentiu o celular escondido dentro da meia vibrar uma vez. Antes de ser levada, ela o enfiara ali por instinto. A gravação estava ligada. Ela precisava mantê-la falando.
"Você também mandou Ícaro?"
"Ícaro era inútil. Quase estragou tudo quando ficou com medo. Mas fez o que eu paguei para fazer. Como sua tia fez antes, como sua prima fez. É tão fácil comprar gente quando elas acham que você nunca vai reagir."
Lara puxou a corda milímetro por milímetro.
"E me trazer para cá? Isso também vai te fazer ser vista?"
Mirela parou perto da borda. Seus olhos estavam molhados, mas sem arrependimento.
"Vai fazer você parar de voltar."
Sirenas soaram longe. Mirela ouviu e se virou, furiosa.
"Você chamou ele."
"Eu chamei a polícia", disse Lara. "Há uma diferença."
Mirela avançou e tentou arrancar o pingente da mão dela. Lara soltou a corda, empurrou o corpo para o lado e não para trás. Caiu sobre o ombro, sentiu a dor explodir, mas se afastou da beirada.
A porta do telhado se abriu. Paula apareceu primeiro, arma apontada para baixo, seguida por dois policiais. Gabriel ficou atrás da linha de segurança, branco de medo, mas imóvel.
"Mirela Duarte", ordenou Paula. "Afaste-se dela e levante as mãos."
Mirela segurava uma haste de metal. Por um segundo, pareceu pronta para atacar Lara. Então ouviu a própria voz sair do celular caído perto da meia de Lara. A gravação tinha captado tudo.
"Você me armou", ela sibilou.
"Eu sobrevivi", Lara respondeu.
Mirela deixou a haste cair. A prisão aconteceu sem aplausos, sem trilha sonora, sem a vitória limpa que Lara imaginara na juventude. Só havia algemas, vento e a certeza de que uma ameaça real finalmente tinha nome e consequência.
No hospital, Gabriel ficou do lado de fora da sala de exame até Lara pedir para vê-lo. Seu ombro estava imobilizado, e havia um corte na testa, mas ela estava consciente.
"Eu achei que tinha perdido você", ele disse.
"Eu também achei", ela respondeu. "Mas não foi você quem me trouxe de volta. Eu deixei pistas. Eu falei. Eu sobrevivi."
Ele assentiu, os olhos cheios.
"Eu sei."
Lara estendeu a mão. Não para prometer uma reconciliação, mas porque queria escolher aquele gesto naquele instante. Gabriel segurou seus dedos com cuidado, como se entendesse que cuidado não era posse.
Paula entrou pouco depois para avisar que a perícia havia recolhido a haste, o celular e fibras do figurino. Ícaro, confrontado com a gravação, aceitara complementar o depoimento. Lara pediu que a policial não poupasse palavras ao explicar seus direitos. Queria saber cada próximo passo, mesmo que ouvir fosse doloroso.
"Você não precisa prestar nova declaração hoje", Paula disse.
"Eu sei. Mas quero marcar assim que o médico liberar. A história não vai ser contada sem a minha voz."
Gabriel não a contradisse. Apenas perguntou se ela queria que Teresa fosse chamada. Lara quis. Quando a mãe chegou, pálida e apoiada em uma bengala, beijou sua testa e ficou sentada ao lado da cama sem pedir detalhes. A presença dela não diminuía a violência do que ocorrera; fazia Lara lembrar que continuar viva também podia significar receber amor sem ter que merecê-lo.
Na madrugada, a dor no ombro aumentou. Gabriel chamou a enfermeira, depois voltou para a cadeira. Lara o observou dormir sentado, exausto, sem reclamar. Pela primeira vez, ela conseguiu imaginar um futuro ao lado dele. Não como uma resposta obrigatória ao trauma, mas como uma possibilidade que ainda precisava passar pela luz do dia.
Quando amanheceu, a cidade pareceu comum demais pela janela do hospital. Lara olhou o movimento dos carros e agradeceu, em silêncio, por aquela normalidade. Ainda haveria audiências, pesadelos e dias ruins. Mas ela estava ali para atravessá-los, acompanhada ou sozinha, sem deixar que ninguém definisse o tamanho da sua coragem.
Ela pediu uma caneta e anotou tudo o que lembrava: o vento, o metal, as palavras de Mirela, a cor da fita. Cada detalhe devolvia uma parte do controle.
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