"A Dançarina Que Voltou Para Si" Capítulo 9 — A Mulher Que Eu Não Vou Mais Ser
Capítulo 9 — A Mulher Que Eu Não Vou Mais Ser
O convite para dançar no Festival de Inverno de São Paulo chegou no pior momento e, por isso mesmo, parecia importante demais para ser recusado. Seria uma apresentação ao ar livre, patrocinada pela Fundação Azevedo, com transmissão nacional e uma coreografia criada para Lara.
"Você não precisa fazer isso agora", disse Tomás, sentado do outro lado da mesa de reunião. "A fundação mantém o patrocínio se você quiser adiar."
"Se eu adiar por medo, o medo vai assinar meu contrato", ela respondeu. "Eu aceito, mas com condições."
As condições ocuparam duas páginas: rotas de entrada e saída, equipe de segurança independente, câmeras preservadas, duas pessoas de confiança com ela em todos os deslocamentos e autorização para interromper o espetáculo se qualquer protocolo fosse quebrado. Tomás leu tudo e assinou sem tentar negociar o que não lhe pertencia.
Gabriel não participou da reunião. Encontrou Lara mais tarde, em uma sala de terapia de casal que ela escolhera. A terapeuta, Marina, não permitia que nenhum dos dois usasse frases vagas.
"O que você precisa que ele entenda?", perguntou a Lara.
Lara apertou as mãos.
"Que eu não fui embora porque deixei de amar", disse. "Eu fui embora porque amar alguém que sempre pede mais uma prova de quem você é acaba parecendo uma doença. Eu passei anos tentando ser calma, impecável, fácil de acreditar. Não vou voltar a ser essa mulher."
Gabriel demorou a responder.
"Eu achei que proteger era resolver tudo sozinho", ele disse. "Agora vejo que, quando você falava, eu escolhia o caminho mais conveniente para mim. Eu não vou pedir que você me perdoe na velocidade que me deixa confortável."
Marina olhou para Lara. "Isso muda alguma coisa?"
"Muda o que ele está fazendo. Não muda o que eu decido hoje."
Era a resposta mais honesta que ela tinha.
Paula trouxe uma atualização naquela mesma semana. As câmeras da doca mostravam Mirela com boné e máscara, acompanhada por um homem que trabalhara como técnico temporário no teatro. O homem, Ícaro, fora localizado e aceitou falar depois que soube do sedativo. Disse que Mirela pagara para ele deixar uma caixa de flores sem registrar a entrega.
"Ele afirma que não sabia do produto", explicou Paula. "Ainda estamos verificando. Mirela sumiu do apartamento e não atende ao advogado."
Lara sentiu o estômago se fechar. "Ela sabe que está sendo procurada?"
"Sabe que há uma investigação. Por isso os protocolos do festival não são exagero."
No ensaio geral, Lara viu a peça de dança crescer diante dela. Chamava-se Retorno das Marés. Não havia heroína resgatada no final; havia uma mulher atravessando ondas que tentavam empurrá-la para a mesma margem.
Helena apertou seu ombro. "A coreografia é sua. Se quiser cortar qualquer trecho, nós cortamos."
"Não", Lara disse. "Desta vez, eu quero ocupar o palco inteiro."
Na noite do festival, os primeiros vinte minutos correram como previsto. Bianca e Fernanda estavam no camarim. Tomás permanecia na área técnica. Gabriel, fora de serviço e sem arma, ficou em uma entrada pública, onde Lara podia vê-lo sem confundir presença com vigilância.
Então a luz do espelho piscou três vezes.
Fernanda franziu a testa. "Isso não estava no mapa de energia."
Lara notou um copo de água sobre a bancada. Não era o dela; o seu tinha uma fita azul no gargalo. Ela não tocou no copo. Chamou Bianca, que fechou a porta e avisou a segurança.
Mesmo assim, quando faltavam dez minutos para entrar em cena, Lara começou a sentir a língua pesada. Não tinha bebido nada, mas o ar do camarim estava impregnado por um cheiro floral.
"Não deixa ninguém entrar", ela sussurrou para Bianca, pegando o celular.
Uma mensagem apareceu: Se você dançar, vai cair de verdade.
Lara enviou a localização para Paula, mas a tela apagou antes de confirmar. A porta dos fundos se abriu com um estalo. As luzes morreram.
Ela tentou gritar. Uma mão cobriu sua boca, e o mundo se inclinou para o lado.
Antes de perder a consciência, Lara arranhou a parede. Sob suas unhas ficou um pedaço de tecido preto e, na palma, ela apertou o pingente de concha que sua mãe lhe dera.
O silêncio que veio depois não foi completo. Lara ainda ouviu vozes abafadas, um motor ligando e o som de uma porta batendo. Tentou contar as curvas, mas a tontura misturava tudo. Por baixo do medo, porém, havia uma raiva muito limpa. Ela não era mais a mulher que acordava em uma cama de hospital desejando voltar no tempo. Tinha voltado uma vez. Não voltaria a se abandonar agora.
Com o pouco de lucidez que restava, pressionou o botão lateral do celular escondido na meia. Não sabia se o áudio começara, se a localização fora enviada ou se alguém encontraria o sinal. Mesmo assim, fez o que podia. Deixou uma marca no banco do veículo com o pingente, puxou um fio do próprio casaco e guardou na mão o tecido preso na parede.
No camarim, Bianca foi a primeira a notar que Lara não tinha saído pela rota prevista. A fita azul da garrafa permanecia intacta. Fernanda encontrou o risco na parede e não permitiu que ninguém limpasse o local. Enquanto o público ouvia uma música improvisada para cobrir o atraso, as três mulheres transformaram pânico em procedimento.
Paula chegou antes que o festival anunciasse o cancelamento. Viu o copo, a porta aberta e o horário interrompido no celular. "Ela deixou sinais", disse. "Vamos seguir todos." Para Lara, em algum lugar na escuridão, a frase seria mais forte do que qualquer promessa de resgate: as pessoas finalmente estavam olhando.
Do lado de fora, Helena assumiu o microfone e informou ao público que a apresentação seria interrompida por uma emergência, sem expor Lara ao espetáculo de uma curiosidade cruel. Tomás apoiou a decisão, enfrentando patrocinadores irritados. Mais tarde, aqueles minutos de respeito se tornariam parte da prova de que a arte não precisava devorar quem a criava.
Gabriel ficou junto à barreira determinada por Paula, distribuindo informações apenas a quem precisava saber. A cada minuto sem notícia, repetia para si mesmo que procurar Lara significava seguir as pistas dela, nunca substituir sua voz.
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