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"A Dançarina Que Voltou Para Si" Capítulo 3 — O Palco Não Me Deve Perdão

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Capítulo 3 — O Palco Não Me Deve Perdão

Minha mãe teve alta no fim da tarde, com orientação de repouso e novos exames. Eu queria ficar com ela, mas ela apertou minhas mãos e mandou que eu fosse para a companhia.

“Não entrega a sua vida para quem quer te ver no chão”, ela disse. “Vai dançar.”

Cheguei atrasada. Sônia me esperava na porta do estúdio, braços cruzados, o rosto tão rígido quanto o espelho atrás dela.

“Lara, a diretoria decidiu tirar você da apresentação de homenagem aos bombeiros.”

O chão pareceu ceder.

“Por causa do vídeo?”

“Por causa do vídeo, das mensagens, das ausências e da instabilidade que isso trouxe para a equipe.”

“Eu não faltei por capricho. Minha mãe estava no hospital.”

“Eu sei.” Sônia parecia realmente triste. “Mas o espetáculo é daqui a cinco dias. Não podemos correr riscos.”

Na outra vida, eu teria acusado todos de me perseguirem. Teria saído chorando e dado a Mirela a prova de que eu era incapaz de lidar com pressão.

Desta vez, respirei até minha voz parar de tremer.

“Eu aceito a decisão provisória. Quero só uma coisa: ela será registrada como provisória, até a apuração das imagens e da denúncia.”

Sônia me observou por um longo segundo.

“Será.”

“E quero continuar usando a sala vazia depois do expediente. Não para ensaiar a coreografia do espetáculo. Para não perder condicionamento.”

Ela assentiu.

Passei os dias seguintes chegando antes de todos e saindo depois de todos. Anotei horas, exercícios, dores e repetições num caderno. Não era punição. Era uma promessa a mim mesma: se tirassem um palco, eu construiria outro no espaço que restasse.

Na quarta noite, Gabriel apareceu na porta do estúdio. Eu estava sozinha, suada, com os pés ardendo dentro das sapatilhas.

“Você vai se machucar”, ele disse.

“Você sempre entra sem bater?”

“A porta estava aberta.”

“E isso te dá o direito de vigiar minha vida?”

Ele ficou em silêncio. Depois tirou do bolso um envelope.

“O laboratório conseguiu confirmar que o vídeo foi editado. Ainda não identifica quem fez, mas os cortes são evidentes.”

Meu coração acelerou.

“Posso usar isso na companhia?”

“Bianca preparou um parecer preliminar. Você pode.”

Peguei o envelope sem tocar nos dedos dele.

“Obrigada.”

Gabriel parecia querer dizer mais. Em vez disso, olhou para o meu tornozelo enfaixado.

“Você está cansada.”

“Estou trabalhando.”

“Lara…”

“Não.” Levantei a mão. “Não me diga para ir para casa. Não me diga que você vai resolver tudo. Eu preciso fazer a minha parte.”

O olhar dele mudou. Havia culpa ali, talvez respeito.

“Tudo bem”, respondeu. “O que você precisa?”

Pensei por alguns segundos.

“Que você não acredite em alguém só porque essa pessoa fala com segurança.”

Ele assentiu devagar.

Na manhã seguinte, usei o parecer para pedir uma reunião de esclarecimento. Mirela estava presente quando Sônia leu que o vídeo não representava uma sequência contínua. Ela não pareceu surpresa; pareceu irritada.

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“Ainda assim, Lara foi vista com ele”, Mirela disse.

“E ser vista conversando com alguém agora é prova de crime?” perguntei.

“Ninguém falou em crime.”

“Mas vocês falaram em caráter.”

Ninguém respondeu.

Dois dias antes do espetáculo, Mirela caiu na escada de serviço. Houve gritos, correria e um barulho seco que atravessou o corredor. Quando cheguei, ela estava sentada no degrau, segurando o tornozelo, enquanto duas bailarinas tentavam ajudá-la.

Ela levantou o rosto e me encontrou.

“Foi ela”, disse, apontando para mim. “A Lara me empurrou.”

O mundo ficou silencioso.

“Eu não estava aqui”, falei.

“Você estava atrás de mim.”

“Eu acabei de chegar pelo corredor principal. Tem gente que me viu.”

Mirela começou a chorar, o que fez tudo parecer pior. Alguns colegas olharam para mim com horror antigo, como se o vídeo de Renato tivesse preparado o terreno para que qualquer acusação soasse plausível.

Sônia se aproximou, tensa.

“Lara, precisamos apurar.”

“Claro.” Minha voz estava firme. “Quero a filmagem completa da escada, o registro de limpeza e a lista de quem entrou no andar.”

Mirela me encarou, surpresa demais para esconder.

“Você não vai pedir desculpa?”

“Por algo que não fiz? Não.”

O médico confirmou que Mirela não poderia dançar na apresentação. A coreografia precisava de uma substituta, e Sônia chamou meu nome naquele mesmo dia.

“Você conhece a marcação. Consegue assumir?”

Minha garganta fechou.

Era tudo o que eu queria. Era também o que poderia fazer todos acreditarem que eu tinha motivo para derrubar Mirela.

“Consigo”, respondi. “Mas a investigação continua.”

Na noite do espetáculo, vesti o figurino branco e entrei no palco com as pernas tremendo. As luzes me atingiram. A música começou. E, pela primeira vez desde que eu voltara no tempo, não dancei para ser escolhida por Gabriel, perdoada pela companhia ou aprovada por Célia.

Dancei porque aquele corpo era meu. Porque a vida era minha.

Quando a última nota terminou, o teatro inteiro se levantou.

Nos bastidores, ainda ofegante, eu abracei Sônia. Por alguns segundos, houve aplausos, flores e colegas emocionadas.

Então Mirela surgiu apoiada em muletas.

“Que bonito”, ela disse alto o suficiente para todos ouvirem. “Você conseguiu exatamente o que queria.”

“Mirela…”

“Ela me empurrou! Ela queria meu lugar desde o início!”

As vozes voltaram. Os olhares também.

Mirela ergueu o celular, mostrando uma mensagem apagada pela metade, como se eu tivesse ameaçado tirar o papel dela. Era falsa. Eu reconheci o tipo de montagem, mas não tinha tempo de provar ali.

Sônia pediu silêncio. Eu não gritei. Não implorei.

Levei a mão até a orelha e retirei um dos brincos pequenos que usava por hábito desde o acidente de Renato na outra vida. Naquela manhã, eu tinha transformado o acessório em gravador depois de receber uma mensagem estranha de Mirela pedindo que eu fosse sozinha à escada de serviço.

Segurei o brinco entre os dedos.

“Antes de acusar alguém”, falei, olhando diretamente para ela, “talvez você devesse explicar por que ameaçou a funcionária da limpeza para apagar uma filmagem.”

O rosto de Mirela perdeu a cor.

“Você está inventando.”

“Não.” Apertei o botão minúsculo. “Eu gravei.”

O áudio começou a tocar.

E a primeira voz que ecoou no corredor foi a de Mirela, baixa e furiosa:

“Se a câmera mostrar que eu caí sozinha, você está demitida.”

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