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"A Memória Que Seis Estações Guardaram" Capítulo 11 — Depois da Sexta Estação

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Capítulo 11 — Depois da Sexta Estação

O caso Vértice Labs levou meses para chegar ao tribunal, e nenhum mês foi silencioso.

Houve perícias, depoimentos, famílias descobrindo que a palavra “tratamento” escondia um contrato de exploração. Mauro Saldanha e dois diretores foram denunciados por fraude, violação de dados e cárcere privado em ambiente digital. A empresa perdeu contratos, investidores e a licença para operar sistemas de neuroimersão.

Helena fez acordo de colaboração. Não recebeu absolvição. Entregou os documentos, depôs sobre os bônus e aceitou responder pelos atos que ajudara a encobrir. Quando Lívia a viu no corredor do fórum, Helena não pediu perdão outra vez. Apenas baixou os olhos e seguiu para a própria audiência.

Isso bastava.

Lívia voltou à Unifesp no início do semestre seguinte. Não voltou para fingir que nada acontecera. Voltou para trabalhar com Renata num laboratório dedicado a ética, linguagem e memória em sistemas imersivos. O estágio de digitalização virou bolsa de pesquisa. Ela ajudava sobreviventes a organizar relatos sem transformar dor em espetáculo.

Bruna enviava mensagens de vez em quando. Na primeira, escreveu que tinha voltado a desenhar. Na segunda, mandou uma foto de um ipê amarelo. Na terceira, perguntou se Lívia achava que ela podia prestar vestibular para psicologia.

Lívia respondeu: Pode escolher o que quiser. A sua vida não é uma rotina.

Caio pediu demissão de uma consultoria que ainda trabalhava com tecnologia comportamental. Passou meses colaborando com a investigação, revisando códigos e aceitando que sua participação, mesmo sem intenção, tinha ajudado a construir uma máquina perigosa.

Ele não apareceu na casa de Lívia sem avisar. Não mandou flores como se flores resolvessem culpa. Quando queria vê-la, perguntava.

Em uma sexta-feira de agosto, ela aceitou encontrar-se com ele no pátio de um café perto da universidade.

O ipê da praça estava quase sem flores.

“Você odeia que eu escolha lugares simbólicos?”, ele perguntou, olhando para a árvore.

“Depende. Você planejou isso?”

“Planejei. Mas posso fingir que foi coincidência.”

Ela riu, e o som a surpreendeu por sair tão fácil.

Caio ficou sério outra vez. “Eu não sei qual é o ritmo certo para nós.”

“Nem eu.”

“Então eu não vou fingir que sei.”

Lívia mexeu no copo de café. Durante muito tempo, imaginara que amar alguém significava salvá-lo até perder a própria forma. Agora sabia que amor sem liberdade era apenas outra sala trancada.

“Eu não quero voltar para o que éramos”, disse.

Ele assentiu, embora a resposta doesse.

“Mas talvez eu queira descobrir quem podemos ser, se ninguém tiver de apagar ninguém para sobreviver.”

Caio sorriu devagar. “Isso parece justo.”

“É uma tentativa, não uma promessa.”

“Tudo bem.”

Eles caminharam depois do café, sem mãos dadas no início. Perto da esquina, Caio ofereceu a mão, não como pedido disfarçado, mas como pergunta visível.

Lívia escolheu segurá-la.

Naquela noite, ela abriu o livro azul pela última vez. As páginas estavam em branco, exceto pela primeira, onde sua própria letra dizia:

Não confie nas primeiras respostas. Procure quem ganha quando você esquece.

Ela pegou uma caneta e escreveu abaixo:

E procure quem permanece quando você escolhe lembrar.

Depois fechou o livro, colocou-o numa caixa de arquivos e apagou a luz.

Não havia corredor de escola esperando por ela.

Não havia campainha, nem contagem regressiva, nem uma versão antiga de si mesma pedindo que tudo recomeçasse.

Havia apenas a cidade do lado de fora, barulhenta, imperfeita e viva.

E, pela primeira vez em seis estações, Lívia não precisava salvar ninguém para ter o direito de ficar.

FIM

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