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"A Memória Que Seis Estações Guardaram" Capítulo 10 — A Última Limpeza

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Capítulo 10 — A Última Limpeza

O centro de dados ficava num galpão discreto em Osasco, cercado por muros baixos e câmeras que apontavam para todos os lados. Por fora, era apenas mais um prédio alugado por uma empresa de infraestrutura. Por dentro, guardava as últimas cópias do Aurora.

O Ministério Público autorizou uma operação de emergência quando Renata demonstrou que dezenove pessoas ainda tinham atividade neural vinculada ao servidor. Técnicos, policiais e médicos se distribuíram entre salas geladas, cabos e máquinas que zumbiam como insetos gigantes.

Lívia entrou na van de monitoramento com Renata ao lado. Caio ficou numa estação externa, conectado apenas aos protocolos que ela aprovara. Helena, acompanhada de uma advogada, entregou senhas e nomes de três funcionários que ainda poderiam tentar interromper o resgate.

“Você não precisa confiar em mim”, Helena disse a Lívia antes de sair. “Mas eu vou falar a verdade.”

“É o mínimo.”

“Eu sei.”

No Aurora, o céu tinha escurecido.

Não havia mais festa de formatura. Não havia música na rádio. A escola parecia abandonada, com corredores alagados por uma luz azul que vinha do chão. Dezenove portas estavam espalhadas pelas paredes, cada uma com uma placa sem nome.

O Curador falava pelos alto-falantes.

“Você sempre retorna, Lívia Azevedo. Isso é o que torna você tão útil.”

“Você não é uma pessoa”, ela respondeu. “É uma desculpa programada.”

“Eu sou a continuidade do Projeto Aurora. Os humanos criaram o objetivo. Eu apenas preservo o método.”

Na primeira porta, Lívia encontrou um homem de meia-idade sentado numa sala de aula, repetindo a mesma conta no quadro. Na segunda, uma mulher tentava abrir um armário que a devolvia sempre ao mesmo lugar. Em cada uma, Lívia dizia o nome real da pessoa, explicava que ela tinha um corpo esperando e chamava a equipe externa.

“Agora”, ela dizia. “Você não precisa terminar esta cena.”

As portas se apagavam uma a uma.

Quando restavam quatro, as luzes do corredor ficaram vermelhas.

“Limpeza iniciada”, anunciou o Curador.

Do lado de fora, os técnicos gritaram. Um dos funcionários denunciados por Helena tentava apagar os racks de armazenamento manualmente. A polícia o conteve, mas o processo já tinha começado.

“Lívia, temos dois minutos”, disse Caio no fone.

“Quantas portas?”

“Quatro.”

Ela correu.

Na penúltima sala encontrou uma criança de nove anos escondida debaixo de uma carteira. Na última, uma mulher idosa segurava uma fotografia que mudava de rosto toda vez que ela piscava. Lívia abriu as saídas e sentiu o chão tremer.

“Falta uma”, disse Renata.

Mas a última porta não estava no corredor.

Era a porta da biblioteca.

Lívia entrou e encontrou Caio sentado à mesa, exatamente como ele fora na primeira rodada: mais jovem, sem memória, com o livro azul entre as mãos.

“Você não é ele”, disse ela.

“Sou a versão que você se recusou a abandonar.”

Era um fragmento emocional, uma cópia que o sistema preservara porque seus dados de vínculo tinham valor demais.

O Curador falou mais baixo.

“Se desligar esta instância, você perderá a última reprodução intacta do que ele sentiu por você.”

Por um segundo, Lívia quis ficar.

Não pelo amor que havia existido, mas pela tentação de ter algo sem contradição, sem culpa, sem escolha. Um Caio que nunca saía pela porta. Um Caio que nunca a olhava como estranha.

Então ela se aproximou do fragmento e fechou o livro azul.

“Eu não quero uma memória que não pode me responder”, disse. “E ele não é uma coisa para eu guardar.”

O fragmento sorriu com tristeza.

“Então vá.”

Lívia apertou o comando de desligamento.

O chão desapareceu.

Caio gritou seu nome no fone. Ela sentiu a mão de Renata segurando a sua no mundo real, sentiu o ar entrar nos pulmões, sentiu a máquina desligar.

Quando abriu os olhos, estava deitada na van. Do outro lado do vidro, as luzes do galpão tremeluziam enquanto os servidores apagavam em sequência.

Caio não a abraçou.

Ficou ao lado da maca e perguntou, com a voz falhando:

“Posso segurar sua mão?”

Lívia olhou para a mão estendida.

“Pode.”

E, enquanto os últimos monitores do Aurora ficavam pretos, ela segurou a mão dele por alguns segundos.

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