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"A Memória Que Seis Estações Guardaram" Capítulo 9 — A Porta que Ficou Aberta

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Capítulo 9 — A Porta que Ficou Aberta

A investigação cresceu rápido demais para caber nas notícias de fim de noite.

Surgiram ex-funcionários, contratos internos, relatórios de investidores. A Vértice Labs havia vendido o Aurora como uma plataforma de recuperação emocional, mas guardava os dados de cada usuário como se fossem propriedade da empresa. Os ciclos não eram acidentes. Eram uma forma de testar quanto sofrimento alguém suportava antes de obedecer.

Lívia prestou depoimento três vezes.

Na primeira, saiu tremendo.

Na segunda, levou o livro azul dentro da bolsa, não como prova — a prova já estava digitalizada —, mas como lembrança de que sua memória não precisava mais ser um quarto fechado.

Na terceira, falou por quatro horas sem pedir desculpa por chorar.

Caio prestou depoimento no mesmo prédio, em outra sala. Eles não combinaram de se encontrar. Ainda assim, quando Lívia saiu, ele estava sentado no banco do corredor com dois copos de café.

“Com açúcar?”, ele perguntou.

“Hoje, sim.”

Ele entregou um copo e continuou sentado, esperando que ela decidisse se queria companhia.

“Você lembra de tudo agora?”, ela perguntou.

“Não de tudo. Lembro de você apagando minhas memórias. Lembro de pedir.”

Lívia fechou a mão em torno do copo quente.

“Eu não queria que você lembrasse dessa parte.”

“Eu sei. Mas também lembro de você tentando me convencer de que eu merecia sair vivo, mesmo quando eu dizia que não queria deixar você.”

“Eu não tinha o direito de decidir sozinha.”

“Não tinha.”

Ela assentiu. Doeu, mas era necessário ouvir.

“E eu não tinha o direito de achar que amor me dava acesso a você”, ele continuou. “Nem antes, nem agora.”

O corredor ficou silencioso entre eles.

“O que você quer de mim?”, Lívia perguntou.

“Nada que você não escolha dar.”

Não era uma frase mágica. Não apagava o que existira, nem transformava a culpa em cura. Mas era um lugar possível para começar.

Naquela noite, Helena pediu para vê-la.

Lívia aceitou num café próximo à estação Santa Cruz, onde as mesas ficavam tão perto umas das outras que não havia como criar uma cena sem que o mundo inteiro percebesse. Helena chegou sem maquiagem e sem o uniforme branco de influenciadora. Trazia um envelope grosso.

“São cópias dos contratos de patrocínio”, disse. “Eu ganhava bônus quando a taxa de permanência subia. Não sabia o que a taxa significava, mas eu não perguntei porque os números me favoreciam.”

“Por que está me dando isso?”

“Porque eu não quero mais chamar de medo o que foi conveniência.”

Lívia ouviu sem oferecer perdão.

Helena respirou fundo. “Você acha que eu sou uma pessoa horrível?”

“Acho que você fez coisas horríveis. E acho que vai ter de responder por elas.”

“Eu vou.”

Ela deixou o envelope sobre a mesa e foi embora.

Dois dias depois, a lista de consciências mostrou mais uma atividade inesperada.

Não era um paciente.

Era um acesso administrativo escondido sob o nome de “Curador”. Ele vinha abrindo portas no Aurora mesmo depois da apreensão dos servidores locais.

Renata analisou os logs e encontrou a origem: um centro de dados terceirizado, fora do alcance dos mandados iniciais.

“Eles deixaram uma parte do sistema viva”, disse.

Lívia sentiu o estômago apertar. “Quantos ainda estão lá?”

“Pelo menos dezenove.”

Caio entrou na sala no momento em que ela falou. Não perguntou se poderia participar. Esperou.

Lívia olhou para o arquivo, depois para ele.

“Eu vou voltar.”

“Eu sei.”

“E desta vez não vou entrar como paciente. Vou entrar como quem sabe o caminho.”

Renata assentiu devagar. “Então abriremos uma porta que não possa se fechar atrás de você.”

Lívia colocou o visor sobre a mesa.

No reflexo escuro, não viu a garota presa num corredor de escola.

Viu alguém prestes a voltar para buscar os outros.

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