localização atual: Novela Mágica A Memória Que Seis Estações Guardaram Capítulo 8 — A Verdade Não Cabia no Auditório
标题上

"A Memória Que Seis Estações Guardaram" Capítulo 8 — A Verdade Não Cabia no Auditório

正文开头

Capítulo 8 — A Verdade Não Cabia no Auditório

As primeiras pessoas acordaram ainda naquela tarde.

Não houve sirenes de hospital ou manchetes imediatas. Houve mães que receberam ligações, médicos que não entendiam por que pacientes antes classificados como sem resposta tentavam arrancar sensores dos braços e repetiam o nome de uma escola que nunca existira.

Bruna acordou chorando, chamando por Lívia.

Lívia estava sentada do lado de fora da sala de recuperação, com uma manta sobre os ombros e uma garrafa de água fechada entre as mãos. Ela também tinha sido retirada do Aurora, mas a experiência deixara uma dor insistente atrás dos olhos, como se ainda houvesse uma campainha tocando dentro dela.

Caio permaneceu a alguns passos de distância.

“Você pode ir embora”, ela disse, sem olhar para ele.

“Eu sei.”

“Então por que não vai?”

“Porque eu prometi que ficaria na linha externa. E porque, desta vez, eu não quero desaparecer quando a parte difícil começa.”

Lívia levantou os olhos. Ele parecia cansado, sem a segurança automática que antes confundia com indiferença.

“Não transforme isso numa promessa para mim”, disse ela. “Transforme numa responsabilidade sua.”

“É o que estou tentando fazer.”

Dois dias depois, a Vértice Labs convocou uma coletiva em seu auditório no bairro Vila Mariana. Chamou o caso de “incidente de segurança em ambiente experimental” e enviou convites a influenciadores, investidores e jornalistas selecionados. Helena apareceu no vídeo de divulgação usando um blazer branco e o mesmo sorriso impecável que costumava exibir no Aurora.

Lívia assistiu ao anúncio ao lado de Renata.

“Eles vão controlar a narrativa”, disse Renata.

“Só se a gente deixar.”

Ela não queria voltar ao papel de garota que precisava provar que não estava louca. Não queria depender de Caio, nem da compaixão de um médico, nem do medo de Helena. Por isso pediu para falar na coletiva em seu próprio nome, com a perita, as cópias autenticadas e autorização das famílias de quatro sobreviventes.

Quando entrou no auditório, as câmeras se viraram para ela como olhos.

O diretor executivo da Vértice, Mauro Saldanha, estava no palco. Ao vê-la, perdeu o ritmo por um segundo.

“Lívia Azevedo”, anunciou, forçando cordialidade. “Que bom que está se recuperando.”

“Eu não estava doente”, ela respondeu. “Eu estava sendo usada.”

O auditório se moveu num murmúrio só.

Mauro tentou conduzi-la para uma lateral. “Não é o lugar para—”

“É exatamente o lugar.”

Renata conectou o notebook ao telão. Na tela apareceram os registros do Aurora: batimentos, ciclos repetidos, comandos de limpeza, perfis médicos ocultos sob nomes de personagens. A perita explicou como o sistema mantinha respostas emocionais em repetição para colher dados de comportamento e adesão terapêutica.

Mauro negou. Disse que os arquivos podiam ter sido manipulados.

Então Bruna entrou.

Ela estava com a mãe ao lado e os cabelos presos num rabo de cavalo simples. Tremendo, caminhou até o microfone.

“Eu fiquei presa na terça-feira da formatura”, disse. “Toda vez que eu perguntava pela minha mãe, uma mulher dizia que eu precisava aprender a ser menos difícil.”

Mauro olhou para ela como se procurasse uma maneira de reduzi-la a um erro estatístico.

“Quem era essa mulher?”, perguntou uma jornalista.

Bruna apontou para o telão, onde o avatar da coordenadora surgira num dos arquivos.

Helena estava na primeira fila. Seu rosto empalideceu.

“Essa voz é minha”, ela disse, quase sem som.

O salão ficou quieto.

Lívia a encarou. Helena não parecia mais uma rival dentro de uma simulação. Parecia uma mulher acuada pela consequência de cada coisa que decidira não enxergar.

“Você sabia”, Lívia disse.

Helena apertou os dedos contra a bolsa. “Eu sabia que havia pacientes. Não sabia que eles...” Ela olhou para Bruna. “Eu achei que era um protocolo de estabilização.”

“Você desligou a rádio quando ele tentou falar comigo.”

“Eu estava com medo.”

“E seu medo deu a você o direito de escolher por outras pessoas?”

Helena não respondeu.

Caio estava ao lado da entrada, longe das câmeras até aquele momento. Quando Mauro tentou responsabilizar Lívia por acesso indevido, ele caminhou até o palco.

“O código de proteção foi criado por mim”, disse. “Eu participei da arquitetura de testes antes de entender o que a Vértice escondia. Minha assinatura está em partes do sistema. Eu vou entregar tudo o que tenho à investigação.”

Lívia não sentiu alívio. Sentiu apenas a verdade ocupando, finalmente, o espaço que a mentira tinha tomado.

Do lado de fora, agentes da polícia e representantes do Ministério Público entraram no prédio com mandados de busca.

Mauro tentou sair pela porta lateral.

Lívia o viu ser parado antes de alcançar o corredor.

E, pela primeira vez desde que acordara, ela não teve vontade de correr atrás de ninguém.

下一张上
下一章下

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos:

页面底部