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"A Memória Que Seis Estações Guardaram" Capítulo 7 — Os Nomes que Não Deveriam Existir

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Capítulo 7 — Os Nomes que Não Deveriam Existir

Às oito em ponto, o notebook de Lívia emitiu um som curto, limpo, quase educado.

Na tela, a pasta que Helena havia enviado se abriu sozinha.

Não havia apenas uma lista.

Havia cento e vinte e sete nomes, cada um acompanhado por uma data, um nível de atividade cerebral e uma última conexão com o Projeto Aurora. Alguns estavam marcados como “desligados”. Outros, como “inacessíveis”. Trinta e dois carregavam uma palavra em vermelho: “quarentena”.

Lívia sentiu o ar sumir do quarto da residência onde a Dra. Renata Moura a havia instalado para que não ficasse sozinha naquela primeira semana de volta.

“Isso não é uma lista de usuários”, disse Renata, aproximando-se. “São prontuários mascarados.”

Lívia percorreu os nomes com o dedo, sem tocar na tela. Havia jovens que tinham procurado tratamento para depressão, pessoas em reabilitação após acidentes, estudantes encaminhados por clínicas conveniadas. Todos haviam assinado termos que falavam em “simulação terapêutica assistida”. Nenhum mencionava que suas consciências poderiam ficar presas numa escola que repetia a mesma semana até que alguém decidisse que eles tinham se tornado inúteis.

Então ela viu um código familiar.

NPC-047.

O código que copiara no Núcleo Vértice estava ligado a uma menina de dezessete anos chamada Bruna Martins. Última atividade: três dias antes. Estado: “rotina estabilizada”.

“Ela não é uma personagem”, sussurrou Lívia. “Nunca foi.”

Renata pegou o telefone. “Eu vou chamar o promotor que acompanha a denúncia. Mas não vamos invadir nada sem autorização.”

“Se esperarmos a autorização, eles podem apagar tudo.”

“E se você entrar sozinha, podem apagar você.”

Lívia odiou ouvir aquilo porque era verdade. Mais ainda porque, em outras seis rodadas, ela teria corrido sozinha de qualquer maneira.

O celular vibrou sobre a mesa.

Caio: Estou na portaria. Não subi.

Ela fechou os olhos antes de responder.

Suba. Mas não tome decisões por mim.

Ele chegou minutos depois, segurando um café que não ofereceu e uma pasta impressa que colocou longe dela. O gesto fez Lívia reparar no esforço dele para não ocupar mais espaço do que tinha permissão.

“Helena enviou a lista também para mim”, ele disse. “Ela mandou uma chave de acesso do servidor externo. Disse que, se eu fosse esperto, apagaria a mensagem e esqueceria que recebeu.”

“E você?”

“Eu vim perguntar o que você quer fazer.”

Lívia olhou para a tela. Era uma pergunta simples. Ainda assim, levou alguns segundos para acreditar que ele realmente esperaria sua resposta.

“Quero tirar essas pessoas de lá. E quero que a Vértice não consiga chamar isso de falha técnica.”

Caio assentiu. “Então precisamos de cópias verificáveis, testemunhas e uma porta aberta antes que eles bloqueiem o acesso.”

Renata cruzou os braços. “Eu consigo acionar o comitê de ética da universidade e uma perita independente. Mas alguém terá de provar que o ambiente continua ativo.”

Lívia encarou o reflexo do próprio rosto escuro na tela. O Colégio Aurora a esperava atrás de cada arquivo. As janelas iluminadas, o ipê no pátio, a rádio tocando músicas antigas. Durante tanto tempo, aquele lugar fora uma prisão que apenas ela conseguia nomear.

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“Eu entro”, disse.

Caio deu um passo, depois parou. “Você quer que eu entre com você?”

“Quero que você fique na linha externa. Se eu disser para me puxar, você me puxa. Se eu disser para não entrar, você não entra.”

“Entendido.”

Ele não tentou negociar.

Às nove e vinte, a chave de Helena abriu um túnel remoto para o servidor de testes. Renata gravava cada etapa, enquanto a perita contratada pelo comitê confirmava a integridade das cópias. Lívia colocou o visor sobre os olhos com as mãos frias.

O mundo se dissolveu.

Ela voltou ao pátio do ipê.

O céu era azul demais. As bandeirinhas da formatura balançavam sem vento. Ao longe, uma garota com uniforme cinza estava sentada num banco, abraçada aos próprios joelhos.

“Bruna?”

A menina levantou a cabeça devagar.

“Você é nova aqui?”, perguntou ela. “A coordenadora disse que eu não posso sair até lembrar por que estou triste.”

Lívia sentiu uma raiva tão clara que ela quase parecia luz.

“Você pode sair”, respondeu. “E nós vamos fazer isso agora.”

O alto-falante da escola estalou.

“Interferência narrativa identificada”, anunciou uma voz sem rosto. “Procedimento de limpeza iniciado.”

O pátio ficou vermelho.

Lívia segurou a mão de Bruna e correu para a biblioteca. No fone, a voz de Caio chegou baixa, tensa.

“Lívia, o servidor está fechando rotas. Trinta segundos.”

“Não me puxa ainda. Preciso abrir a saída para ela.”

“Você não tem de provar nada se isso te prender de novo.”

Ela olhou para Bruna, que tremia, mas não soltava sua mão.

“Não estou provando. Estou escolhendo.”

Na porta da biblioteca, o livro azul esperava sobre uma mesa, como se os ciclos nunca tivessem acabado. Lívia o abriu na página marcada e encontrou uma nova frase, escrita com a própria caligrafia:

Quem ganha quando você esquece também perde quando você lembra junto.

Ela colocou a mão sobre a página. O arquivo oculto se abriu. Trinta e duas rotas de saída acenderam no teto da biblioteca.

“Caio”, ela disse, ofegante. “Agora.”

Do lado de fora, ele executou o comando que ela autorizara.

As rotas não fecharam.

Elas começaram a se abrir.

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