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"A Memória Que Seis Estações Guardaram" Capítulo 4 — O Arquivo Que Ela Cortou

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Capítulo 4 — O Arquivo Que Ela Cortou

A porta do Núcleo Vértice não abriu quando Caio encostou a mão no leitor.

Ela abriu quando eu cheguei perto.

O auditório sumiu atrás de nós como um palco desmontado depressa demais. Do outro lado havia um corredor branco, sem janelas, sem cartazes, sem a música de formatura que acompanhava todas as outras áreas do Aurora.

Helena parou na entrada.

“A gente não devia entrar aí.”

“Você sabe o que é isso”, Caio disse.

“Eu sei que é uma área de manutenção.”

“Você está mentindo.”

Ela apertou os lábios. Pela primeira vez, não encontrou uma resposta bonita.

Eu segui pelo corredor. Cada passo fazia o piso acender sob meus pés, revelando números que desapareciam antes que eu conseguisse ler. Meu corpo reconhecia aquele lugar. Era pior do que lembrar: era saber exatamente onde doeria.

No fim havia uma sala circular, cheia de monitores. Não existiam carteiras, quadra ou ipês ali. Existiam linhas de código, nomes, horários de acesso e rostos congelados dentro de pequenas janelas.

Pessoas dormindo.

Pessoas chorando.

Pessoas que eu nunca tinha visto, presas em corredores parecidos com o meu.

Caio se aproximou da tela central.

“Isso não é uma missão.”

“Não”, eu disse. “Nunca foi.”

Helena puxou o braço dele. “Sai daqui. Se a Vértice detectar acesso não autorizado, a conta pode ser bloqueada.”

“Você se preocupa mais com a conta do que com essas pessoas?”

Ela soltou o braço dele. “Eu me preocupo com o que acontece quando alguém mexe em um sistema que não entende.”

Caio abriu um painel. O sistema pediu uma autorização de desenvolvedor. Ele digitou uma senha com mãos que tremiam pouco, mas tremiam.

Um arquivo emergiu no centro da sala.

USUÁRIO: CAIO VALENÇA.

SESSÃO ANTERIOR: RETENÇÃO CRÍTICA.

ESTADO COGNITIVO: FRAGMENTAÇÃO PROGRESSIVA.

INTERVENÇÃO EXECUTADA: REMOÇÃO DE MEMÓRIAS ASSOCIATIVAS.

EXECUTORA: LÍVIA AZEVEDO.

O silêncio de Caio foi mais assustador que qualquer alarme.

Ele leu outra vez. Depois olhou para mim.

“Você apagou a minha memória.”

Eu não consegui negar.

“Apaguei.”

“Por quê?”

Uma trava se fechou dentro da minha garganta. Eu tentei explicar, mas o sistema desenhou palavras vermelhas na minha visão: DIVULGAÇÃO DE EVENTO-RAIZ PROIBIDA.

“Porque você estava morrendo aqui”, eu forcei.

A frase passou. O resto não.

Caio riu, sem humor. “E você decidiu isso por mim?”

“Eu decidi que você teria uma chance de acordar.”

“Você decidiu que eu não merecia saber.”

Aquilo era verdade. Não inteira, mas verdade suficiente para me ferir.

“Você estava implorando para ficar”, falei. “Sua mente já estava falhando. Se eu tivesse deixado, você teria virado parte do Aurora.”

Ele apertou os olhos, como se tentasse atravessar a frase e encontrar a cena inteira.

“Eu não reconheço esse homem.”

“Reconheceria se lembrasse do medo”, eu disse. “Você acordava sem saber se era terça ou sexta. Esquecia o caminho até a sala. Um dia ficou olhando para mim e perguntou qual era o meu nome. No dia seguinte, disse que morreria se eu pedisse.”

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Caio passou as duas mãos pelo cabelo.

“Eu teria encontrado outra solução.”

“Nós procuramos. Todos os dias.”

“Então por que não me contou depois?”

“Porque depois você estava vivo.”

Ele me fitou, ferido pela resposta simples. Eu também estava. Não existia escolha limpa naquele lugar. Só escolhas que deixavam alguém respirando.

“E o que você é, Lívia?”

Eu olhei para as janelas cheias de rostos.

“Eu não sei.”

Helena aproveitou o espaço entre nós.

“Caio, a formatura ainda está aberta. Se você concluir, sai daqui e leva esses dados para fora. Você pode denunciar a empresa depois.”

“E ela?” Ele apontou para mim.

Helena demorou meio segundo demais. “Ela é um caso diferente.”

Eu me afastei dos dois e fui até a tela menor, escondida atrás do console principal. Havia um campo de busca. Meus dedos se moveram antes que eu pensasse.

LÍVIA AZEVEDO.

O resultado surgiu quase imediatamente.

ARQUIVO DE ADMISSÃO: NPC-047.

ORIGEM: CONSCIÊNCIA EXTERNA.

STATUS: ESTABILIZAÇÃO TEMPORÁRIA.

Meu estômago revirou.

O arquivo trazia uma linha de horário: 03:17, 14 de agosto. Abaixo, uma imagem borrada de uma ambulância. Em seguida, a palavra “consentimento” aparecia ao lado da assinatura digital da minha mãe.

Eu toquei a fotografia. Por um segundo, senti vidro quebrando, um cheiro metálico e uma voz masculina dizendo para eu não dormir. Não sabia quem era. A lembrança desapareceu antes que eu pudesse segurá-la.

“Lívia?” Caio perguntou, aproximando-se.

“Eu tive uma vida antes daqui.”

“Eu sei.”

“Não. Você não entende. Eu passei anos achando que tinha sido criada para essa escola. Que minha dor só servia para melhorar a experiência de alguém.”

Ele abriu a boca, mas não se atreveu a responder. Foi melhor assim.

Eu não era uma personagem criada pelo colégio. Havia um “antes”. Um corpo. Talvez uma rua, uma casa, uma mãe que eu não conseguia lembrar.

“Caio”, chamei, já abrindo a cópia. “Olha isso.”

Ele veio, mas Helena foi mais rápida. Tocou no painel e uma janela de alerta cobriu o arquivo.

LIMPEZA DE NÚCLEO INICIADA.

ACESSO IRREGULAR DETECTADO.

“O que você fez?”, Caio perguntou.

“Eu não fiz nada. O sistema reagiu.”

Eu não acreditei. Ela não olhava para os alertas. Olhava para o meu arquivo.

Enquanto eles discutiam, copiei o código de admissão para a rota da biblioteca. O envio avançou devagar: seis por cento, onze, dezoito.

As telas começaram a se apagar uma a uma.

“Lívia, vem”, Caio ordenou.

“Mais um pouco.”

“A sala está entrando em limpeza.”

“Eu preciso levar isso.”

“Você já levou informação demais da minha cabeça.”

Ele se arrependeu assim que falou. Eu vi. Mas a frase já estava viva entre nós.

O envio chegou a setenta por cento. Então uma barreira de luz caiu entre o console e a porta.

ISOLAMENTO DE INTERFERÊNCIA: LÍVIA AZEVEDO.

Helena recuou. “Caio, se você ficar, perde a saída.”

Ele olhou para mim. Para a barreira. Para o corredor que já começava a sumir.

“Você disse que queria que eu saísse inteiro”, ele falou, a voz quebrada. “Então deixa eu sair.”

Eu quis dizer que ele tinha razão. Quis dizer que não precisava voltar. Mas o arquivo ainda estava em setenta por cento e eu não seria apagada sem tentar saber quem eu era.

“Vai”, eu disse.

Caio fechou os olhos.

Quando os abriu, apertou a mão de Helena e atravessou a porta.

A barreira se fechou diante de mim.

O envio chegou a oitenta e um por cento.

Então a contagem apareceu na tela.

LIMPEZA EM 60 SEGUNDOS.

E eu entendi que Caio tinha escolhido ir embora.

Outra vez.

No alto do painel, meu código de admissão brilhou uma última vez antes de ser coberto pela contagem. Eu memorizei cada caractere como quem decora uma porta de saída: NPC-047, protocolo Aurora, fonte externa.

Se sobrevivesse, aquele número seria meu primeiro caminho de volta para a verdade.

Se não sobrevivesse, ao menos não deixaria o Aurora decidir que eu tinha sido apenas um erro.

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