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"A Memória Que Seis Estações Guardaram" Capítulo 3 — A Promessa Sem Lembrança

正文开头

Capítulo 3 — A Promessa Sem Lembrança

O áudio continuou tocando dentro da minha cabeça, mesmo depois de a rádio ficar muda.

Eu volto para você.

Caio repetiu a frase em voz baixa, como se testasse cada palavra.

“Era eu.”

Helena fechou a tela de controle com um gesto brusco.

“Era uma reprodução da sua voz. A Vértice usa modelos de fala em experiências imersivas. Você trabalha com isso, Caio. Sabe que dá para fabricar qualquer coisa.”

“E por que alguém fabricaria isso?”

Ela hesitou. Só por um segundo.

“Para fazer você acreditar nela.”

Eu ainda estava encostada na mesa da rádio. A dor da recalibração tinha diminuído, mas meus dedos continuavam dormentes.

“Não acredita em mim”, falei. “Acredita no que você sentir que é verdadeiro.”

Caio passou a mão no rosto. “Eu não sei o que sinto. Desde que entrei aqui, tenho lembranças que não são lembranças. Um banco no pátio. Você chorando. Uma porta fechando.”

Meu peito apertou.

Helena tomou a frente. “É o simulador confundindo você. O melhor é concluir a formatura e sair.”

O sistema concordou com ela antes que eu pudesse responder.

ETAPA FINAL DA FORMATURA DISPONÍVEL.

VALIDAÇÃO DE DUPLA DE FORMANDOS OBRIGATÓRIA.

LOCAL: AUDITÓRIO.

Helena sorriu, aliviada. “Viu? É isso. A gente termina, volta para casa e você conversa com alguém fora daqui.”

Caio não sorriu.

O auditório ficava no prédio mais antigo do Aurora. As paredes tinham painéis de madeira e fotografias de turmas que jamais existiram. Quando chegamos, uma faixa azul surgiu sobre o palco: FORMATURA AURORA — UM NOVO COMEÇO.

Eu me senti enjoada.

Na rodada em que Caio tinha ficado comigo, ele dizia odiar aquela frase. Falava que novo começo era uma mentira se o sistema decidisse quem podia ir embora.

No centro do palco, duas cadeiras estavam lado a lado. Caio e Helena foram guiados para elas por luzes no chão.

Eu recebi uma terceira marca luminosa, perto de uma mesa com documentos.

TESTEMUNHA DESIGNADA: LÍVIA AZEVEDO.

Helena percebeu antes de mim.

“Que dramático.” Ela riu. “A personagem suspeita vai confirmar nossa saída.”

Caio lançou um olhar rápido para ela.

“Não chama ela assim.”

“Ela foi denunciada por interferência, Caio.”

“E a denúncia falhou.”

Eu não agradeci. Não queria transformar uma migalha de dúvida em esperança.

Uma tela apareceu sobre a mesa.

DECLARAÇÃO DE VÍNCULO DE FORMATURA.

JOGADOR 1: CAIO VALENÇA.

JOGADORA 2: HELENA DUARTE.

CONFIRMAÇÃO EXIGIDA PARA LIBERAÇÃO DE SAÍDA.

Embaixo, havia uma linha reservada à assinatura da testemunha.

Quando meus olhos tocaram as letras, outra camada de informação vazou pelo documento, quase invisível:

VÍNCULO ANTERIOR EM QUARENTENA.

SUBSTITUIR CONFIRMAÇÃO IRREVERSÍVEL.

Foi como voltar à sala de controle. Como ouvir Caio suplicar para ficar enquanto os indicadores da mente dele chegavam ao vermelho. Como sentir minha própria mão tremendo sobre o comando que apagaria de mim tudo o que ele amava.

“Você não precisa assinar agora”, Caio disse.

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Eu o encarei.

“Preciso?”

Ele olhou para a tela, depois para a saída iluminada no fundo do auditório. “Parece que sim.”

Helena cruzou os braços. “É só um procedimento. Não torna ninguém dono de ninguém.”

Ela dizia aquilo com a facilidade de quem nunca tivera algo arrancado de dentro da cabeça.

“Não é só um procedimento”, eu falei.

“Então explica.”

O sistema pressionou o aviso sobre a minha visão, vermelho como sangue.

MEMÓRIA RESTRITA. NÃO RESPONDER.

Caio percebeu meu silêncio e interpretou do jeito mais fácil.

“Você está tentando atrasar a gente de novo?”

A pergunta atingiu em cheio. Ainda assim, eu respirei fundo.

“Estou tentando garantir que você saia inteiro.”

“Inteiro de quê?”

Eu queria dizer: de mim. Do Aurora. Da parte de você que decidiu morrer numa escola sem saída por uma garota que o sistema chamava de erro.

Mas aproximei a caneta do papel.

Antes de assinar, deixei o polegar correr pela borda da mesa. Uma fresta se abriu, a mesma que eu descobrira no terceiro ciclo. Dentro havia um compartimento de manutenção ligado à biblioteca. A cópia do livro azul podia ser enviada por ali, se eu conseguisse alguns segundos.

“Lívia”, Caio chamou, num tom diferente. Menos exigente. “O que você vai perder se fizer isso?”

Eu levantei os olhos.

“Uma coisa que você não se lembra de ter me dado.”

Ele ficou pálido.

Helena se inclinou para ver o documento. No mesmo instante, eu pressionei a aba escondida com a unha. O arquivo da rádio, o registro de proteção e a nota do anuário foram compactados na tela menor, sob a mesa.

ENVIAR PARA BIBLIOTECA — ARQUIVO RESTRITO.

Eu confirmei.

Lá fora, uma lâmpada da biblioteca piscou três vezes. Era o sinal de que a cópia existia em algum lugar além de mim.

Só então assinei meu nome.

A tinta desapareceu do papel e reapareceu no ar, enorme.

TESTEMUNHA CONFIRMADA.

VÍNCULO DE FORMATURA VALIDADO.

Caio e Helena receberam pulseiras azuis. A de Caio acendeu, depois falhou por meio segundo.

Ele apertou o pulso, assustado.

“Eu vi...”

“O quê?”, perguntei, antes de conseguir me conter.

Seus olhos se fixaram em mim.

“Você.”

O auditório escureceu. Nas paredes, as fotos das turmas começaram a trocar de rosto. Por trás da imagem atual de Caio e Helena, surgiu outra: nós dois no banco do pátio, um Caio diferente segurando minha mão como se o mundo fosse acabar se soltasse.

Helena correu até o painel lateral e apertou comandos sem cuidado.

“É um bug visual.”

“Para”, Caio disse.

Ela continuou. “Se a Vértice detectar corrupção de vínculo, pode encerrar a sessão inteira.”

“Helena, para.”

Pela primeira vez, ele não soou confuso. Soou furioso.

Ela congelou, mas já era tarde. A foto se apagou e deu lugar a uma frase fria no alto do palco.

VÍNCULO ANTERIOR NÃO EXCLUÍDO.

STATUS: EM QUARENTENA.

Caio deu um passo na minha direção.

“O que significa quarentena?”

O chão vibrou. Uma sirene grave começou a tocar debaixo do auditório.

Eu olhei para a porta de serviço atrás do palco, que agora exibia uma placa vermelha que eu nunca tinha visto nos ciclos anteriores.

ACESSO RESTRITO: NÚCLEO VÉRTICE.

O último item da formatura não estava em uma gaveta, nem atrás de uma árvore, nem em qualquer cenário repetido.

Estava onde o Aurora escondia tudo o que não queria que ninguém lembrasse.

E, enquanto Caio tentava ler o meu rosto, Helena fechou a mão sobre o próprio celular virtual.

Pela primeira vez, ela pareceu ter medo de verdade.

Eu guardei esse detalhe comigo. Helena podia chamar tudo de bug, missão e efeito visual. Mas ninguém tremia daquele jeito diante de uma simples partida.

Ela sabia onde aquela porta levava.

E talvez soubesse por que Caio tinha voltado para o Aurora justamente agora.

Caio deu mais um passo, mas eu recuei. Não por medo dele. Por medo do que uma única lembrança devolvida podia fazer comigo.

Eu tinha passado seis estações aprendendo a não esperar. Ainda assim, quando ele disse meu nome, uma parte de mim quis acreditar que a promessa sobrevivera ao apagamento.

Não podia permitir que essa parte decidisse por mim.

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