localização atual: Novela Mágica A Memória Que Seis Estações Guardaram Capítulo 2 — A Garota Marcada como Erro
标题上

"A Memória Que Seis Estações Guardaram" Capítulo 2 — A Garota Marcada como Erro

正文开头

Capítulo 2 — A Garota Marcada como Erro

Helena esperou Caio se afastar alguns passos para abrir a própria tela de controle.

Eu vi pelo reflexo do vidro da biblioteca. Jogadores achavam que personagens não percebiam essas coisas. Achavam que nós existíamos apenas quando precisavam de uma resposta.

“Você não acha isso estranho?” ela perguntou, baixa, mas alta o suficiente para eu ouvir. “Uma aluna que sabe todas as missões, uma permissão antiga no seu nome e um sistema tratando ela como prioridade máxima?”

Caio ficou calado.

“Você disse que sonha com esse lugar desde adolescente. E se ela for o motivo?”

“Lívia não parece perigosa.”

“É exatamente o que uma interferência bem feita pareceria.”

Eu continuei andando, fingindo que buscava um livro numa estante vazia. A biblioteca do Aurora tinha milhares de lombadas e quase nenhum conteúdo real. Só alguns títulos podiam ser abertos. O resto era cenário.

Minha mão encontrou o volume de capa azul escondido entre dois anuários. Era um dos poucos lugares onde eu tinha deixado mensagens antes de cada reinicialização.

Não confie nas primeiras respostas. Procure quem ganha quando você esquece.

Eu não lembrava de ter escrito aquilo. A caligrafia era minha, mas uma Lívia de outro ciclo, talvez mais corajosa, tinha deixado o aviso.

“O que você está escondendo?”

Caio estava atrás de mim.

Fechei o livro depressa.

“Nada.”

Ele tomou o volume das minhas mãos. Seus dedos não tocaram os meus, mas ficaram perto demais.

“Você sabe o que é essa permissão?”

O sistema brilhou na minha visão: RESTRIÇÃO DE MEMÓRIA ATIVA.

Eu sabia. Sabia que ele tinha me protegido quando a escola inteira começou a apagar. Sabia que ele tinha ficado comigo até a mente dele se fragmentar. Sabia que fui eu quem ligou os cabos, pressionou o comando e escolheu que ele acordaria sem mim.

Mas minha voz só alcançou a primeira frase permitida.

“É uma escolha sua.”

Caio riu uma vez, sem alegria.

“Eu não lembro de você.”

“Isso não significa que você não escolheu.”

Helena puxou o livro da mão dele e folheou as páginas.

“Isso não prova nada. Pode ser um texto gerado para manipular você.”

“Tudo aqui pode ser gerado”, eu respondi.

Ela me lançou um olhar duro. “Inclusive você.”

O sino tocou outra vez. Uma nova missão ocupou os painéis.

ITEM NECESSÁRIO: CHAVE DO AUDITÓRIO.

PISTA: RÁDIO ESCOLAR.

Helena sorriu, satisfeita.

“Pronto. Vamos ver se a nossa guia sabe também onde está essa.”

Eu não respondi. Peguei minha mochila e fui em direção ao corredor da rádio.

Caio me acompanhou, e Helena veio logo atrás.

“Você está indo mesmo sem ela dizer nada?”, Helena questionou.

“Ela já está indo para a rádio”, Caio disse. “É uma pista melhor do que ficar parado.”

O corredor tinha lâmpadas que piscavam quando o Aurora ficava instável. Duas piscaram. Depois três.

Na porta da rádio havia um painel antigo com botões coloridos. Eu conhecia o código: 4, 1, 4, 8. Era a data em que Caio me encontrou escondida no depósito, durante a primeira simulação em que conseguimos falar sem as falas prontas.

正文1

Dessa vez, porém, não toquei no painel.

“A chave está atrás do gravador”, eu disse.

Helena soltou um suspiro teatral.

“Claro que está.”

Caio moveu o gravador de fita e encontrou uma chave de latão presa com fita adesiva. A confirmação da missão soou, mas ele não comemorou.

“Como você sabia?”

Eu me aproximei da mesa da rádio. Havia um pequeno microfone preso a um cabo azul, e um espaço quase invisível na lateral da madeira. Enquanto eles discutiam, deslizei o livro azul ali dentro. Não era segurança, mas era uma chance.

“Eu escuto o que acontece aqui”, respondi.

“Você escuta tudo?” Helena perguntou.

“O suficiente.”

Ela se aproximou de Caio, baixando a voz.

“É isso. Ela está usando informação do sistema. Marca como interferência e a gente faz as missões sem ela.”

Eu vi a hesitação atravessar o rosto dele.

“Caio”, falei.

Ele levantou os olhos.

“Não faça isso.”

“Então me diga a verdade.”

O aviso voltou, mais agressivo: RESTRIÇÃO DE MEMÓRIA. DIVULGAÇÃO NÃO AUTORIZADA.

Minha garganta ardeu.

“Eu não posso.”

“Não pode ou não quer?”

“As duas coisas não são iguais.”

“Para mim são”, ele disse, e aquilo foi pior do que um grito.

Helena abriu o painel. Uma lista de opções flutuou diante dela.

DENUNCIAR PERSONAGEM. MOTIVO: INTERFERÊNCIA NARRATIVA.

“Você não precisa fazer isso”, eu insisti.

Caio olhou para a tela. Depois para a chave. Depois para mim.

“Se você está ajudando, por que cada resposta sua abre mais perguntas?”

Porque eu te amei o bastante para te esquecer de mim.

As palavras ficaram presas atrás dos dentes.

Ele tocou no botão de confirmação.

O mundo ficou branco.

Uma descarga atravessou meu corpo, começando na nuca e descendo pelos braços. Eu me apoiei na mesa da rádio para não cair. As luzes do corredor apagaram e voltaram numa sequência errada.

PERSONAGEM LÍVIA AZEVEDO CLASSIFICADA COMO INTERFERÊNCIA NARRATIVA.

RECALIBRAÇÃO INICIADA.

Caio deu um passo na minha direção.

“Lívia?”

Eu queria aceitar a mão dele. Mas se ele encostasse em mim, se a permissão antiga reagisse, Helena entenderia que havia mais do que uma missão entre nós.

“Não toca em mim”, eu consegui dizer.

Helena observava com uma atenção fria demais para alguém que estivesse apenas jogando.

“É uma reação visual. Faz parte.”

“Não parece fazer parte”, Caio rebateu.

Antes que ela respondesse, o painel da rádio estalou. Um arquivo que não devia existir surgiu sozinho na tela preta.

ARQUIVO DE VOZ: ORIGEM NÃO IDENTIFICADA.

Caio apertou reproduzir.

Primeiro veio estática. Depois, uma respiração ofegante. Eu reconheci o som antes da voz, porque tinha ouvido aquilo muitas noites depois de acordar sozinha naquela escola.

“Se você está ouvindo isso... então eu falhei de novo.”

Caio ficou imóvel.

Era a voz dele. Mais jovem, quebrada, mas inconfundível.

“Lívia, não importa o que o sistema faça com a minha memória. Eu volto para você.”

Helena avançou e desligou o áudio.

“Isso é uma gravação adulterada.”

Mas Caio não olhava para ela. Olhava para mim como se alguma parte dele tivesse acabado de acordar em pânico.

O painel mudou de cor.

RECALIBRAÇÃO CANCELADA.

MOTIVO: PERMISSÃO PERSISTENTE DO JOGADOR CAIO VALENÇA.

Helena respirou fundo, irritada.

Eu, ainda tremendo, fui até a mesa e apertei o botão de transmissão geral.

“A próxima pista está no arquivo da rádio”, eu anunciei para todo o colégio, antes que alguém pudesse me calar. “E algumas histórias foram apagadas porque alguém tinha medo de que fossem ouvidas.”

Então arranquei o microfone do cabo.

Pela primeira vez em seis ciclos, eu não tinha apenas sobrevivido à punição.

Eu tinha deixado uma marca.

Quando saí da rádio, o corredor parecia menor do que antes. Os alunos passavam por mim com sorrisos de rotina, carregando apostilas que nunca liam e planos para um futuro que o Aurora apagaria ao final da semana.

Eu não podia salvá-los todos. Talvez nem pudesse salvar Caio outra vez.

Mas a mensagem tinha sido enviada. Em algum ponto escondido da escola, uma cópia da minha voz ainda existia. E isso era mais liberdade do que eu tinha tido ao acordar naquela manhã.

下一张上
下一章下

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos:

页面底部