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"A Memória Que Seis Estações Guardaram" Capítulo 1 — A Aluna Que Nunca Se Formava

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Capítulo 1 — A Aluna Que Nunca Se Formava

O sino tocou às sete e vinte, exatamente como nas outras cinco vezes.

Não era um sino de verdade. Era um som limpo demais, repetido demais, saindo de caixas invisíveis presas no céu sem nuvens do Colégio Aurora.

Eu abri os olhos sobre a carteira da sala 3-B, com a bochecha marcada pelas linhas do caderno e a mesma certeza atravessada no peito: era segunda-feira. Semana de formatura. De novo.

Na lousa, a professora Dalva escreveu em letras perfeitas: BEM-VINDOS À ÚLTIMA SEMANA DO AURORA.

Ela nunca errava o acento. Nunca tossia. Nunca mudava a cor do esmalte vermelho.

Eu olhei pela janela. O ipê-amarelo do pátio estava coberto pelas mesmas flores de cada ciclo. Nem uma a mais, nem uma a menos.

Seis estações. Seis formaturas. Seis vezes fingindo que aquela escola tinha futuro.

Na primeira, eu achei que o mundo era tudo o que existia: a cantina, a biblioteca, a rádio, o portão azul e a rua que desaparecia sob uma névoa branca se alguém tentasse ir longe demais.

Na segunda, eu descobri que as paredes piscavam quando ninguém estava olhando.

Na terceira, eu descobri que eu podia lembrar.

Na quarta, eu conheci Caio Valença.

Na quinta, eu apaguei da mente dele tudo o que tinha vivido comigo para que ele não morresse preso ali.

E, naquela sexta vez, ele estava voltando.

“Lívia Azevedo?”

A professora Dalva me chamou sem tirar os olhos do diário eletrônico. “Você poderia, por gentileza, explicar à turma por que a data de hoje é importante?”

A resposta programada apareceu diante de mim, transparente, como uma legenda: “Porque a cerimônia de conclusão celebra um novo começo.”

Minha boca se moveu antes que eu pudesse impedir.

“Porque a cerimônia de conclusão celebra um novo começo.”

As cadeiras vibraram com uma risada coletiva. Era uma reação inserida no Aurora para tornar a sala mais viva. Eu sabia disso. Ainda assim, doeu.

A porta se abriu.

O ar parou dentro dos meus pulmões.

Ele entrou usando o uniforme cinza do colégio, uma mochila escura pendurada em um ombro e um atraso tranquilo no rosto. O cabelo castanho estava um pouco comprido sobre a testa. Os olhos, de um verde apagado, varreram a sala como se procurassem algo que não conseguia nomear.

Caio.

Meu Caio, e ao mesmo tempo um completo desconhecido.

Em outra vida, ele tinha me ensinado que chuva de verdade fazia barulho diferente da chuva programada. Tinha sentado comigo na arquibancada do ginásio e jurado que encontraria uma saída para nós dois. Tinha ficado quando deveria ter ido embora.

Eu tinha escolhido arrancar de dentro dele todas as lembranças de mim.

Agora, ele parou ao lado da professora.

“Desculpa o atraso. O aplicativo me mandou para o portão errado.”

A frase fez alguns alunos sorrirem. A professora Dalva aceitou a justificativa com um aceno calculado.

正文1

“Caio Valença, novo aluno. Sente-se ao lado de Lívia. É o único lugar disponível.”

Meu coração, que não deveria obedecer a nenhuma programação, bateu com força demais.

Ele veio até mim. Quando puxou a cadeira, seus dedos tocaram a mesa. A madeira brilhou por um milésimo de segundo, como se o Aurora tivesse engasgado.

Caio se sentou e me lançou um olhar educado.

“Oi. Sou Caio.”

Eu queria dizer que sabia. Queria perguntar se ainda doía sonhar com um pátio que não existia. Queria pedir desculpas por ter escolhido a sobrevivência dele em vez da nossa.

Mas só consegui responder:

“Lívia.”

Ele franziu levemente a testa.

“Lívia...”

O nome ficou suspenso entre nós. Por um segundo, os olhos dele perderam o foco. A mão se fechou sobre a caneta.

Então ele piscou, e a expressão desapareceu.

“Bonito nome.”

Era a mesma frase que ele tinha dito quando me encontrou pela primeira vez, na quarta rodada, quando eu ainda não possuía um nome completo.

Eu baixei os olhos antes que ele visse o que aquilo fez comigo.

O intervalo chegou às nove e quarenta. Eu sabia porque sempre chegava às nove e quarenta, mesmo quando nenhum relógio da escola marcava esse horário.

Caio saiu da sala cercado por dois colegas roteirizados. Eu fiquei para trás, fingindo organizar folhas. Não devia me aproximar. Quanto menos ele se lembrasse de mim, mais seguro estaria.

Foi quando uma garota entrou atrasada pela porta lateral, sem uniforme e sem pedir licença.

Helena Duarte usava uma jaqueta branca, tênis caros e um sorriso brilhante demais para aquela sala. Ela não pertencia ao fluxo normal do Aurora. Jogadores sempre carregavam alguma imperfeição: uma escolha inesperada, um cheiro de perfume, uma irritação que não vinha do roteiro.

Helena tinha todas.

“Caio!” Ela chamou pelo corredor. “Você não atende mensagem nenhuma, sério?”

Ele voltou, surpreso.

Ela abraçou seu braço como se aquilo fosse habitual.

“A gente caiu na mesma turma. Que sorte.”

Caio sorriu por reflexo, mas seus olhos vieram até mim por uma fração de segundo.

“Helena é minha namorada”, ele explicou, talvez porque achasse que eu tinha perguntado.

Eu não tinha.

Helena me examinou de cima a baixo.

“Você é a Lívia? A menina que dá as dicas? Vi num fórum que esse simulador tem personagens que parecem muito espertos.”

“Não acredito em fóruns”, Caio disse, ainda observando meu rosto.

“Mas você entrou aqui justamente porque anda sonhando com o Aurora.” Ela apertou o braço dele. “Você quer descobrir por quê.”

Minha garganta fechou. Eu não sabia que ele sonhava. Talvez as memórias apagadas não tivessem sumido. Talvez apenas esperassem, escondidas, por uma falha no sistema.

O alarme do colégio soou três vezes.

Uma janela azul surgiu diante de todos os alunos jogadores.

MISSÃO DE FORMATURA: RECUPERAR A PÁGINA AUSENTE DO ÁLBUM DA TURMA.

LOCALIZAÇÃO: PÁTIO DO IPÊ.

Helena leu e deu uma risadinha.

“Começou. Vamos logo antes que outro casal pegue a pontuação.”

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Eu devia deixá-los ir. Era o que fizera durante os dois ciclos anteriores: evitar, observar, sobreviver.

Mas Caio nunca tinha chegado à semana de formatura com Helena ao lado. E eu conhecia os desvios. Conhecia as partes do Aurora que chamavam de missão e escondiam armadilhas.

“Não procurem perto da fonte”, eu disse.

Os dois se viraram.

Helena arqueou uma sobrancelha.

“E por que não?”

“Porque a fonte é uma rota de distração.”

Eu tinha falado demais. O aviso vermelho pulsou no canto da minha visão: COMPORTAMENTO NÃO PREVISTO.

Caio me encarou.

“Você sabe onde está?”

“Sei onde não está.”

Fui para o pátio antes que eles pudessem fazer mais perguntas. O ipê lançava pétalas no chão de cimento, sempre na mesma sequência. Atrás do banco de madeira havia uma abertura estreita. Na primeira vez que Caio encontrou a página, ele se cortou no metal enferrujado tentando alcançá-la.

Dessa vez, eu me ajoelhei e a retirei antes.

“Aqui”, falei, estendendo a folha amarelada.

Helena pegou o papel primeiro.

“Que conveniente.”

Caio não respondeu. Ele olhava para o corte inexistente na própria palma, como se o corpo lembrasse de uma ferida que nunca tivera.

O sistema confirmou a etapa concluída. Antes que a próxima missão surgisse, três rapazes da equipe de futsal se aproximaram pela lateral da quadra. Eu os reconheci: não eram alunos. Eram um evento de pressão, programado para bloquear a passagem de quem portasse a página.

“Entrega isso aí”, disse o que vinha na frente.

Helena riu sem humor. “Isso é parte do jogo?”

“Vai embora”, respondi, já calculando as rotas.

O garoto segurou meu pulso.

Caio se moveu antes de mim.

Ele tirou a mão dele da minha com um golpe seco, mas sem brutalidade. Ficou na minha frente, o ombro tenso.

“Ela disse para ir embora.”

O tom era baixo. Familiar.

Os rapazes hesitaram, como se uma linha de código tivesse recebido uma ordem contrária. Depois se afastaram, dissolvendo-se na multidão do pátio.

Meu pulso ainda queimava onde ele tinha sido segurado.

Caio virou-se para mim.

“Você está bem?”

Eu deveria ter dito sim e ido embora. Em vez disso, encarei os olhos dele e senti a saudade quase me destruir.

“Estou. Obrigada.”

Uma tela surgiu entre nós, visível apenas para ele e Helena.

Helena leu primeiro. O sorriso dela morreu.

REGISTRO RECUPERADO: JOGADOR CAIO VALENÇA.

PERMISSÃO PERSISTENTE: PROTEGER LÍVIA AZEVEDO.

NÍVEL DE PRIORIDADE: MÁXIMO.

Caio empalideceu.

“Eu não coloquei isso”, ele disse.

Helena olhou para mim, sem esconder a desconfiança.

“Então alguém colocou por você.”

E, pela primeira vez desde que ele voltara, eu entendi que Helena não queria apenas descobrir o segredo do Aurora.

Ela queria decidir qual versão de mim Caio teria permissão de acreditar.

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