"O Piloto Que Me Perdeu Entre as Nuvens" Capítulo 4 — A Casa Que Não Era Mais Minha
Capítulo 4 — A Casa Que Não Era Mais Minha
Gabriel estava encostado na parede da delegacia quando Helena chegou.
Ela ainda usava a tipoia do hospital. O ombro doía a cada passo, mas a dor parecia pequena perto da imagem da mãe sentada numa cadeira de plástico, segurando um celular que não era dela.
Lúcia repetia a mesma frase:
“Ela estava ligando para ele. Eu precisava impedir.”
Camila também estava ali.
Helena percebeu o perfume antes de vê-la. A consultora vestia um conjunto bege impecável e mantinha os braços cruzados, como se a situação fosse apenas um inconveniente entre dois compromissos.
“Sua mãe pegou meu celular”, ela explicou. “Eu estava falando com Gabriel.”
Helena respirou fundo.
“Eu assumo o que for necessário.”
“Não quero dinheiro.” Camila inclinou a cabeça. “Só quero que ela receba cuidado. Da próxima vez, alguém pode se machucar de verdade.”
Gabriel lançou um olhar rápido para Helena, mas ela se recusou a procurar conforto nele.
Na saída, ele tentou pegar a bolsa dela.
“Eu levo vocês.”
“Não.”
“Helena, sua mãe não está bem e você acabou de sofrer um acidente.”
“Eu sei exatamente como minha vida está.”
Lúcia, ao ouvir a voz da filha, ficou calma por alguns minutos. Helena aproveitou para assinar os papéis, registrar o ocorrido e pedir orientação sobre atendimento social. Não desistiu da ocorrência. A atendente explicou que, devido ao quadro clínico da mãe, seria necessária avaliação médica e familiar, mas que Helena podia formalizar o histórico de agressões.
Ela formalizou.
Foi a primeira vez que escreveu, numa declaração, que Lúcia a havia machucado.
No carro, Gabriel insistiu em dirigir. Helena aceitou porque Lúcia não parava de perguntar por uma casa que não existia mais.
“Eu não vou voltar para a tia Sônia”, Helena disse quando chegaram ao prédio. “Amanhã vou levar minha mãe para o apartamento da Vila Mascote.”
Gabriel fechou a porta do carro devagar.
“Você não precisa fazer isso sozinha.”
“Mas estou fazendo.”
No dia seguinte, Helena organizou uma planilha com os gastos, os remédios, as consultas e os contatos de emergência. Separou roupas, adaptou o quarto pequeno e contratou uma cuidadora por turno. Quando Gabriel apareceu com duas caixas de mantimentos, ela não agradeceu automaticamente.
“A porta estava aberta?”
“A cuidadora deixou eu entrar.”
“Isso não é sua casa.”
Ele pousou as caixas no balcão.
“É o apartamento que vai ficar para você.”
“Então é meu. Não seu favor.”
O rosto dele endureceu. Helena o viu olhar para a aliança em sua mão.
“Você ainda usa isso. Para quê? Para o Caio achar que existe alguma chance?”
O silêncio que se seguiu foi tão gelado que Lúcia levantou os olhos do sofá.
Helena tirou a aliança do dedo, não para obedecer a Gabriel, mas porque finalmente entendeu o que ela pesava.
“Você realmente acredita que meu trabalho depende de um homem me notar?”
“Não foi isso que eu disse.”
“Foi exatamente o que disse. Você despreza tudo que eu construí porque é mais fácil do que reconhecer que eu era boa antes de você me deixar entrar na sua vida.”
Gabriel abriu a boca, mas não encontrou resposta.
Helena colocou o anel numa caixinha sobre o balcão.
“Eu vou assinar o divórcio. E vou cuidar da minha mãe. Mas você não entra aqui para me humilhar de novo.”
Ele saiu sem responder.
Naquela noite, Caio apareceu com sopa, uma sacola de frutas e um jeito cauteloso de quem não queria invadir nada.
“A enfermeira disse que você não pode fingir que o ombro não existe”, ele falou.
Helena riu pela primeira vez em dias.
Lúcia adormeceu depois do remédio. Na cozinha, Caio observou a caixinha com a aliança.
“Você e o Gabriel...”
“Somos casados. Por mais alguns dias.”
Ele ficou pálido.
“Eu devia ter te contado uma coisa há muito tempo.”
Helena parou de mexer na sopa.
Caio explicou que, na confraternização da empresa, três anos antes, Gabriel e Helena haviam bebido demais. Um colega colocara Helena num quarto para ela descansar; Caio, procurando outro quarto para Gabriel, o deixara ali por alguns minutos. Depois alguém ofereceu mais bebida, a confusão cresceu e, quando os dois acordaram juntos, a situação já tinha sido interpretada da pior maneira.
“Eu tentei falar com ele no dia seguinte”, Caio disse. “Mas ele estava furioso. E você disse que gostava dele... Eu achei que vocês resolveriam.”
Helena sentiu uma dor diferente da do ombro.
“Você sabia que eu não tinha armado aquilo?”
“Eu sabia que não parecia coisa sua.”
Antes que ela respondesse, um estrondo veio do quarto.
Lúcia estava de pé, segurando uma luminária. Os olhos dela pareciam não reconhecer ninguém.
“Você quer me abandonar!”, gritou.
Helena tentou se aproximar devagar.
“Mãe, eu estou aqui.”
O golpe veio rápido.
A luminária acertou a testa de Helena. Ela caiu de joelhos, sentindo o sangue escorrer pelo rosto.
Caio chamou emergência. Helena, atordoada, ainda ouviu Lúcia chorando no quarto ao lado.
E pela primeira vez não sentiu apenas pena.
Sentiu medo.
No hospital, Helena recusou que Gabriel fosse chamado. Pediu a Caio que ligasse apenas para a assistente social. Ainda com a gaze na testa, respondeu às perguntas da polícia e autorizou que a equipe médica registrasse a agressão.
Depois, sentada no corredor, ouviu Caio dizer que sentia muito.
“Não foi você que me bateu”, ela respondeu.
“Mas eu calei uma verdade que teria mudado tudo.”
Helena fechou os olhos. “Então não cale mais.”
Ela passou a madrugada telefonando para a instituição e para a defensoria. Não queria abandonar Lúcia; queria impedir que as duas continuassem presas numa dinâmica em que amor significava sobreviver ao próximo ataque.
Quando o dia amanheceu, Helena assinou a autorização para uma internação temporária e para acompanhamento psiquiátrico. A mão doía, o ombro latejava, mas a assinatura saiu firme.
Gabriel apareceu no fim da manhã. Trazia café e uma expressão fechada.
“Soube que você estava aqui.”
“Quem te contou?”
“Caio.”
“Então você já sabe que ele tinha uma verdade para contar.”
Gabriel ficou em silêncio. Helena percebeu que ele ainda não queria ouvir nada que mexesse na versão confortável que tinha criado sobre ela.
“Não vim discutir”, ele disse.
“Ótimo. Porque eu não tenho mais energia para pedir que você me enxergue.”
Ele deixou o café sobre a mesa e foi embora. Helena observou a porta fechada, sentindo tristeza, mas não aquela tristeza antiga que a fazia correr atrás dele. Era uma tristeza limpa, quase uma despedida.
Na semana seguinte, ela recebeu a confirmação de que Lúcia seria acolhida numa instituição especializada. Antes de sair do apartamento, Helena guardou a aliança numa gaveta e colocou uma cópia da ocorrência policial junto dos documentos médicos.
Ela não estava desistindo da mãe.
Estava escolhendo sobreviver a ela.
E, pela primeira vez, Helena acreditou que isso não a fazia uma filha ruim.
Ela pegou o celular, abriu a escala de voos e solicitou formalmente uma transferência temporária, justificando necessidade médica e familiar. Não esperou Gabriel aprovar, comentar ou impedir. Quando recebeu o protocolo, salvou uma cópia na pasta azul. Era pequena coisa, mas era dela.
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 5
Papai bilionário do bebê
Uma noite de amor que jamais seria esquecida. Ela dormiu com um bilionário. Apenas Jessica não sabia disso na época, outra coisa que ela não sabia é que, ao sair daquele apartamento de luxo, ela carregaria o herdeiro de uma empresa multibilionária.Moderno08 9 -
TerminadoCapítulo 4
Paixão e Domínio: Ex-esposa do CEO
Tudo o que pode levar é um escândalo para despedaçar uma história de amor de 15 anos. Conheça os Barnes. Angelina (Angel) e James Buchanan Barnes IV (Bucky). Seu romance antes de conto de fadas foi destruído. Mas quando a verdade vier à tona, eles serão capazes de reparar o estrago ou estará tão danificado que não poderá ser consertado?Moderno08 11 -
TerminadoCapítulo 2
Depois do falecimento do meu marido, eu enfrentei a amante com astúcia
Meu marido Joaquim sofreu um acidente de carro, ficou gravemente ferido e à beira da morte. O médico disse que salvá-lo teria pouco significado, então me preparei psicologicamente. Eu estava bem preparada e fiz um gesto com a mão: "Não vou dar mais problemas ao hospital, desistindo do tratamento." Obtive o atestado de óbito, encerrei a conta, levei-o ao crematório e, após seis horas, ele se tornou um monte de cinzas. Eu bato na urna de cinzas e digo: "Joaquim, oh Joaquim, você realmente era uma boa pessoa!" Joaquim tinha uma fortuna, partiu jovem e não deixou testamento. Recebi dois terços de toda a herança. Existe alguém mais atencioso do que Joaquim?Moderno08 4