"O Piloto Que Me Perdeu Entre as Nuvens" Capítulo 3 — A Última Passageira
Capítulo 3 — A Última Passageira
Helena não teve tempo de ser esposa, mulher magoada ou filha exausta.
Naquele corredor estreito, ela era comissária-chefe.
“Atenção, equipe”, anunciou pelo interfone, com a voz treinada apesar da pulsação acelerada. “Posições de emergência. Reforcem os cintos. Retirem objetos soltos.”
As comissárias se espalharam pela cabine. Alguns passageiros choravam. Outros gravavam vídeos, até Helena pedir que guardassem os celulares e olhassem para ela.
“Nós estamos preparados. Sigam exatamente as instruções e vocês vão sair daqui com segurança.”
Do interfone, a voz de Gabriel chegou baixa e firme.
“Helena, temos uma área de pouso identificada. Vinte minutos.”
Ela fechou os olhos por uma fração de segundo.
“Copiado.”
O impacto veio antes do esperado.
A aeronave tocou o solo irregular, derrapou, bateu com força e parou entre árvores baixas e pedras. A cabine mergulhou num silêncio de um segundo — então veio o cheiro de fumaça.
Helena soltou o cinto, mas antes de se levantar olhou para a equipe. Uma comissária estava paralisada perto da saída traseira, os olhos enormes. Helena segurou os ombros dela.
“Olha para mim. Você sabe o que fazer.”
“Eu não consigo.”
“Consegue, sim. Abre a saída. Eu fico com o corredor.”
O estalo de uma faísca veio de algum ponto atrás delas. A comissária respirou, assentiu e girou a alavanca com as duas mãos.
Helena orientou um homem a carregar a esposa, que havia batido a perna. Entregou uma máscara de fumaça a um passageiro idoso. Repetiu, sem levantar demais a voz, que ninguém deveria voltar por bagagem.
Quando uma mala caiu de um compartimento e bloqueou parcialmente a passagem, ela se abaixou e a arrastou para o lado. A mão queimou na estrutura quente, mas não havia espaço para sentir a dor.
Do lado de fora, o céu começava a fechar sobre a serra. Os sobreviventes se agrupavam no campo úmido, alguns de pijama, outros descalços, todos olhando para a fuselagem como se ela ainda pudesse decidir o destino deles.
Helena viu uma criança chamar pela avó e fez um gesto para que um passageiro a conduzisse até ela. Em seguida, contou novamente as fileiras.
Foi então que percebeu a ausência de Bia.
“Evacuação! Evacuação! Deixem tudo!” Helena gritou.
Ela abriu uma saída, orientou os passageiros pelo escorregador e voltou para verificar fileiras. Uma senhora se recusava a sair sem a bolsa; Helena a puxou pelo braço, entregando-a a um homem do lado de fora. Uma criança chorava procurando o pai; Helena a levou até ele.
Quando a maioria havia saído, uma das comissárias gritou:
“Chefe, acabou!”
Helena conferiu a lista na cabeça. Fileira vinte e duas. Havia uma adolescente perto da janela que viajara sem acompanhante.
Ela olhou para trás.
Uma fumaça escura saía da parte traseira da aeronave.
“Vai”, disse para a comissária. “Eu vou conferir.”
“Helena, não!”
Ela já corria.
Encontrou Bia Albuquerque presa pelo cinto, imóvel de medo. A garota devia ter quinze anos e segurava um chaveiro de estrela contra o peito.
“Meu tornozelo está preso”, Bia chorou. “Eu não consigo.”
“Olha para mim.” Helena se ajoelhou, mesmo sentindo o chão vibrar sob os joelhos. “Eu sou a Helena. Vou tirar você daqui. Mas preciso que faça o que eu disser.”
A adolescente assentiu.
Helena soltou o cinto, afastou uma peça de metal que havia dobrado sobre o tornozelo de Bia e a colocou de pé. A garota caiu contra ela.
“Apoia em mim.”
As duas avançaram pelo corredor tomado por fumaça. Quando chegaram perto da saída, uma explosão menor sacudiu a fuselagem. Helena cobriu Bia com o corpo e encontrou uma abertura lateral entre a estrutura rompida.
“Você vai sair primeiro”, ordenou.
“E você?”
“Eu vou atrás.”
Bia se arrastou. Helena a empurrou para fora e sentiu uma dor brutal no ombro quando caiu pela encosta. A visão se tornou fumaça, terra e gritos distantes.
Lá embaixo, Gabriel fazia a contagem dos sobreviventes com Caio.
“Cento e quarenta e sete”, Caio informou, olhando a lista. “Faltam duas.”
Gabriel ergueu a cabeça.
“Quem?”
“A menina da vinte e duas... e a Helena.”
O rosto dele perdeu a cor.
“Helena!”
Ele correu na direção da aeronave. Caio segurou seu braço.
“Gabriel, não. O fogo vai alcançar a asa.”
“Solta.”
“Você não vai salvar ninguém se entrar lá!”
Gabriel empurrou o colega, mas antes que avançasse ouviu uma voz fraca vindo de baixo do barranco.
“Aqui!”
Bia estava de joelhos perto de uma vala, chorando e apontando para um corpo entre a vegetação.
Gabriel desceu sem pensar. Encontrou Helena desacordada, o rosto sujo de fuligem, uma mão ainda fechada na própria credencial.
“Helena.”
Ela não respondeu.
Ele ajoelhou, tocou seu pescoço e sentiu o pulso. Fraco, mas ali.
“Caio! Chama o resgate agora.”
Helena abriu os olhos por um instante.
“A menina?”
Gabriel olhou para Bia, viva a poucos metros.
“Está bem.”
Só então Helena pareceu permitir que o corpo cedesse de novo.
A ambulância não conseguiria chegar rápido pela estrada de terra. Gabriel a colocou nas costas e começou a descer a trilha, ignorando pedras, lama e a ardência nos próprios músculos.
Helena recuperava a consciência em ondas. Cada vez que tentava falar, Gabriel ajustava a mão sob as pernas dela e continuava descendo.
“Não fala”, ele ordenou.
“Você está... bravo?”
Ele quase perdeu o passo.
“Você voltou para um avião em chamas.”
“Tinha uma passageira.”
“Você podia ter morrido.”
Helena ouviu algo diferente na voz dele. Não era raiva. Ou talvez fosse, mas vinha misturada com uma coisa que ele jamais mostrava quando os dois estavam em casa.
“Eu não podia deixá-la.”
Gabriel não respondeu. A trilha se tornou mais íngreme, e ele escorregou numa pedra. Caiu de joelho, protegendo Helena contra o peito antes que ela tocasse o chão.
“Gabriel.”
“Eu estou bem.”
Ele se levantou de novo, sujo de barro, sem soltar Helena.
Ao alcançarem a ambulância, os socorristas receberam primeiro a adolescente. Gabriel se recusou a entregar Helena até que um deles confirmasse o pulso e a imobilização do ombro.
Só então deu um passo para trás.
E percebeu que as próprias mãos tremiam.
“Você não precisa fazer isso”, Caio disse, acompanhando-o.
“Cala a boca e abre caminho.”
Ele não parou até alcançar a equipe de socorro.
Quando Helena acordou no hospital, Caio estava ao lado da cama. Gabriel não.
“Os passageiros?” ela perguntou, tentando se sentar.
“Todos vivos. A Bia também.”
Helena fechou os olhos, aliviada.
“O Gabriel?”
Caio hesitou.
“Ele ficou até você entrar na cirurgia do ombro. Depois foi falar com a companhia.”
No dia seguinte, Gabriel apareceu no corredor externo, ainda de uniforme.
“Eu te levo para casa”, ele disse.
No carro, Helena agradeceu pelo resgate.
“O Caio me contou que você me carregou pela trilha.”
Gabriel manteve os olhos na estrada.
“Eu sou o comandante. Você faz parte da minha tripulação.”
As palavras apagaram a pequena esperança que ela quase deixara nascer.
Antes de ela sair do carro, ele completou:
“A empresa te deu dois dias de afastamento. Descansa. E faltam seis dias.”
Helena assentiu.
Não pediu mais nada.
Naquela tarde, o telefone tocou. Era a delegacia de São Paulo.
Lúcia tinha sido levada para lá depois de tentar tomar o celular de uma desconhecida na rua.
Helena fechou os olhos, pegou a bolsa e saiu.
Do outro lado da linha, o policial acrescentou:
“Tem um homem aqui dizendo que é da família. O nome dele é Gabriel Ferraz.”
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