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"O Piloto Que Me Perdeu Entre as Nuvens" Capítulo 2 — Turbulência

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Capítulo 2 — Turbulência

Helena passou a noite no quarto de hóspedes.

Não porque Gabriel a tivesse mandado para lá. Ele não precisou. A distância entre os dois já ocupava o apartamento inteiro.

No dia seguinte, ela entrou na sala de briefing com a foto escondida na galeria do celular e a sensação de que todos conseguiam ler sua vergonha no rosto.

Gabriel estava diante do quadro de escala, conferindo a rota para Belo Horizonte. Quando ela se aproximou, ele baixou a voz.

“Ainda faltam nove dias.”

Helena soltou uma risada sem humor.

“Você está contando com tanta pressa assim?”

“Três anos passaram. Nove dias não vão mudar nada.”

Ela o olhou por um instante.

“Para você, talvez não.”

Caio chegou antes que Gabriel respondesse. Tinha o cabelo ainda úmido, um copo de café na mão e o jeito tranquilo de quem sabia diminuir a tensão sem fingir que ela não existia.

“Chefe, trouxe o seu sem açúcar.”

“Obrigada.”

Gabriel se afastou, mas Helena viu a maneira como seus olhos acompanharam o gesto simples de Caio entregar o copo.

No ônibus da tripulação até o pátio, Caio sentou ao lado dela.

“Você está bem?”

“Estou cansada.”

“Cansada de voo ou cansada de tudo?”

Helena respirou fundo.

“Hoje não, Caio.”

Ele assentiu, sem insistir. Foi justamente isso que a fez quase chorar.

O voo saiu no horário. Durante o serviço, Helena se obrigou a agir como sempre: revisar os procedimentos, tranquilizar uma senhora ansiosa, ajudar uma criança a apertar o cinto, corrigir com gentileza uma comissária que havia esquecido o protocolo de carrinho.

Quando entrou na galley, Gabriel apareceu vindo da cabine de comando.

“Não deixa isso atrapalhar o trabalho”, ele disse.

Helena levantou o rosto.

“Isso o quê?”

“O que quer que você esteja imaginando.”

Ela quase mostrou a foto. Quase perguntou se a mulher da joalheria já escolhera a pedra do anel. Mas não queria implorar por uma verdade que ele devia oferecer sozinho.

“Eu sei trabalhar, comandante.”

O uso do título entre eles foi uma lâmina. Gabriel percebeu. Ainda assim, voltou para a cabine sem dizer mais nada.

Quando aterrissaram em Guarulhos, um agente de solo procurou Helena antes mesmo que ela tirasse o colete de identificação.

“Dona Helena? Tem uma senhora na área de atendimento perguntando pela senhora. Ela está confusa.”

O coração dela disparou.

“Minha mãe?”

Correu pelo corredor, ignorando o peso da mala. Na sala de descanso, encontrou Lúcia Duarte sentada num sofá, o cabelo grisalho desalinhado, uma bolsa vazia presa contra o peito.

Gabriel também estava ali, parado perto da porta.

“Mãe?” Helena se abaixou diante dela. “Como você saiu da casa da tia Sônia?”

Lúcia a encarou como se tentasse reconhecer um rosto numa fotografia apagada.

“Você demorou.”

“Eu estava trabalhando.”

“Você me largou.”

Helena tocou a mão dela com cuidado.

“Eu não larguei. Vamos voltar para casa.”

De repente, Lúcia puxou uma garrafa térmica da bolsa e derramou água quente no braço da filha.

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Helena gritou e se afastou. A pele ardeu sob a manga do uniforme.

Gabriel chegou primeiro, segurando seu cotovelo para estabilizá-la.

“Ela se queimou”, ele disse a um funcionário. “Chama o posto médico.”

Helena soltou o braço da mão dele.

Não queria ser vista daquele jeito. Não por Gabriel. Não quando ele já a tratava como um erro de que queria se livrar.

Depois de acalmar Lúcia e passar pelo atendimento, Helena a levou para fora. Estava tentando chamar um carro quando viu Gabriel do outro lado da rua com a mulher da foto.

Camila.

Lúcia enrijeceu.

Antes que Helena pudesse segurá-la, a mãe atravessou correndo.

“Mãe!”

Camila mal teve tempo de virar o rosto. Lúcia puxou seus cabelos, gritando palavras desconexas sobre homens roubados e filhas abandonadas.

Gabriel afastou Camila e a colocou atrás de si.

“Helena, controla sua mãe!”

A frase atravessou Helena com mais força do que a água quente.

Ela conseguiu separar Lúcia com a ajuda de um segurança. Camila ajeitou o cabelo, ofegante, e forçou um sorriso educado.

“Ela está doente?”, perguntou.

Helena assentiu, humilhada.

“Tem demência. Eu sinto muito. Se precisar de médico, de boletim de ocorrência, eu resolvo.”

“Não precisa”, Camila disse, olhando por cima do ombro para Gabriel. “Coitada. Ela não sabe o que faz.”

Helena não perdeu o olhar de Gabriel. Ele não parecia comovido, apenas cansado.

No carro, Lúcia murmurou que Helena não podia confiar em “mulher de perfume doce”. Helena apertou o volante até os dedos doerem.

Naquela noite, deixou a mãe na casa da tia Sônia e ouviu mais uma vez que não havia como manter Lúcia ali sem cuidador.

“Você vive voando, Helena”, a tia reclamou. “Eu também tenho minha vida.”

Helena não discutiu. Voltou para o apartamento e encontrou Gabriel sentado no sofá.

“Desculpa pelo que aconteceu”, ela disse. “Assustou sua noiva.”

Ele a encarou.

“Você sempre fala assim. Como se estivesse acima de tudo.”

“Acima de tudo?” Ela riu, incrédula. “Eu estou pedindo desculpas.”

“Você faz parecer que é a pessoa mais correta da sala.”

Helena sentiu a última reserva de paciência se partir.

“E você faz parecer que eu devo aceitar qualquer coisa em silêncio.”

Na manhã seguinte, ela ligou para uma instituição de longa permanência, marcou uma avaliação de Lúcia e começou a reunir documentos. Se Gabriel queria o divórcio, ela não teria mais uma casa para improvisar cuidados nem o direito de fingir que tudo podia continuar igual.

No ônibus da tripulação, Caio ajeitou a gola do casaco dela quando percebeu que estava virada.

“Você está tremendo”, ele observou.

“Só dormi pouco.”

Gabriel, duas fileiras atrás, viu o gesto.

Quando desceram, ele esperou Helena perto do veículo.

“Caio tem namorada”, disse de repente.

“O que isso tem a ver comigo?”

“Nada. Só não use sua aliança para confundir as pessoas.”

Helena ficou pálida.

“Você acha que eu estou tentando alguma coisa com ele?”

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Gabriel não respondeu. A ausência de resposta foi pior.

Durante o voo para Porto Alegre, Helena decidiu que pediria transferência de base assim que a separação fosse concluída.

Mas, pouco depois de o serviço de bordo começar, a aeronave tremeu com violência.

Os compartimentos rangeram. Um copo caiu e se espatifou no corredor.

Caio saiu da cabine, o rosto tenso.

“Comandante, temos indicação de problema no motor. Pode ser ingestão de objeto.”

Gabriel assumiu a voz que Helena conhecia no trabalho: firme, clara, inabalável.

“Helena, prepara a cabine. Vamos fazer pouso de emergência.”

Ela engoliu o medo.

“Entendido.”

O avião começou a descer em direção à Serra da Mantiqueira.

Helena foi até cada fila com uma calma que não sentia. Repetiu o procedimento de segurança, conferiu se os passageiros com mobilidade reduzida teriam ajuda, indicou quais pessoas seriam responsáveis por crianças que viajavam desacompanhadas.

Uma mulher segurou seu pulso.

“Meu filho está chorando. A senhora acha que a gente vai morrer?”

Helena se abaixou na altura do menino. Ele devia ter seis anos e tremia tanto que mal conseguia prender o cinto.

“Eu acho que você vai fazer exatamente o que sua mãe mandar”, respondeu, ajustando a fivela. “E que vai sair daqui contando para todo mundo que foi mais corajoso do que imagina.”

O menino respirou fundo. A mãe chorou em silêncio.

Naquele instante, Helena não pensou em Gabriel, em Camila, na joalheria nem nos papéis de divórcio. Pensou apenas que era responsável por aquelas pessoas. Era isso que ela sabia fazer quando o mundo saía do eixo: escolher a próxima ação e seguir.

Pelo interfone, Gabriel pediu que a cabine fosse preparada para impacto. A voz dele continuava precisa, sem uma sílaba desperdiçada.

Helena respondeu com a mesma firmeza.

Só quando desligou o aparelho percebeu que tinha as mãos tremendo.

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