"O Piloto Que Me Perdeu Entre as Nuvens" Capítulo 1 — O Anel Que Ele Nunca Usou
Capítulo 1 — O Anel Que Ele Nunca Usou
Quando as rodas tocaram a pista de Guarulhos, Helena Duarte soltou o ar que vinha prendendo havia quase duas horas.
O voo de Recife chegara tranquilo, mas nada era realmente tranquilo quando Gabriel Ferraz estava na mesma escala que ela.
Ela esperou os passageiros descerem, conferiu os compartimentos superiores, assinou o relatório de cabine e agradeceu à equipe. Só então puxou a mala pelo corredor de serviço em direção à sala de descanso.
Gabriel saiu pela porta no mesmo instante.
Mesmo depois de três anos, a presença dele ainda tinha esse efeito indecente: uniforme azul-marinho impecável, postura reta, os olhos escuros que nunca pareciam revelar o que pensavam. Helena conhecia cada linha daquele rosto. Conhecia, também, a distância que ele era capaz de colocar entre os dois com uma única expressão.
“Hoje é feriado”, ela disse, antes que ele passasse por ela. “Sua mãe fez almoço. A gente tinha combinado de ir.”
Gabriel parou, mas não sorriu.
O anel no dedo direito de Helena brilhou sob a luz fria da sala. Ela, sem querer, olhou para a mão dele.
Vazia.
No aeroporto, Gabriel nunca usava a aliança.
“Você pode ir”, ele respondeu. “Eu tenho uma coisa para resolver.”
Helena apertou o puxador da mala.
“É Dia dos Pais. Eles vão perguntar por você.”
“Eles sempre perguntam.”
A frase veio seca, como se a família dele fosse apenas mais um item na lista de obrigações que ela insistia em criar.
Gabriel tirou um envelope pardo da pasta de voo e o colocou sobre a mala dela.
Helena já sabia o que era. Sabia desde a noite em que ele o deixara sobre a mesa da cozinha e foi dormir no quarto de hóspedes sem esperar resposta.
“O advogado disse que está tudo certo”, ele falou. “Você pode assinar quando quiser.”
Ela não abriu o envelope.
“Faltam dez dias para nosso aniversário de casamento.”
“Helena...”
“Eu sei que parece infantil.” Ela tentou sorrir, mas a boca não obedeceu. “Só quero passar esses dez dias sem transformar tudo num papel assinado.”
Gabriel franziu a testa. Era exatamente a expressão que ele fazia quando uma turbulência obrigava a tripulação a mudar o plano de serviço.
Antes que respondesse, o celular dele tocou.
Uma voz feminina escapou do aparelho antes que ele conseguisse afastá-lo.
“Gabi, você conseguiu?”
A mudança no rosto dele foi mínima. Para qualquer pessoa seria imperceptível. Para Helena, era um golpe conhecido: o maxilar relaxava, a voz perdia a rigidez.
“Consegui. Estou indo.”
Ele desligou e pegou a pasta de volta.
“É por causa dela?” Helena perguntou.
Gabriel levantou os olhos.
“Não começa.”
“Eu não comecei nada. Só perguntei.”
“Não diz respeito a você.”
Ele passou por ela sem encostar. Helena ficou imóvel até ouvir os passos dele se afastando. Quando criou coragem para olhar pela parede de vidro, viu Gabriel atravessar o estacionamento até uma mulher baixa, de cabelos castanho-claros e salto fino.
Ele tocou a cintura dela para guiá-la até o carro.
Helena sentiu a garganta fechar.
Não chorou. Não ali.
No caminho para a casa dos Ferraz, trocou o uniforme por um vestido simples no banheiro do aeroporto. Guardou o envelope no fundo da bolsa e pegou um carro por aplicativo. Pela janela, São Paulo corria cinza e quente, cheia de buzinas, prédios e gente apressada demais para perceber que uma vida podia acabar silenciosamente dentro de um carro.
Na casa dos sogros, dona Marta abriu a porta com um abraço perfumado de amaciante.
“Minha filha, você está magra. Cadê o Gabriel?”
“Teve uma pendência da companhia. Ele vem mais tarde.”
O pai dele, seu Augusto, espiou da sala.
“Vocês pousaram no mesmo horário, não pousaram?”
“Sim, mas ele precisou resolver uma coisa.”
Marta lançou um olhar rápido ao marido e sorriu para Helena, daquele jeito que tentava não deixar transparecer preocupação.
O almoço se arrastou. Helena elogiou o arroz, ajudou a tirar a mesa, respondeu perguntas sobre a rotina de voo e mentiu com delicadeza sempre que alguém perguntava se ela e Gabriel pensavam em férias juntos.
Ele chegou quando o café já estava servido.
Entrou com uma sacola de presentes, beijou a mãe no rosto, apertou a mão do pai e se sentou como se não tivesse deixado a própria esposa esperando por três horas.
“Você podia ter avisado”, Marta murmurou.
“Eu estava resolvendo trabalho.”
Helena olhou para a manga do paletó dele. Havia um perfume doce, diferente do sabonete neutro que Gabriel sempre usava.
Na volta, ele dirigiu sem ligar o rádio.
Assim que entraram no apartamento, Gabriel tirou o relógio e o deixou sobre o aparador.
“O advogado também incluiu o apartamento da Vila Mascote na divisão”, ele disse. “É perto da sua base. Você pode ficar com ele.”
Helena encarou a sala recém-decorada. O sofá bege, a luminária que ela escolhera, as plantas que sobreviveram porque ela sempre voltava de cada escala para regá-las.
“Você comprou aquele apartamento em janeiro.”
“Comprei.”
“Já era para eu sair daqui?”
Gabriel demorou um segundo longo demais.
“Era.”
Helena sentiu como se o chão tivesse inclinado sob seus pés.
“Há quanto tempo você decidiu que não queria mais tentar?”
“Não é sobre tentar.”
“Então é sobre o quê?”
Ele virou o rosto. E, naquele gesto, ela teve a resposta mais cruel que alguém podia oferecer: não era sobre nada que ele estivesse disposto a dividir com ela.
Helena pegou o envelope e caminhou até o quarto.
“Dez dias”, ela disse, sem olhar para trás. “Depois você terá a assinatura que quer.”
Na manhã seguinte, antes de amanhecer, ela acordou com o som da porta fechando.
Gabriel saía sempre cedo. Durante anos, ela acreditara que era por causa da inspeção externa da aeronave, das reuniões, da responsabilidade de um comandante. Agora entendia que era apenas outra forma de não ser visto ao lado dela.
Ninguém na Aurora Brasil sabia que eles eram casados.
Nem os colegas que comentavam como Gabriel era fechado. Nem as comissárias que achavam Helena uma líder serena. Nem Caio Nogueira, o copiloto que costumava trazer café para ela nos plantões mais longos.
Naquela manhã, enquanto Helena prendia o cabelo para a apresentação da tripulação, uma comissária novata comentou:
“O comandante Ferraz usa aliança agora. Vi ontem.”
Helena deixou cair a caneta.
“Deve ser namorada nova”, outra disse, rindo. “Quem será a corajosa?”
Helena fingiu procurar algo na bolsa.
Ao desembarcar em Salvador, recebeu uma mensagem de Marina, sua amiga de faculdade.
“Helena, preciso te mandar uma foto. Desculpa. Você precisa ver isso.”
O arquivo carregou devagar.
Na imagem, Gabriel sorria para a mulher do estacionamento. Atrás dos dois havia uma vitrine iluminada e um letreiro discreto: alianças e joias.
Helena fechou os olhos.
Faltavam nove dias para o aniversário de um casamento que, pelo visto, só existia no dedo dela.
Na volta ao apartamento, ela abriu o envelope pela primeira vez.
As páginas tinham sido organizadas com uma eficiência quase cruel. A divisão do imóvel. A conta conjunta. Os móveis. Até a cafeteira que Gabriel jamais usava, mas que constava na lista como se alguém pudesse reduzir três anos de silêncio, esperança e rotina a uma coluna de bens.
Helena leu cada linha sentada no chão da cozinha.
Havia uma cláusula sobre confidencialidade. Nenhum dos dois poderia expor a vida conjugal no trabalho ou à imprensa. Ela soltou uma risada curta. Aquilo era quase cômico. Para expor um casamento, primeiro ele precisava ter existido à luz do dia.
Ela lembrou do dia no cartório. Gabriel segurando a caneta com a mesma expressão de quem assina um relatório de ocorrência. Lembrou de ter imaginado que, depois, ele ficaria menos distante. Que o anel, a casa e as viagens divididas fariam alguma diferença.
Não fizeram.
Helena limpou os olhos e buscou uma pasta azul no alto do armário. Colocou dentro dela cópias dos documentos de Lúcia, extratos, receitas médicas e o contato da instituição que pesquisara meses antes. Se o divórcio saísse, ela não teria mais o direito de se apoiar na ideia de que alguém cuidaria das emergências enquanto ela estava no ar.
Depois guardou a foto da joalheria ao lado dos documentos.
Não para se torturar.
Para não esquecer por que precisava ir embora.
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