"Meu Marido Fugiu Com a Amante e Levou Tudo… Mas No Aeroporto, Descobriu Que Eu Já Bloqueei Tudo" Capítulo 9 — A Reunião
Às oito e quarenta da manhã, Helena Duarte parou diante do edifício do Grupo Montenegro, na Faria Lima.
Não era a primeira vez que entrava ali.
Mas era a primeira vez que não entrava como esposa de alguém.
Durante onze anos, recepcionistas sorriam para ela e diziam:
"Bom dia, senhora Montenegro."
Executivos apertavam sua mão antes de procurar Marcelo com os olhos.
Em festas de fim de ano, seu nome aparecia nas mesas ao lado do marido.
**Helena Montenegro — esposa do presidente.**
Naquela manhã, Helena atravessou a porta giratória acompanhada por Dra. Camila Nogueira e Rafael Azevedo.
Eduardo Ferraz já a esperava no saguão.
"Ele chegou", disse Eduardo.
"Marcelo?"
"Há quase uma hora."
Helena assentiu.
"Claro."
"Trouxe dois advogados."
"Melhor."
Eduardo a observou.
"Está nervosa?"
"Muito."
Ele pareceu surpreso.
"Você não parece."
Helena apertou a pasta que carregava.
"Passei onze anos aprendendo a não parecer."
Entraram no elevador.
Quando as portas se fecharam, Helena viu seu reflexo no espelho.
Camisa branca.
Blazer escuro.
Cabelos presos.
Nenhuma joia além da aliança que ainda estava em seu dedo.
Ela olhou para ela.
Por um instante, pensou em tirar.
Não tirou.
Ainda não.
As portas abriram.
A sala do conselho ficava no último andar.
Helena ouviu vozes antes de entrar.
Marcelo estava sentado na cabeceira.
Beatriz ocupava uma cadeira lateral.
Havia sete conselheiros.
Advogados.
O secretário do conselho.
Quando Helena entrou, as conversas diminuíram.
Marcelo soltou uma risada curta.
"Isso é ridículo."
Helena colocou a pasta sobre a mesa.
"Bom dia para você também."
"Você não tem autorização para transformar uma disputa conjugal em reunião de conselho."
Eduardo entrou atrás dela.
"Não foi ela quem convocou sozinha."
Marcelo virou.
"Eduardo."
"Marcelo."
"Você deveria ter vergonha."
Eduardo puxou uma cadeira.
"Tenho. Por ter demorado tanto."
Beatriz fechou os olhos.
Marcelo percebeu que havia perdido aquela primeira batalha antes mesmo de começar.
Um dos advogados dele se levantou.
"Antes de qualquer discussão, registramos nossa objeção à presença da senhora Helena Duarte Montenegro nesta reunião."
Camila respondeu:
"Objeção registrada."
"Também questionamos qualquer suposto direito societário apresentado de forma precipitada."
"Também registrado."
Marcelo bateu a mão na mesa.
"Isso não é tribunal."
Helena olhou para ele.
"Então pare de agir como réu."
Silêncio.
O secretário do conselho pigarreou.
Eduardo quase sorriu.
Marcelo apontou para Helena.
"Você não sabe nada sobre esta empresa."
"Talvez seja por isso que eu trouxe quem sabe."
Rafael abriu o notebook.
Camila organizou documentos.
Eduardo colocou diante dos conselheiros cópias autenticadas de atas antigas.
Marcelo olhou para a mãe.
Beatriz não retribuiu.
Helena percebeu.
"Vamos começar pelo meu pai."
A primeira apresentação foi simples.
Não houve discursos.
Apenas datas.
No momento em que o Grupo Montenegro enfrentava grave crise financeira, Augusto Duarte havia feito aportes através da Duarte Participações.
Os valores apareceram na tela.
Um conselheiro mais jovem franziu a testa.
"Eu nunca vi isso."
Eduardo respondeu:
"Porque aconteceu antes de você entrar."
Outro perguntou:
"Esses valores eram empréstimos?"
Rafael respondeu:
"Parte da documentação mostra uma estrutura de investimento acompanhada de direitos econômicos e mecanismos de conversão."
Marcelo interrompeu.
"Que foram substituídos."
Camila virou para ele.
"Por qual instrumento?"
"Existem documentos."
"Apresente."
Marcelo olhou para um advogado.
O homem abriu uma pasta.
"Há uma ata extraordinária."
Helena sentiu o corpo ficar frio.
A mesma.
Camila respondeu:
"Nós também temos."
A ata apareceu na tela.
Na última página estava a assinatura.
**Helena Duarte Montenegro.**
Marcelo apontou.
"Aí está."
Helena olhou para ele.
"Eu nunca assinei."
"Você assinava dezenas de coisas."
"Não essa."
"Como pode lembrar de cada papel de tantos anos atrás?"
Helena abriu a própria pasta.
"Porque na data dessa ata eu não estava no Brasil."
Marcelo ficou imóvel.
Camila colocou outro documento na tela.
Passagem aérea.
Registro de entrada.
Hotel.
Helena estava em Buenos Aires acompanhando a mãe, que passava por um tratamento médico.
"A ata indica assinatura presencial em São Paulo às quinze horas e quarenta", Camila explicou. "Helena passou aquele dia inteiro na Argentina."
Um murmúrio percorreu a sala.
Marcelo virou para Beatriz.
Ela empalideceu.
"Isso não prova que..."
Helena interrompeu.
"Tem mais."
Entrou o laudo preliminar de análise documental.
Havia inconsistências suficientes para justificar investigação aprofundada da assinatura.
Um dos conselheiros perguntou:
"Quem apresentou originalmente essa ata?"
Silêncio.
O secretário consultou registros.
"Foi protocolada pelo departamento jurídico da época."
"Por ordem de quem?"
Ele procurou.
Marcelo bateu a mão na mesa.
"Estamos desviando do assunto."
Helena virou para ele.
"Esse é exatamente o assunto."
"Não."
Marcelo se levantou.
"O assunto é que minha esposa descobriu uma traição e decidiu usar documentos antigos para tomar a empresa."
Helena sentiu a frase.
Não porque doesse.
Porque era previsível.
Marcelo continuou:
"Ela nunca trabalhou aqui."
Vários conselheiros olharam para Helena.
"Nunca administrou uma equipe."
Ele apontou para o teto.
"Não conhece nossos contratos."
Helena permaneceu sentada.
"Não conhece nossos clientes."
Marcelo riu.
"E agora aparece com advogado e contador dizendo que é dona de tudo?"
Helena esperou até ele terminar.
"Posso?"
Marcelo abriu os braços.
"Por favor. Mostre o que aprendeu em quarenta e oito horas."
Helena levantou.
"Eu não vim aqui dizer que sei administrar esta empresa melhor do que todos vocês."
Alguns conselheiros se entreolharam.
"Também não vim substituir diretor financeiro, jurídico ou operacional."
Olhou para Marcelo.
"Essa é a diferença entre nós."
Ele apertou a mandíbula.
"Marcelo acredita que ser dono significa poder fazer tudo sozinho."
Helena tocou a mesa.
"Eu acredito que uma empresa desse tamanho precisa sobreviver às pessoas que ocupam esta cadeira."
Silêncio.
"Meu pai investiu para salvar esta companhia. Se os direitos dele foram alterados legalmente, eu vou respeitar."
Marcelo pareceu surpreso.
"Mas se usaram meu nome para apagar esses direitos..."
Ela olhou para a assinatura.
"...então eu quero saber quem fez."
Um conselheiro mais velho perguntou:
"E as operações recentes?"
Rafael assumiu.
Era a parte que Marcelo temia.
Transferências.
Garantias.
Empréstimos.
Empresas vinculadas a Caio Salles.
Valores saindo de estruturas do grupo e seguindo por caminhos difíceis de justificar.
Marcelo começou a interromper.
"Isso tem explicação."
Rafael respondeu:
"Então forneça."
"Você está interpretando fora de contexto."
"Qual contexto?"
"Expansão."
"Para uma empresa registrada no nome do irmão da sua amante?"
Silêncio.
Marcelo olhou para Helena.
"Você trouxe Lavínia para isso?"
Helena respondeu:
"Você trouxe Lavínia para o casamento."
Beatriz abaixou os olhos.
Camila apresentou os áudios.
Não todos.
Apenas os juridicamente relevantes naquele momento.
A voz de Marcelo saiu pelos alto-falantes.
"Quando eu terminar, Helena vai ficar com as dívidas."
O rosto dele perdeu a cor.
"Desliga isso."
Ninguém desligou.
"Quem vai acreditar que ela entende alguma coisa?"
Um conselheiro encarou Marcelo.
Outro retirou os óculos.
O áudio terminou.
Marcelo ficou de pé.
"Isso foi manipulado."
Camila respondeu:
"O material original foi preservado."
"Foi Lavínia."
"Sim."
"Ela é uma mentirosa."
Helena respondeu:
"Vocês combinavam."
Marcelo bateu na mesa.
"Chega!"
Dessa vez, ninguém se calou por medo.
Eduardo falou:
"Concordo."
Marcelo virou.
Eduardo continuou:
"Chega."
Colocou um documento diante do secretário.
"Solicito que o conselho delibere sobre o afastamento cautelar de Marcelo Montenegro da função executiva até a conclusão das apurações."
Marcelo ficou imóvel.
"Você não pode."
"Posso solicitar."
"Depois de tudo que fiz por esta empresa?"
Eduardo respondeu:
"É justamente isso que estamos tentando descobrir."
Marcelo olhou ao redor.
Procurou aliados.
Encontrou rostos desconfortáveis.
Até Beatriz permanecia em silêncio.
"Mãe."
Ela fechou os olhos.
"Mãe."
"Marcelo..."
"Fala."
Beatriz não falou.
O secretário explicou os procedimentos.
Marcelo mal ouviu.
Virou para Helena.
"Era isso?"
"O quê?"
"Você queria minha cadeira."
Helena olhou para a cabeceira.
Depois para ele.
"Não."
"Mentira."
"Eu queria minha vida de volta."
A votação começou.
Não foi unânime.
Também não precisava ser.
Quando terminou, Marcelo Montenegro estava temporariamente afastado das funções executivas.
Ele ficou sentado por alguns segundos.
Como se não entendesse as palavras.
Depois se levantou.
Pegou o paletó.
Na porta, virou para Helena.
"Você acha que ganhou?"
Helena não respondeu.
"Você não sabe nem metade do que seu pai fez."
Ela sentiu o peito apertar.
Marcelo percebeu.
Finalmente havia encontrado algo que a atingira.
Ele sorriu.
"Pergunte sobre as dívidas de Augusto."
Helena se levantou.
"Que dívidas?"
Marcelo abriu a porta.
"Pergunte ao seu advogado."
Saiu.
Helena virou imediatamente para Camila.
A advogada parecia confusa.
Rafael também.
Mas Eduardo não.
Helena percebeu.
"Você sabe."
Eduardo desviou os olhos.
"Eduardo."
"Existe outra coisa."
Helena sentiu a raiva voltar.
"Quantos segredos meu pai deixou?"
Eduardo respondeu:
"Esse não foi deixado por ele."
"Então por quem?"
Eduardo olhou para a porta por onde Marcelo acabara de sair.
"Por alguém que queria fazer parecer que Augusto devia aos Montenegro."
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