"Meu Marido Fugiu Com a Amante e Levou Tudo… Mas No Aeroporto, Descobriu Que Eu Já Bloqueei Tudo" Capítulo 2 — O Homem Que Não Conseguiu Embarcar
"Ela sabia o quê?"
Lavínia falou mais alto do que pretendia.
Algumas pessoas no lounge do aeroporto olharam para os dois.
Marcelo segurou o braço dela.
"Fala baixo."
"Não manda eu falar baixo. Você disse que a Helena ia acordar sem dinheiro, sem acesso à empresa e sem entender o que tinha acontecido."
"Era isso que deveria acontecer."
"Deveria?"
Lavínia puxou o braço.
Marcelo abriu novamente o aplicativo do banco.
Nada.
Tentou outra conta.
Bloqueada.
Outra.
Acesso temporariamente indisponível.
Seu rosto começou a suar.
O plano era simples.
Pelo menos parecera simples durante meses.
Sair do Brasil antes do amanhecer.
Passar alguns dias em Lisboa.
De lá, reorganizar as transferências.
Quando Helena acordasse, boa parte dos recursos que Marcelo considerava disponíveis já estaria fora de seu alcance imediato.
Depois viriam os advogados.
O divórcio.
As acusações.
E, principalmente, a narrativa.
Helena era emocional.
Helena não entendia negócios.
Helena havia assinado documentos sem compreender.
Helena havia feito movimentações estranhas.
Ele repetira essas frases tantas vezes que começara a acreditar nelas.
"Vamos embarcar", disse Marcelo.
Lavínia riu sem humor.
"Com qual dinheiro?"
"Eu tenho outros cartões."
"Os três já foram recusados."
"Eu tenho dinheiro vivo."
"Ótimo. Então somos fugitivos com uma mala de dinheiro. Muito elegante."
Marcelo a encarou.
"Você sabia exatamente o que estava fazendo."
"Eu sabia que você estava se divorciando."
"Não se faça de inocente."
Lavínia cruzou os braços.
No pulso, a pulseira de diamantes de Helena brilhou sob a iluminação branca do aeroporto.
Marcelo olhou para a joia.
Pela primeira vez, aquilo não pareceu um troféu.
Pareceu prova.
Seu celular tocou.
Dr. Otávio Mendes, advogado que havia usado em algumas operações empresariais.
Marcelo atendeu imediatamente.
"Otávio."
"Marcelo, onde você está?"
"Por quê?"
"Me diga onde você está."
"Estou no aeroporto."
Silêncio.
"Você está tentando sair do país?"
Marcelo se levantou.
"Isso não é da sua conta."
"Neste momento, é bastante da minha conta."
"O que aconteceu?"
"Recebemos notificações relacionadas a movimentações financeiras e documentos de empresas ligadas ao grupo."
Marcelo apertou o celular.
"Helena."
"Não sei tudo ainda."
"Foi ela."
"Marcelo, escute. Não faça nenhuma movimentação. Não apague mensagens. Não ligue para ninguém dando ordens para alterar documentos."
Marcelo olhou para Lavínia.
"Você está falando comigo como se eu fosse criminoso."
"Estou falando como advogado."
"Ela só pode congelar patrimônio do casamento."
"Esse é o problema."
Marcelo ficou em silêncio.
Otávio continuou.
"Isso não parece ser apenas uma disputa patrimonial."
"O que quer dizer?"
"Existem questionamentos sobre assinaturas, empréstimos e transferências para empresas relacionadas a terceiros."
O estômago de Marcelo se contraiu.
Caio.
Ele olhou para Lavínia.
Ela percebeu imediatamente.
"O que foi?"
Marcelo virou de costas.
"Otávio, ninguém pode provar nada."
"Não diga isso por telefone."
"Você está exagerando."
"Espero que sim."
A ligação terminou.
Marcelo ficou parado.
Lavínia se aproximou.
"Ele falou do Caio?"
Marcelo não respondeu.
"Falou do meu irmão?"
"Para de entrar em pânico."
"Você colocou empresas no nome dele!"
"E ele recebeu muito bem por isso."
Lavínia empalideceu.
"Você disse que era uma estrutura tributária."
Marcelo soltou uma risada curta.
"E você acreditou?"
Ela o encarou.
A frase atingiu mais do que ele esperava.
"Você mentiu para mim?"
"Agora não."
"Você mentiu?"
Marcelo pegou a mala.
"Vamos para o portão."
Eles caminharam pelo terminal.
Cada passo parecia mais pesado.
No painel, o voo para Lisboa continuava confirmado.
Marcelo começou a respirar melhor.
Ainda havia tempo.
Se entrasse no avião, pensaria no resto depois.
Chegaram ao controle.
Entregou o passaporte.
A funcionária digitou algumas informações.
Esperou.
Digitou novamente.
Olhou para a tela.
Depois para Marcelo.
"Um momento, senhor."
"O que houve?"
"Preciso verificar uma informação."
"Meu voo embarca em breve."
"Será apenas um momento."
Ela fez uma ligação.
Marcelo sentiu Lavínia agarrar sua mão.
"Marcelo..."
"Calma."
Dois homens se aproximaram.
Não usavam uniformes ostensivos.
Um deles mostrou identificação.
"Senhor Marcelo Montenegro?"
"Sim."
"Precisamos conversar."
Lavínia deu um passo para trás.
Marcelo percebeu.
"Sobre o quê?"
"Algumas informações precisam ser esclarecidas antes da sua saída."
"Eu tenho passagem."
"Sabemos."
"Então eu vou embarcar."
"Neste momento, o senhor vai nos acompanhar."
Marcelo olhou ao redor.
Pessoas passavam com malas.
Famílias.
Executivos.
Turistas.
Ninguém parecia saber que o poderoso Marcelo Montenegro estava sendo impedido de seguir viagem.
Lavínia se aproximou.
"Eu posso embarcar?"
Marcelo virou o rosto lentamente para ela.
"Você está falando sério?"
"Eu só perguntei."
"Você vai comigo."
"Para conversar com a polícia?"
"Você está envolvida nisso."
A expressão dela mudou.
"Não."
"Como não?"
"Eu não assinei nada."
"Você sabia."
"Eu sabia o que você me contou."
Marcelo deu um passo em direção a ela.
Um dos agentes levantou a mão.
"Senhor Montenegro."
Marcelo parou.
Naquele instante, o telefone vibrou.
Mensagem de Helena.
Ele abriu.
Havia apenas uma frase.
"Você roubou da conta errada."
Marcelo releu.
Uma vez.
Duas.
Três.
Aquilo não fazia sentido.
Ele conhecia as contas.
Conhecia as empresas.
Conhecia o patrimônio.
Durante onze anos, Helena deixara tudo nas mãos dele.
Ou era isso que ele acreditava.
Digitou furiosamente.
"Que conta?"
Helena visualizou.
Não respondeu.
Marcelo escreveu outra.
"O que você fez?"
Nada.
Outra.
"Helena, atende."
Nada.
Ele sentiu uma raiva quase infantil.
Durante anos, Helena sempre respondia.
Quando ele ligava, ela atendia.
Quando ele mandava voltar para casa, ela voltava.
Quando dizia que uma reunião era "coisa de homem de negócios", ela se retirava.
Quando dizia para assinar, ela perguntava onde.
Pelo menos era assim que Marcelo se lembrava.
Então por que aquela mulher parecia estar dez passos à frente?
No Jardim Europa, Helena estava sentada diante da mesa da sala de jantar.
À sua frente havia três pastas.
Dra. Camila Nogueira chegara pouco antes das quatro.
Rafael Azevedo vinha a caminho.
Camila colocou o celular sobre a mesa.
"Ele tentou sair."
"Eu sei."
"Você está bem?"
Helena demorou alguns segundos.
"Não."
Camila não insistiu.
"Mas eu vou ficar."
A advogada assentiu.
Helena abriu a primeira pasta.
"Quero revisar tudo outra vez."
"Você já revisou."
"Quero de novo."
"Helena."
"Onze anos da minha vida estão dentro dessas pastas. Eu quero saber exatamente o que ele fez com cada um deles."
Camila a observou.
Então puxou uma cadeira.
"Está bem."
Durante quase uma hora, revisaram documentos.
Até Rafael chegar.
Ele entrou carregando uma pasta preta e um notebook.
"Temos um problema."
Helena ergueu os olhos.
"Qual?"
Rafael colocou um documento sobre a mesa.
"Eu estava revisando a origem de uma das contas que Marcelo tentou movimentar."
"E?"
"Ela não deveria estar vinculada a ele."
Camila se inclinou.
Helena olhou para os números.
"Por quê?"
Rafael respirou fundo.
"Porque o dinheiro original não veio dos Montenegro."
Helena franziu a testa.
"Então veio de quem?"
Rafael virou o documento.
No topo da página havia o nome de uma empresa que Helena não via desde o funeral do pai.
**Duarte Participações S.A.**
Ela parou de respirar por um instante.
Rafael apontou para a data.
Onze anos antes.
Poucas semanas antes do casamento.
"Helena..."
Ele empurrou o papel na direção dela.
"Esse dinheiro veio do seu pai."
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