"A Empregada Que Desafiou o Chefe da Máfia" Capítulo 9 — O Último Carregamento
"Meu pai morreu", disse Helena.
Rafael ampliou o reflexo na tela. O homem tinha cabelos grisalhos, o rosto magro e uma cicatriz que atravessava o queixo. Helena conhecia aquela marca. O pai a ganhara ao cair de uma motocicleta antes de ela nascer.
"É Antônio Duarte", confirmou. "Eu o vi na noite em que levei Lúcia para Campinas."
Dante tomou o telefone das mãos de Helena.
"O vídeo pode ter sido gravado antes."
Na transmissão, Antônio olhou para a câmera.
"Helena, se estiver assistindo, venha ao antigo Hotel Atlântico, no Gonzaga. Quarto 308. Você tem quarenta minutos. Se Dante aparecer, sua mãe recebe a injeção."
Ele mostrou uma ampola transparente e a colocou no bolso.
A imagem foi interrompida.
Helena tentou passar por Dante.
"Ele conhece minha avó, minha mãe e tudo que aconteceu. Preciso ouvi-lo."
"Ele trabalha para Otávio."
"Ou está sendo obrigado."
"Essa esperança pode matar você."
"Foi a mesma esperança que nos levou até Lúcia."
Dante segurou seu rosto.
"E quase perdemos você na capela."
"Não sou uma das pessoas que você pode trancar para proteger."
"Eu sei. É exatamente por isso que tenho medo."
A confissão desarmou a raiva dela. Helena encostou a testa na dele por um instante.
Rafael propôs enviar Helena com um rastreador que não usasse sinal de rádio. Uma equipe ocuparia o quarto ao lado do 308, sem se aproximar do corredor até receber o código.
"Qual código?", perguntou Helena.
"Diga que quer água", respondeu Dante. "Quando disser isso, entramos."
"Meu pai conhece minha voz. Vai perceber se eu estiver fingindo."
"Então não finja. Fale até descobrir o que ele quer."
No hotel, Helena subiu sozinha. O corredor cheirava a maresia e carpete úmido. A porta do quarto 308 estava entreaberta.
Antônio a esperava junto à janela.
Durante dezoito anos, Helena guardara lembranças fragmentadas: mãos grandes amarrando seus sapatos, uma risada rouca, o perfume de sabão. O homem diante dela parecia ter envelhecido cem anos.
"Você cresceu", ele disse.
Helena o esbofeteou.
"Minha filha..."
"Não me chame assim. Homens mortos não têm filhas."
Antônio aceitou o golpe sem reagir.
"Eu não escolhi desaparecer."
"Minha mãe também vai dizer isso? Minha avó? Quantas pessoas decidiram que eu era a única que não merecia a verdade?"
Ele mostrou uma pasta. Dentro havia fotografias de Helena na escola, na universidade e no primeiro emprego.
"Eu acompanhei cada aniversário."
"De longe. Como um covarde."
Antônio explicou que trabalhava como conferente no porto. Descobrira os contêineres de armas antes de Caio e levara a informação a Lúcia. Otávio ameaçara matar Helena caso os dois não cooperassem.
"Sua mãe fugiu. Eu fiquei para apagar seu nome dos registros."
"E agora está ao lado dele."
"Estou ao lado da única coisa que ainda pode derrubá-lo."
Ele retirou a ampola do bolso. Era soro fisiológico. A transmissão fora encenada para afastar Otávio dos verdadeiros movimentos de Antônio.
"Lúcia está segura. O homem no hospital é meu irmão, enfermeiro aposentado."
Helena sentiu alívio, seguido por nova raiva.
"Vocês usaram o medo de me perder."
"Otávio monitora todos os telefones. Eu precisava que ele acreditasse que ainda obedeço."
Antônio revelou o plano para a reunião dos acionistas. Otávio pretendia transferir naquela noite o último carregamento ilegal pelo Terminal 3. Depois detonaria o armazém com os documentos e colocaria a culpa em Dante.
"A reunião é uma armadilha", disse Helena.
"É também a única oportunidade de obter a confissão dele diante dos sócios."
Antônio entregou um dispositivo do tamanho de um botão. Gravava e transmitia para um servidor fora do país.
"Otávio acredita que você quer negociar sua participação. Ofereça o terminal em troca da segurança de seus pais."
"E Dante?"
"Para salvar você, ele entregará as provas e o império. Otávio conta com isso."
Helena compreendeu que precisava manter Dante longe do encontro até arrancar a confissão.
Antônio abriu outra fotografia. Nela, Otávio entregava uma pasta a um inspetor da Polícia Federal. O encontro acontecera na semana anterior.
"Existe alguém infiltrado na equipe que irá ao terminal", alertou.
Helena fotografou a imagem e enviou para Rafael usando uma rede protegida. Minutos depois, ele identificou o inspetor como Paulo Neri, responsável justamente por coordenar a operação daquela noite.
"Se avisarmos a polícia pelo canal oficial, Otávio saberá", disse Dante pelo ponto de escuta do quarto vizinho.
Antônio se assustou ao ouvir a voz.
Rafael criou então uma segunda operação. A delegada Camila Nogueira reuniria agentes escolhidos pessoalmente, enquanto Paulo receberia uma localização falsa. Marina Azevedo acompanharia tudo de um carro blindado e autenticaria os documentos em tempo real.
Helena percebeu que a armadilha tinha duas camadas: Otávio pretendia capturá-los, e eles precisavam permitir que o traidor dentro da polícia acreditasse no plano errado.
"Se Paulo não aparecer no endereço falso, saberemos que Otávio desconfia", disse Rafael.
O telefone de Antônio vibrou. Era uma mensagem do advogado: TRAGA SUA FILHA AO TERMINAL. SEM DANTE.
Antônio mostrou a tela.
"Ele ainda acredita em mim."
"Não", respondeu Helena. "Ele acredita no seu medo. É diferente."
"Você está me pedindo para mentir ao homem que confiou em mim."
"Estou pedindo que escolha entre a confiança dele e a vida de dezenas de trabalhadores no terminal."
Antes que Helena respondesse, a porta se abriu.
Dante entrou sozinho, sem arma visível.
"Ela não precisa escolher."
Antônio recuou.
"Eu disse que você não podia vir."
"Helena nunca pediu água. Então fiquei do lado de fora e ouvi."
Ele olhou para o pai dela.
"Durante dezoito anos, o senhor permitiu que sua filha acreditasse que tinha sido abandonada. Não voltará a decidir por ela."
Helena esperou que Dante proibisse o plano. Em vez disso, ele estendeu a mão.
"Dê-me o transmissor."
"Otávio precisa acreditar que Helena está sozinha", disse Antônio.
"E acreditará. Eu entrarei no terminal como o homem que veio entregar o império. Helena entrará como a mulher que decidiu tomá-lo."
No caminho para Santos, Helena contou tudo a Lúcia por uma chamada protegida. A mãe chorou ao ouvir que Antônio estava vivo.
"Ele prometeu que voltaria quando fosse seguro."
"Nunca ficou seguro", respondeu Helena. "Só ficou tarde demais."
Lúcia aceitou testemunhar. Também confirmou que Marina Azevedo permanecia escondida numa casa protegida por Antônio. A promotora guardava cópias autenticadas das investigações de Camila.
Rafael acionou a Polícia Federal e exigiu uma equipe sem ligação com o gabinete comprometido. Marina concordou em aparecer se a transmissão de Otávio fosse registrada.
Às oito da noite, os acionistas chegaram ao Terminal 3. Otávio aguardava diante de uma mesa de vidro, cercado por homens armados e caixas lacradas.
Helena entrou usando o uniforme de empregada.
Ele riu.
"Agora você vale milhões e ainda veste isso?"
"Foi usando este uniforme que vi quem vocês realmente eram."
Dante entrou atrás dela carregando o caderno vermelho.
"Solte os trabalhadores e entrego tudo."
Otávio abriu uma das caixas. Não havia armas, mas tijolos de explosivos.
"Você entrega as provas, Helena assina o terminal e ambos saem antes de o prédio cair."
"E os funcionários?", perguntou Helena.
"Testemunhas custam caro demais."
O botão em sua gola transmitia cada palavra.
Helena colocou o contrato sobre a mesa.
"Confesse que matou Camila e Caio. Quero saber com quem estou negociando."
Otávio aproximou-se, satisfeito.
"Camila morreu porque confundiu casamento com poder. Caio morreu porque acreditou que uma empregada valia mais que o sobrenome."
"E Sofia?"
"Uma criança assustada teria tornado Dante obediente. Beatriz estragou tudo ao contratar você."
Uma luz verde piscou no relógio de Dante. A Polícia Federal recebera a transmissão.
Então Otávio arrancou o botão da gola de Helena.
"Seu pai me ensinou este truque."
As portas do terminal se fecharam. No painel atrás dele, um cronômetro começou a contar cinco minutos.
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