"A Empregada Que Desafiou o Chefe da Máfia" Capítulo 6 — O Nome na Gravação
"Ligue para ele", pediu Helena.
Dante telefonou para Rafael. O chefe da segurança atendeu no segundo toque.
"Estou entrando na Vila Mariana. A casa fica a quatro quadras."
"Não toque na caixa", ordenou Dante.
Houve um silêncio breve.
"Por quê?"
"Porque eu mandei. Espere do lado de fora."
"Se Otávio conhece o esconderijo, cada minuto importa."
A ligação terminou.
Dante mandou dois carros interceptarem Rafael. Helena permaneceu diante do centro cirúrgico, com as mãos cobertas pelo sangue seco da mãe.
"Se ele quisesse as provas, teria nos traído antes", disse ela.
"Homens esperam anos pela oportunidade certa."
"Você acredita nisso porque foi assim que aprendeu a sobreviver."
"E você continua viva porque, nas últimas doze horas, eu desconfiei de todos."
O médico saiu da sala. A bala atravessara o ombro de Lúcia sem atingir uma artéria, mas a perda de sangue era grave. Ela ficaria sedada até o dia seguinte.
Helena respirou pela primeira vez desde a capela.
Uma enfermeira entregou os pertences de Lúcia: um cordão, uma chave de pensão e um pequeno aparelho auditivo. Dentro do estojo havia um cartão com números escritos à mão.
Dante reconheceu coordenadas bancárias.
"É uma conta de custódia."
"Pode guardar as cópias dos documentos."
"Ou dinheiro suficiente para desaparecer por dezoito anos."
Helena recolheu o cartão.
"Minha mãe não é uma criminosa até que você prove."
"Na minha família, sobreviver por tanto tempo exige algum crime."
"Talvez seja por isso que ela fugiu da sua família."
A discussão parou quando Sofia entrou com uma segurança. A menina correu para Helena e abraçou sua cintura.
"A moça azul acordou?"
"Ainda não."
Sofia tirou do bolso um botão dourado encontrado no galpão. Trazia as iniciais O.F. e uma mancha de tinta azul.
"Ele perdeu quando me amarrou."
Dante colocou o botão num envelope. Pela primeira vez, existia uma prova física ligando Otávio ao sequestro.
"Você foi muito corajosa", disse ele.
"Foi Helena que ensinou."
O olhar de Dante encontrou o dela, e a tensão se transformou em algo mais difícil de nomear.
Rafael chegou ao hospital escoltado. Trazia a caixa de música fechada e parecia furioso.
"Se eu quisesse roubar isso, não teria vindo pela entrada principal."
Dante revistou-o pessoalmente. Encontrou uma chave pequena, diferente da caixa, e uma fotografia antiga de Caio.
"Por que carrega a foto do meu irmão?"
"Porque fui o último homem da família a vê-lo vivo."
Helena repetiu o aviso de Lúcia. Rafael baixou a cabeça.
"Ela tem razão em não confiar em mim. Eu entreguei a localização do sítio ao pai de Dante. Pensei que resgatariam Caio. Otávio chegou primeiro."
"Você sabia que ele sobrevivera à explosão", disse Dante.
"Descobri dois dias antes da segunda morte. Quando tentei falar com você, Beatriz mostrou uma fotografia de Helena saindo da escola. Entendi a ameaça."
"E escolheu o silêncio."
"Escolhi manter uma criança viva. Todos os dias desde então me pergunto se fui covarde ou se fiz a única coisa possível."
Helena não o perdoou, mas compreendeu por que Lúcia temia que ele pegasse a caixa. Rafael carregava culpa suficiente para destruir uma prova se acreditasse que ela condenaria Dante.
A caixa de música tinha uma bailarina de vestido azul. Helena girou a chave, e a mesma canção da infância começou a tocar.
Não havia compartimento visível.
Sofia observou o brinquedo.
"A estrela está torta."
Na base, uma das estrelas pintadas apontava na direção contrária. Helena pressionou-a. Um fundo falso se abriu, revelando uma fita de minicassete e uma folha dobrada.
Rafael trouxe um aparelho antigo. A voz de Caio surgiu entre ruídos.
"Meu nome é Caio Montenegro. Se esta gravação chegar a Dante, significa que não consegui voltar. Otávio Ferraz falsificou a assinatura do nosso pai para controlar os terminais três e quatro. Beatriz descobriu e decidiu ajudá-lo, desde que o nome Montenegro fosse preservado."
Dante fechou os olhos.
A gravação continuou.
"Eles transportam armas e desviam dinheiro usando empresas de alimentos. Quando tentei entregar os registros, Otávio explodiu meu carro. Lúcia me tirou de lá. Rafael revelou nosso esconderijo, mas acredito que fez isso sob ameaça. Não o matem por mim."
Rafael se apoiou na parede.
"Ele sabia."
"Caio sabia que você tentou salvá-lo", disse Helena.
Na fita, a voz ficou mais fraca.
"Dante, se ainda houver algo do menino que você foi, não herde nossa guerra. Proteja a criança Duarte. Nosso pai autorizou que Otávio matasse Lúcia e Helena. Ele disse que nenhuma empregada destruiria esta família."
Helena apertou a folha dobrada. Era uma certidão que transferia trinta por cento do antigo terminal de Caio para Lúcia Duarte, como compensação pelos riscos e pelas provas que guardava.
"Minha mãe era dona de parte do terminal", murmurou.
"E você é a herdeira legal", respondeu Dante.
Aquilo explicava por que Otávio tentava matar Sofia e Helena. Sem Dante, ele controlaria as empresas por meio de documentos falsos. Sem Helena, ninguém contestaria a posse do terminal de Caio.
A gravação terminou com uma frase:
"O original das transferências está no cofre de Otávio, atrás do retrato de Camila."
Dante levantou-se.
"O retrato de Camila fica no meu escritório."
Todos se calaram.
Otávio possuía um cofre dentro da mansão e usara a imagem da esposa morta de Dante para escondê-lo.
Voltaram a São Paulo antes do meio-dia. O retrato foi retirado da parede. Atrás dele, havia um painel biométrico.
Sofia aproximou o botão dourado encontrado no galpão. O metal acionou um leitor oculto, e o cofre se abriu.
Dentro estavam as transferências originais, passaportes falsos, fotografias de Lúcia e relatórios sobre cada passo de Helena desde os quinze anos.
Havia também o laudo do acidente que matou Camila Montenegro.
Dante leu a primeira página e perdeu a cor.
O freio do carro fora cortado.
O laudo possuía ainda um anexo que nunca chegara ao inquérito. Camila tinha um gravador no painel. Nos últimos segundos antes da colisão, telefonara para alguém chamado Marina.
"Ele sabe que eu descobri", dizia Camila. "Se acontecer alguma coisa, entregue a pasta a Dante. Não à família. Somente a Dante."
Uma segunda voz respondeu que a pasta estava segura no Ministério Público. Depois surgiu o ruído de um carro acelerando atrás dela.
Dante afastou-se da mesa.
"Naquela manhã, Camila disse que levaria Sofia à escola. Eu pedi que esperasse meu motorista. Ela achou que eu estava tentando controlá-la."
Helena tocou o laudo.
"Você não cortou o freio."
"Mas construí uma vida em que ela precisava investigar meu próprio advogado escondida."
Sofia apareceu à porta com a boneca apertada contra o peito.
"Mamãe estava com medo do tio Otávio?"
Dante se ajoelhou.
"Estava. E tentou proteger todos nós."
"Então ela não foi embora porque não me amava?"
Ele abraçou a filha.
"Nunca pense isso. Sua mãe lutou até o fim para voltar para você."
Helena percebeu que revelar a verdade causava dor, mas também arrancava de Sofia uma culpa silenciosa. A menina chorou no peito do pai, e Dante permitiu que ela chorasse sem prometer que tudo ficaria bem.
No fundo do cofre, Rafael encontrou uma lista de pagamentos feitos após a morte de Camila. O último destinatário era o técnico responsável pelas câmeras naquela noite.
"Ele ainda trabalha para nós", disse Rafael.
Antes que pudessem localizá-lo, o sistema da mansão começou a reiniciar sozinho.
No rodapé, uma autorização de pagamento trazia a assinatura de Otávio Ferraz.
Antes que Dante pudesse falar, as luzes da mansão se apagaram.
Uma voz saiu do sistema de som.
"Obrigado por abrir meu cofre", disse Otávio. "Agora coloque todos os documentos na lareira, ou Sofia descobrirá como a mãe realmente morreu."
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