"A Empregada Que Desafiou o Chefe da Máfia" Capítulo 5 — A Mulher Que Voltou dos Mortos
O primeiro disparo atingiu uma luminária. O galpão mergulhou numa escuridão cortada apenas pela luz cinzenta da manhã.
Dante puxou Helena e Sofia para trás do cofre aberto. Rafael respondeu ao fogo, enquanto seus homens formavam uma barreira entre a menina e as duas entradas.
"A saída do canal está livre", avisou Rafael.
"Leve Sofia", ordenou Dante.
A menina agarrou o braço de Helena.
"Não deixa a moça azul morrer."
Helena beijou sua testa.
"Seu pai e eu vamos buscá-la."
Dante não contestou a promessa. Entregou a filha a Rafael e retirou o cartão de memória do gravador.
"O caderno fica comigo. Você levará uma cópia vazia."
"Beatriz vai conferir."
"Ela não terá tempo."
Uma granada de fumaça rolou pelo piso. Os homens de Otávio avançaram, mas encontraram o galpão vazio. Dante e Helena já desciam por uma escada de manutenção até o cais inferior.
Um barco os esperava sob a plataforma. O piloto, homem de confiança de Rafael, seguiu pelo estuário em direção a uma pequena capela abandonada entre armazéns antigos.
Helena observava a fotografia de Lúcia no celular. A mãe envelhecera, mas continuava com os mesmos olhos castanhos e a mesma forma de apertar os lábios quando sentia medo.
"Você não precisa entrar", disse Dante.
"Passei dezoito anos querendo uma chance de vê-la. Não vou esperar no barco."
"Beatriz usará isso contra você."
"E Otávio usará Sofia contra você. Mesmo assim, você entrou naquele galpão."
Dante guardou a arma sob o paletó.
"Não compare minha filha a uma mulher que escolheu desaparecer."
Helena o encarou.
"Você ainda acha que minha mãe teve escolha?"
Ele não respondeu.
A capela de São Judas estava fechada havia quinze anos. O telhado tinha buracos, os bancos apodreciam e o altar era coberto por sal trazido do mar. No centro da nave, Lúcia permanecia amarrada a uma cadeira.
Beatriz estava atrás dela. Otávio vigiava uma porta lateral.
"Pontuais", disse ele.
Helena deu um passo.
"Mãe?"
Lúcia ergueu o rosto. A princípio pareceu não reconhecer a filha. Então seus olhos se encheram de lágrimas.
"Minha menina."
A voz era a mesma das canções, dos pesadelos e da gravação. Helena atravessou metade da nave antes de Dante segurá-la pela cintura.
Beatriz pressionou a arma contra a têmpora de Lúcia.
"O caderno primeiro."
Dante mostrou a capa vermelha.
"Solte a mulher."
"Você sempre se pareceu com seu pai quando dava ordens", respondeu Beatriz. "A diferença é que ele sabia quem merecia viver."
"Foi você quem tentou matar Sofia?"
Por um instante, a segurança de Beatriz vacilou.
"Eu nunca machucaria aquela criança."
Otávio riu.
"Não minta agora, Beatriz. Você forneceu o veneno."
"Para assustar Dante, não para matar Sofia. A dose deveria ser mínima."
Helena sentiu a raiva vencer o medo.
"Uma dose suficiente para matar uma criança não é um susto."
Beatriz olhou para Otávio.
"Você aumentou a quantidade."
"Precisávamos de uma crise que afastasse Dante do terminal."
A acusação abriu uma rachadura entre os dois. Dante percebeu e avançou mais um passo.
"Otávio usou você. Entregue a arma e eu garanto que sairá viva."
"Viva para quê? Para ver uma empregada tomar o lugar da família?"
Beatriz puxou os cabelos de Lúcia.
"Essa mulher seduziu Caio. Convenceu seu irmão a roubar documentos e entregar os Montenegro à polícia."
Lúcia cuspiu sangue no chão.
"Caio descobriu que vocês traficavam armas em contêineres de alimentos. Ele queria impedir que Dante herdasse aquela sujeira."
Dante apertou o caderno.
"Caio sobreviveu à explosão?"
Lúcia fechou os olhos.
"Sobreviveu por três meses."
O ar pareceu desaparecer da capela.
"Onde ele morreu?"
"Não morreu", disse Otávio. "Pelo menos não quando você pensa."
Beatriz virou a arma para ele.
"Cale a boca."
Otávio levantou as mãos, sorrindo.
"Dante merece saber que o irmão implorou para voltar para casa. Foi você quem negou."
"Porque ele pretendia destruir todos nós."
Helena entendeu. Beatriz não servia apenas a Otávio. Ela defendera o império do pai de Dante, mesmo que isso exigisse sacrificar Caio.
"Foi a senhora quem mandou explodir o carro", disse Helena.
Beatriz encarou-a.
"Eu mandei deter Caio. Otávio escolheu o método."
O advogado perdeu o sorriso.
"Cuidado."
"Depois, ele manteve Caio num sítio em Atibaia", continuou Beatriz. "Seu irmão assinaria a transferência das empresas. Lúcia o ajudou a fugir."
Lúcia olhou para Dante.
"Caio gravou uma confissão. Eu escondi o original antes de levá-lo ao hospital."
"Onde está?", perguntou Dante.
"Na caixa de música de Helena."
Helena sentiu as pernas fraquejarem. A velha caixa estava na casa da avó, guardada desde sua infância. Lúcia a enviara no dia anterior ao suposto acidente.
Otávio apontou a arma para Helena.
"Agora temos algo mais importante que o caderno."
Dante se colocou diante dela.
"Você não sairá daqui."
"Se me matar, nunca saberá onde Caio foi enterrado."
"Você acabou de admitir que o matou."
"Admiti? Não vejo polícia. Não vejo gravação. Vejo apenas um criminoso ameaçando seu advogado."
Helena sentiu o cartão de memória dentro do sapato. O gravador vazio era um engano, mas aquele pequeno arquivo guardava parte da discussão e a voz de Beatriz.
Ela precisava fazê-los falar mais.
"Minha mãe não colocou apenas a confissão na caixa", blefou. "Há cópias dos pagamentos feitos por Otávio."
O advogado virou-se para Lúcia.
"Você jurou que não contou a ninguém."
"Eu também jurei que um dia você pagaria."
Otávio disparou.
Lúcia tombou com a cadeira. Helena gritou e correu. Dante atirou contra o advogado, mas Beatriz apagou as luzes no quadro elétrico.
Dois homens surgiram pela porta lateral. Dante derrubou o primeiro. Helena se ajoelhou ao lado da mãe e pressionou a mão contra o ferimento em seu ombro.
"Olhe para mim. Eu estou aqui."
Lúcia tocou o rosto da filha.
"Você tem os olhos do seu pai."
"Não feche os olhos."
Uma bala arrancou madeira do banco ao lado. Dante cobriu as duas e conduziu-as para trás do altar.
Rafael invadiu a capela com a equipe. Otávio escapou por um túnel sob a sacristia. Beatriz foi encontrada caída perto da saída, atingida de raspão. Mesmo ferida, recusou-se a dizer para onde ele fora.
Uma ambulância particular levou Lúcia ao hospital de Santos. Helena seguiu segurando a mão da mãe, enquanto Dante permanecia do outro lado da maca.
"A caixa de música", murmurou Lúcia. "Não deixe Rafael pegá-la."
Dante ergueu os olhos.
"Por quê?"
Lúcia perdeu a consciência antes de responder.
Helena tentou acordá-la, mas o monitor acelerou. A médica pediu espaço e ajustou o soro.
Dante saiu para o corredor da ambulância e telefonou a Rafael sem permitir que a chamada completasse. Desligou antes do primeiro toque.
"Se ele estiver com Otávio, saberá que desconfiamos."
"E se não estiver, estamos deixando um aliado sozinho."
"Confiança não é prêmio por bons serviços. É risco calculado."
Helena abriu a mão de Lúcia. Havia números escritos com caneta na palma: 17-04-09. Dante reconheceu a data em que Caio fora declarado morto.
No verso do cordão de Lúcia, Helena encontrou uma inscrição quase apagada: ESTAÇÃO DA LUZ, 214.
"Pode ser um armário", disse Dante.
"Ou uma instrução para Rafael."
O motorista avisou que um carro os seguia desde a saída da capela. Dante pediu que alterasse a rota. A ambulância entrou num túnel, enquanto o veículo de Rafael bloqueava a perseguição na entrada.
Pelo vidro traseiro, Helena viu o chefe da segurança descer sob os disparos e proteger a ambulância com o próprio corpo.
"Um traidor faria isso?", perguntou.
"Um homem culpado também pode morrer tentando compensar o passado."
Dante observou Lúcia, depois segurou a mão de Helena sobre a maca.
"Não importa em quem ela confia. Até acordar e explicar, eu confio em você."
Era a primeira vez que ele oferecia confiança sem exigir obediência em troca.
No mesmo instante, Rafael enviou uma mensagem ao telefone de Dante.
ENCONTREI A CASA DA AVÓ. VOU BUSCAR A CAIXA.
Dante mostrou a tela a Helena.
O homem que os ajudara a resgatar Sofia era exatamente aquele de quem Lúcia acabara de mandar que desconfiassem.
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