"A Empregada Que Desafiou o Chefe da Máfia" Capítulo 4 — A Testemunha de Vestido Azul
Dante segurou o desenho como se fosse uma sentença de morte.
Otávio tinha o rosto comprido, os cabelos grisalhos e uma pequena cicatriz sobre a sobrancelha esquerda. Sofia reproduzira os três detalhes.
"Fechem a cidade", ordenou Dante ao telefone. "Rodoviárias, aeroportos, estradas e todos os acessos ao porto. Quero Sofia viva."
Helena encontrou uma segunda folha sob a cama. Nela, Sofia desenhara uma mulher de vestido azul dentro de um carro preto. Ao lado havia três letras tremidas: MÃE.
"Ela viu Lúcia", disse Helena.
Rafael examinou a fita presa à janela.
"O tecido é antigo. Igual ao vestido da fotografia."
Beatriz entrou acompanhada por duas seguranças.
"Otávio desapareceu. O quarto está vazio."
Dante avançou contra a tia.
"Você o trouxe para dentro desta família."
"Ele era advogado do seu pai."
"E continuou sendo seu homem de confiança."
Beatriz empalideceu.
"Está me acusando de sequestrar minha sobrinha-neta?"
"Estou dizendo que Sofia quase morreu enquanto você defendia o dono da caixa usada para transportar o veneno."
Um segurança chamou Rafael pelo rádio. Uma câmera de trânsito registrara uma SUV preta saindo da rua dos fundos. O veículo seguia rumo à Rodovia Anchieta.
Santos.
Dante vestiu um colete por baixo da camisa. Entregou outro a Helena.
"Você ficará no carro blindado."
"O bilhete exige minha presença."
"E terá sua presença até eu recuperar Sofia. Depois, ninguém decide o que fazer com você além de mim."
"Isso deveria me tranquilizar?"
"Não. Deveria mantê-la viva."
Partiram antes do amanhecer em três carros. A chuva tornava a serra um corredor de sombras. Helena levava o gravador vazio no bolso; Rafael copiara o áudio para um servidor seguro.
Dante permaneceu ao lado dela no banco traseiro, verificando mensagens. Cada contato obedecia sem fazer perguntas. Helena compreendeu por que seu nome provocava medo. Ele controlava estradas, armazéns e homens que a polícia fingia não ver.
Mas, ao receber uma fotografia de Sofia amarrada a uma cadeira, seus dedos tremeram.
"Ela vai voltar", disse Helena.
"Promessas não trazem pessoas de volta."
"Não. Ações trazem. Por isso estamos aqui."
Ele a encarou, e algo silencioso passou entre os dois.
A fotografia fora tirada num galpão com paredes verdes. Rafael identificou um antigo depósito frigorífico perto do cais. A propriedade pertencera a Caio Montenegro e fora transferida para uma empresa de fachada após sua morte.
O atual proprietário era Otávio.
"Ele roubou o galpão antes de o corpo do meu irmão esfriar", murmurou Dante.
Chegaram ao bairro do Valongo quando o céu começava a clarear. A equipe cercou o depósito, mas Dante recebeu uma ligação.
"Entre apenas com a empregada", disse Otávio. "Se eu vir um segundo homem, Sofia cai no canal."
Ao fundo, a menina chorava.
Helena tomou o telefone.
"Quero falar com ela."
"Você não está em posição de exigir."
"Então não receberá o gravador. Sua voz já está nele, Otávio. Minha mãe registrou tudo."
Era um blefe. O silêncio do outro lado revelou que funcionara.
Sofia apareceu na linha.
"Helena?"
"Estou aqui, meu amor. Olhe ao redor e me diga se consegue ver água."
"Tem uma janela. Tem barcos pequenos. E uma placa vermelha com um número quatro."
A ligação caiu.
Rafael apontou outro armazém no mapa, a duzentos metros do primeiro. Doca quatro.
Otávio enviara a fotografia no galpão verde para atraí-los ao lugar errado.
Dante dividiu a equipe. Ele e Helena caminharam pelo cais sob a chuva. Entraram pela porta lateral da doca quatro e encontraram Sofia amarrada perto da borda, vigiada por um homem encapuzado.
Otávio não estava ali.
Helena saiu das sombras com as mãos erguidas.
"Você quer o gravador?"
O homem apontou a arma para ela.
"Coloque no chão."
Enquanto ele olhava para o bolso de Helena, Dante surgiu atrás de uma pilha de contêineres. Dois tiros ecoaram. O sequestrador caiu, ferido no ombro.
Dante correu para Sofia. Helena cortou as cordas da menina com uma lâmina encontrada no chão.
"Otávio estava aqui?", perguntou.
Sofia abraçou seu pescoço.
"Ele falou com a titia no telefone. Disse que a mulher azul tinha saído do esconderijo."
"Qual titia?"
"Titia Bia."
Dante ouviu. Seu rosto se tornou uma máscara.
O homem ferido riu.
"Vocês chegaram tarde. A velha já encontrou Lúcia."
Rafael invadiu o galpão com os outros seguranças. Dante entregou Sofia a ele e se inclinou sobre o sequestrador.
"Onde está Otávio?"
"Fazendo o que seu pai deveria ter feito dezoito anos atrás."
Antes que pudesse dizer mais, o homem mordeu algo escondido entre os dentes. Seu corpo se contraiu. Em segundos, ficou imóvel.
Helena desviou o rosto.
Sofia puxou seu avental.
"A moça azul me deu isso."
Era uma pequena chave presa a uma corrente, com o mesmo desenho de flor da caixa prateada. Junto dela havia um papel dobrado.
Helena reconheceu a letra da mãe.
ENCONTRE CAIO ANTES DE BEATRIZ.
"Caio morreu", disse Dante.
Sofia balançou a cabeça.
"A moça falou que ele dorme atrás dos santos."
Dante e Helena se entreolharam.
Na parede do galpão havia uma imagem antiga de Nossa Senhora do Monte Serrat. Atrás dela, encontraram um cofre embutido. A chave abriu a fechadura.
Dentro havia o caderno vermelho mencionado por Lúcia, cópias de transferências bancárias e uma fotografia.
Na imagem, Lúcia estava ao lado de Caio, Otávio e Beatriz. A data impressa no verso era de três meses depois da suposta morte de Caio.
Dante perdeu a cor.
"Meu irmão sobreviveu."
Rafael abriu o caderno. As páginas registravam contêineres usados para contrabando, pagamentos a policiais e desvios milionários das empresas Montenegro. As assinaturas pareciam pertencer ao pai de Dante, mas Helena notou que todas tinham a mesma falha: a letra M terminava com um traço duplo.
Era a assinatura de Beatriz nos recibos da casa.
Rafael fotografou cada página e enviou as imagens para dois endereços seguros. Entre os registros, Helena encontrou pagamentos mensais feitos a Marta Nunes, a mulher que levara Lúcia à clínica. Os depósitos haviam parado quatro meses antes, exatamente quando Lúcia recebera alta.
"Minha mãe pagava pelo próprio silêncio", disse Helena.
"Ou comprava tempo para chegar até você", respondeu Dante.
Outra página trazia as iniciais C.M. e a anotação PROTEGIDO. Dante passou o polegar sobre o nome do irmão.
"Se Caio viveu depois da explosão, alguém o escondeu."
"E talvez tenha sido Lúcia."
Pela primeira vez, a sobrevivência da mãe deixou de ser apenas um milagre. Ela podia ser parte de um pacto que mantivera duas famílias presas à mesma mentira.
O telefone de Dante tocou.
Otávio apareceu em uma chamada de vídeo. Atrás dele, Lúcia estava presa a uma cadeira, o rosto ferido. Beatriz permanecia ao lado, segurando uma arma.
Helena deu um passo para a tela.
"Mãe!"
Lúcia abriu os olhos.
"Filha, não entregue o caderno."
Beatriz encostou a arma na cabeça dela.
"Traga as provas à capela abandonada em uma hora", ordenou. "Dante vem sozinho. Helena fica com o caderno."
Otávio sorriu.
"E diga à empregada que escolha com cuidado. Se Dante entrar naquela capela, descobrirá quem realmente mandou matar o irmão. Se não entrar, Lúcia morre diante da filha."
A chamada terminou.
Dante guardou o telefone e olhou para Helena.
"Eles querem nos separar."
"Então vão fracassar."
"Se formos juntos, podem matar sua mãe."
Helena fechou o caderno vermelho.
"E se você for sozinho, vão matar você."
Do lado de fora, um tiro atingiu o vidro do galpão.
Rafael gritou para todos se abaixarem.
Homens armados surgiram nas duas entradas, e uma voz conhecida ecoou pelos alto-falantes do cais.
"Entreguem Helena Duarte", anunciou Otávio. "Dante Montenegro pode levar a filha para casa."
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