"A Empregada Que Desafiou o Chefe da Máfia" Capítulo 2 — A Porta Sem Maçaneta
Dante disparou antes que a cortina terminasse de balançar.
O tiro atingiu a parede. O agressor já saltava pela janela aberta, protegido pela escuridão do jardim. Rafael correu atrás dele, seguido por quatro homens.
Helena permaneceu no chão, abraçada a Sofia.
A menina tremia tanto que seus dentes batiam. A faca estava fincada na fotografia, exatamente sobre o rosto de Lúcia Duarte.
Dante retirou Sofia dos braços da empregada e examinou o pescoço da filha.
"Você está machucada?"
Sofia negou com a cabeça. Depois estendeu os braços de volta para Helena.
"Quero ela."
Beatriz pareceu ofendida.
"Sofia, essa mulher é uma desconhecida."
"Ela me salvou duas vezes."
A lógica infantil silenciou a sala.
Sofia então tocou o pulso de Helena, onde uma pequena cicatriz branca atravessava a pele.
"A moça da parede tinha uma marca assim."
Helena se arrepiou. A cicatriz vinha de uma panela que derrubara quando tinha quatro anos. Lúcia possuía uma marca semelhante, resultado do mesmo acidente, mas ninguém naquela casa poderia saber disso.
"Que parede?", Dante perguntou.
Sofia apontou para o corredor da ala de serviço.
Beatriz segurou os ombros da menina com força excessiva.
"Chega de fantasias. Ela está assustada."
Helena afastou a mão da mulher.
"Então não a assuste ainda mais."
Dante não repreendeu Helena. Em vez disso, examinou a tia como se uma peça antiga tivesse acabado de mudar de lugar.
Dante permitiu que Helena segurasse a menina, mas manteve a arma na mão. Otávio continuava perto da mesa, o rosto cuidadosamente neutro.
"O agressor veio pela ala oeste", disse ele. "Alguém deixou a janela destrancada."
Helena olhou para a janela. Do lado de fora havia um terraço alto, sem escada. Quem entrara conhecia o jardim e sabia onde as câmeras não alcançavam.
"Ele não tentou fugir de vocês", ela afirmou. "Tentou impedir Sofia de falar."
Dante pegou a fotografia rasgada. A lâmina atravessara os olhos de Lúcia.
"E quis mandar um aviso a você."
Rafael voltou dez minutos depois, com lama nos joelhos e raiva no rosto.
"Perdemos o homem perto do muro sul. Encontramos uma motocicleta abandonada, sem placa."
"Imagens da rua?"
"Já pedi."
Dante ordenou que um médico examinasse Sofia. Helena tentou acompanhá-la, mas Beatriz bloqueou o caminho.
"Você ficará sob vigilância até entendermos por que sua mãe aparece diante desta casa."
"Eu também quero entender."
"Mulheres como você sempre querem alguma coisa."
Helena se aproximou um passo.
"Hoje eu quis que uma criança continuasse respirando. O que a senhora quis?"
Beatriz ergueu a mão, pronta para esbofeteá-la.
Dante segurou o pulso da tia no ar.
"Nesta casa, ninguém toca nela sem minha ordem."
Helena não soube se aquilo era proteção ou ameaça.
Dante soltou Beatriz e conduziu Helena ao escritório. As paredes eram cobertas de livros e telas com imagens de portos, galpões e avenidas. Sobre a mesa, Rafael colocou a caixa prateada de Otávio dentro de um saco transparente.
"A análise demora algumas horas", explicou.
Otávio entrou sem pedir licença.
"Meu cliente não precisa me tratar como criminoso."
"Quando você virou meu advogado, aprendeu que ninguém nesta casa fica acima de uma investigação", respondeu Dante.
"Nem sua tia?"
"Nem eu."
Otávio encarou Helena.
"A moça reconheceu um objeto comum e todos perderam o juízo."
"A flor na tampa não é comum", disse ela. "Meu avô a gravou para minha mãe. Uma pétala tem um risco porque a ferramenta escapou."
Rafael virou o saco. A pétala superior tinha um risco diagonal.
O advogado cruzou os braços.
"Comprei essa caixa num antiquário da Rua Augusta. Talvez tenha pertencido a ela. Isso não significa que eu a conheci."
"Qual antiquário?", perguntou Dante.
Otávio hesitou.
"Não me recordo."
"Vai se recordar antes do amanhecer."
Pela primeira vez, Helena viu medo verdadeiro nos olhos do advogado.
Depois que ele saiu, Dante abriu uma gaveta e colocou sobre a mesa uma pasta amarelada. Dentro havia fichas antigas de funcionários.
"Minha família registra todos que trabalham aqui desde 1978. Não há nenhuma Lúcia Duarte."
Helena encontrou o ano dezoito anos antes. Três páginas tinham sido arrancadas.
"Isso deveria me convencer de que ela nunca esteve aqui?"
"Deveria me convencer de que alguém não queria que eu soubesse."
A resposta mudou alguma coisa entre eles.
Dante explicou que assumira o comando da família aos vinte e dois anos, depois da morte do pai. Na época, a propriedade era administrada por Beatriz. Ele se lembrava de uma funcionária chamada Lúcia, mas nunca soubera o sobrenome.
"Ela cantava na lavanderia", disse. "Meu irmão gostava de ouvi-la."
"Você tinha um irmão?"
O rosto dele se fechou.
"Caio morreu na mesma semana em que sua mãe desapareceu."
Helena sentiu frio.
"Minha avó disse que meus pais morreram num acidente na Rodovia dos Bandeirantes."
"Não houve acidente com duas vítimas naquela semana. Rafael verificou os registros."
O chão pareceu inclinar-se.
Durante dezoito anos, Helena visitara duas lápides sem corpos. A avó nunca permitira que ela perguntasse sobre o enterro. Dizia que a dor a deixava doente.
"Por que minha avó mentiria?"
"Talvez estivesse protegendo você."
"De quem?"
Dante olhou para o brasão dos Montenegro na parede.
"Da minha família."
Uma batida interrompeu a conversa. O médico informou que Sofia estava bem, mas se recusava a dormir sem Helena.
Dante a levou ao quarto da menina. Sofia estava encolhida sob uma colcha amarela, cercada de bonecas que pareciam nunca ter sido tocadas.
"Você viu quem mexeu na xícara?", perguntou ele com cuidado.
A menina apertou os lábios.
"Ele disse que a mamãe ia voltar se eu ficasse quieta."
Dante ficou imóvel.
Sua esposa, Camila, morrera dois anos antes numa colisão. Helena sabia disso pelos jornais, mas nunca vira tanta dor concentrada num único olhar.
"Quem disse isso?"
Sofia começou a chorar.
Helena sentou-se ao lado dela.
"Você não precisa dizer agora. Pode mostrar quando se sentir segura."
A menina segurou sua mão.
"A moça do vestido azul cantava para mim."
Helena perdeu o ar.
"Que moça?"
"A da foto. Ela aparecia aqui quando eu era pequena. Titia dizia que era sonho."
Dante chamou Rafael imediatamente. O chefe da segurança jurou que nenhuma mulher desconhecida entrara na casa. Beatriz afirmou que Sofia confundia lembranças da mãe.
Mas Sofia puxou Helena pelo dedo e apontou para o corredor.
"Ela entrava na parede."
À meia-noite, quando a casa enfim silenciou, Helena deixou o quarto. Um segurança a seguia a cinco passos. Perto da antiga lavanderia, ela ouviu uma melodia abafada.
Era a canção que Lúcia cantava enquanto penteava seus cabelos.
Helena encostou o ouvido no papel de parede. A música vinha do outro lado.
Procurou uma fechadura, mas encontrou apenas uma moldura de madeira sem maçaneta. Pressionou a flor entalhada no canto. Um mecanismo estalou, revelando uma passagem estreita.
O segurança chamou Dante pelo rádio.
Helena entrou antes que ele pudesse impedi-la.
O cômodo escondido cheirava a poeira e lavanda. Havia uma cama, roupas antigas, recortes sobre os Montenegro e dezenas de fotografias de Sofia tiradas à distância.
Sobre uma mesa, um gravador digital exibia uma luz vermelha.
Helena apertou o botão.
A voz de sua mãe encheu o quarto.
"Helena, se você encontrou isto, Dante já descobriu quem você é. Não confie em Beatriz. E, por favor, não deixe Otávio saber que eu ainda estou viva."
A gravação marcava uma data de apenas três dias antes.
Atrás de Helena, a porta secreta se fechou.
E alguém girou a chave pelo lado de fora.
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