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"Seu Abraço Era Frio Como o Mar" Capítulo 10 — A Última Porta da Casa Aurora

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Capítulo 10 — A Última Porta da Casa Aurora

"Entrem. Eu trouxe a criança que vocês perderam."

A voz de Augusto Brandão atravessou o ponto eletrônico e congelou Clara diante da tela de monitoramento.

Na câmera instalada na rua, Marina parou a meio passo da porta. Rafael ergueu uma mão, como se pudesse protegê-la até pela distância. Atrás deles, as vitrines da Casa Aurora refletiam os dois em duplicidade: quatro adultos entrando num lugar que Clara aprendera a temer.

Na sala da delegacia, Helena apertou o botão do rádio.

"Equipe um, mantenham posição. Ninguém entra até ele se comprometer com a fala."

"Ele disse criança", Clara falou. A garganta dela estava seca. "Não sou eu."

Helena não tirou os olhos das telas. "Eu sei."

A câmera do ponto de Rafael tremia com a respiração dele. Do outro lado da porta, o salão estava escuro, exceto por uma luminária sobre o balcão. O vestido azul-claro pendurado na vitrine agora estava no chão, amassado como pele abandonada.

Augusto apareceu atrás do balcão sem paletó, apenas de camisa branca e mangas dobradas. Não tinha o ar apressado de alguém encurralado. Parecia um homem esperando clientes atrasados.

"O caderno", ele disse.

Marina segurava uma bolsa de couro contra o peito. "Onde está a criança?"

"Você sempre faz perguntas fora de ordem. Foi assim que se tornou inconveniente." Augusto apontou para a bolsa. "Ponha sobre o balcão."

Rafael deu um passo à frente. "Se você tocou em alguém..."

"No senhor eu não tocaria. Você é útil quando está furioso." O sorriso de Augusto foi curto. "Sua mulher sempre precisou de alguém para fingir que era forte."

Marina não recuou. "Não diga que me conhece. Você só conhece o que tentou comprar."

Na sala de monitoramento, Clara prendeu o ar. A mãe nunca falara daquele jeito com ninguém. Helena ergueu dois dedos para um agente, indicando que continuassem esperando.

Augusto bateu uma vez no balcão. Uma portinha nos fundos se abriu e um homem desconhecido saiu empurrando uma cadeira de rodas. Sentada nela havia Joana.

Ela estava mais magra do que Clara imaginara, com cabelo grisalho e uma faixa no pulso. Mas estava viva.

Marina fez um ruído baixo, como se tivesse levado um golpe.

"Joana", ela disse.

"Não põe o caderno aí", Joana respondeu imediatamente. Sua voz era rouca, mas firme. "Ele não tem criança nenhuma. Ele só quer saber onde estão as cópias."

O homem atrás da cadeira puxou o braço dela. Augusto perdeu o sorriso.

"As cópias?" Rafael perguntou, mantendo o tom controlado.

Joana olhou para Marina. "Dona Cida mandou uma parte para a promotoria há anos. Eu mandei outra para uma rádio comunitária quando fugi. Achei que ninguém ouviria."

Clara sentiu o rádio de plástico pesar no bolso do casaco. A voz que a chamara naquela madrugada, a transmissão que falava de sua mãe perdida, não fora uma magia sem rosto. Talvez tivesse começado ali, numa gravação esquecida, numa mulher tentando deixar uma porta aberta para o futuro.

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Augusto se inclinou sobre o balcão. "Chega de teatro. A rádio nunca publicou nada porque todo mundo gosta de estar seguro."

"Você não está seguro", Marina respondeu.

Ela colocou a bolsa sobre o balcão e abriu o zíper devagar. Dentro havia um caderno preto, igual ao de Dona Cida, mas mais fino. Augusto estendeu a mão.

"Não", Marina disse. "Primeiro, Joana vem até mim."

"Você não tem poder de negociar."

"Tenho a sua voz." Marina tirou o celular da bolsa e apertou a tela. Pelo alto-falante, o áudio de Augusto na Fazenda Santa Luzia preencheu o salão: ‘A mãe é a mercadoria mais fácil de controlar.’

Augusto olhou para o teto, procurando câmeras. Helena deixou que o silêncio se prolongasse por dois segundos a mais.

"Isso é gravação ilegal", ele disparou.

"É a sua voz", Rafael disse. "E não é a única prova."

O homem atrás de Joana fez menção de puxar a cadeira para o corredor secreto. Clara viu na tela um brilho no bolso dele. Uma chave. A mesma chave curta que Bianca usava para abrir a passagem atrás do espelho.

"Helena", Clara chamou, apontando. "Ele vai levar a Joana para o corredor."

Helena já falava no rádio: "Equipe dois, bloqueiem a saída lateral. Equipe três, entrem pelo prédio vizinho."

Dentro da loja, Augusto percebeu o atraso na resposta de Rafael. Seu rosto endureceu.

"Vocês trouxeram a polícia."

"Você trouxe a polícia para dentro da vida de todo mundo", Marina respondeu. "Hoje ela só veio buscar você."

Ele empurrou o balcão. Um abajur caiu. O homem agarrou a cadeira de Joana e a arrastou para os fundos. Rafael correu, mas Augusto puxou uma arma de dentro da gaveta.

Na tela, Clara não conseguiu respirar.

"Pai!"

Helena segurou o ombro dela. "Ele está com colete. Olhe para mim."

Mas Rafael não parou. Em vez de avançar, chutou a base de um manequim, derrubando o vestido de noiva sobre Augusto. O tecido branco cobriu a arma por um instante. Marina lançou a bolsa contra o rosto dele.

O estampido veio seco, alto. O tiro atingiu o espelho, que explodiu em rachaduras brilhantes.

Augusto tentou correr para o provador. Helena e os agentes entraram ao mesmo tempo pelas duas portas. O homem que empurrava Joana virou pelo corredor lateral, mas encontrou a equipe três fechando a passagem. Joana soltou uma risada curta quando ele largou a cadeira para levantar as mãos.

Augusto ficou parado diante do espelho quebrado. Tinha cortes no rosto, e a arma estava a dois metros dele. Ainda assim, tentou manter a voz educada.

"Vocês não sabem como essas coisas funcionam. Sempre haverá alguém precisando de dinheiro. Sempre haverá alguém querendo esquecer uma pessoa."

Marina caminhou até ele. Helena tentou segurá-la, mas ela apenas parou a uma distância segura.

"Sim", Marina disse. "Sempre haverá dor. A diferença é que agora as pessoas vão saber que você lucrava com ela."

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Augusto olhou para o caderno no chão. "Acredita mesmo que papel muda alguém?"

"Não", respondeu Joana, sendo libertada das amarras por uma agente. "Mas uma pessoa falando muda. E hoje tem muita gente falando."

Helena algemou Augusto. Ao passar por Clara na saída, ele virou a cabeça e procurou a câmera da rua. Não podia vê-la, mas Clara teve a impressão de que ele a encontrava mesmo assim.

"Você acha que venceu porque é corajosa?" ele murmurou.

Clara saiu da viatura antes que Helena pudesse impedi-la, mas parou a dois passos de distância. Não correu, não gritou. Segurou Tito junto ao peito e encarou o homem.

"Não", ela disse. "A gente venceu porque você precisava que todo mundo tivesse medo sozinho."

Augusto foi colocado no carro policial. Quando a porta se fechou, o som pareceu arrancar alguma coisa pesada do peito de Marina.

Ela correu para Joana. As duas se abraçaram no meio da calçada, entre cacos de espelho e luzes azuis. Rafael se ajoelhou diante de Clara e verificou seu rosto, seus braços, como se precisasse contar cada parte dela.

"Eu estou bem", ela disse.

Ele a abraçou mesmo assim. "Eu sei. Ainda preciso fazer isso."

Mais tarde, Helena explicou que o caderno na bolsa era uma cópia feita por Dona Cida; o original já estava sob guarda da promotoria. A isca fora ideia de Marina, que insistira em transformar o medo de Augusto numa pressa impossível de controlar.

"E a criança que ele disse que tinha?" Clara perguntou.

Helena olhou para ela com seriedade. "Era mais uma mentira. Mas a mensagem que ele enviou antes nos ajudou. A voz dele e a arma vão somar às acusações."

Naquela noite, Clara dormiu entre os pais, com Tito sob o queixo. Antes de apagar a luz, Marina ligou o pequeno rádio de plástico. O chiado apareceu, depois uma voz feminina anunciou uma música antiga.

Clara escutou até o fim.

Pela primeira vez desde que voltara no tempo, o som não parecia um aviso.

Parecia uma promessa cumprida.

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